Desde início do segundo mandato, presidente americano tem implementado mudanças profundas no Departamento de Estado

A atual crise entre Brasil e Estados Unidos, agravada em agosto com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, ocorre em meio a um contexto mais amplo de transformações na diplomacia americana.

Especialmente neste segundo mandato, iniciado em 20 de janeiro de 2025, o presidente republicano Donald Trump vem adotando uma política externa comumente descrita por analistas como "transacional", ou seja, que busca maximizar os ganhos para os EUA de forma mais imediata.

Isso é demonstrado por iniciativas como as guerras tarifárias e tentativas de influenciar eleições e assuntos domésticos em outros países.

Segundo diplomatas americanos e estrangeiros, alguns dos quais comentam o assunto de maneira reservada, as mudanças têm sido profundas dentro do Departamento de Estado, responsável pelas relações internacionais do país.

A American Foreign Service Association (AFSA), associação que representa diplomatas de carreira na ativa e aposentados, calcula que cerca de 3 mil deles, de um quadro total de 14 mil, tenham pedido demissão, se aposentado ou sido forçados a sair nos últimos 18 meses.

"São diplomatas de carreira com décadas de experiência, que sabem como negociar com governos estrangeiros, têm amplo domínio de línguas estrangeiras e experiência em todas as diferentes áreas da política externa", diz à BBC News Brasil um representante da AFSA.

"Todo esse vasto conhecimento e essa experiência estão sendo afastados em grande escala. E, no longo prazo, isso acaba prejudicando o país", afirma.

O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, diz à BBC News Brasil que a redução do quadro de pessoal faz parte de uma "reestruturação histórica" do órgão e que os funcionários foram notificados sobre as demissões "em conformidade com todos os requisitos legais".

"Essas medidas foram elaboradas minuciosamente para viabilizar uma diplomacia alinhada ao 'America First' ["Os EUA em primeiro lugar", um lema de Donald Trump] que seja mais eficiente, ágil e assertiva", ressalta Pigott.

Para a AFSA, há uma tentativa de politizar o serviço diplomático.

"Os diplomatas sempre se orgulharam de seu compromisso apartidário com a política externa dos Estados Unidos. Passamos nossa carreira trabalhando tanto para governos democratas quanto republicanos, implementando as políticas de cada administração", diz o representante da associação.

De acordo com dados da AFSA até 10 de agosto, a maioria dos 113 nomeados por Trump para postos de embaixador são indicados políticos, e apenas 20 são diplomatas de carreira.

Essas indicações políticas são comuns nos Estados Unidos, e presidentes anteriores de ambos os partidos nomearam doadores de campanha ou aliados como embaixadores.

No entanto, o percentual de diplomatas de carreira indicados para esses cargos é de menos de 18% neste mandato, o menor da história recente do país.

Em todos os governos anteriores desde Gerald Ford (1974-1977), incluindo no primeiro mandato de Trump (2017-2021), esse percentual foi de cerca de 60% ou mais.

Pigott destaca que "o presidente tem o direito de determinar quem representa o povo e os interesses americanos ao redor do mundo" e "está reunindo uma equipe diplomática de elite alinhada ao princípio 'America First' para atuar em todo o seu governo".

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Além da onda de demissões e do baixo número de diplomatas de carreira nomeados, 97 dos 196 postos de embaixador dos Estados Unidos permanecem sem titular confirmado, segundo os dados mais recentes da AFSA.

O presidente dos EUA precisa fazer a indicação para o posto de embaixador e, em seguida, o Senado deve aceitá-la ou não. Em alguns casos, o processo de aprovação ainda está em andamento, mas em outros, não há nenhum indicado.