Operações terrestres anunciadas pelos EUA marcam nova fase da ofensiva de Trump contra o crime na América Latina.
América LatinaEUA preparam nova fase da guerra contra o crime organizado – e PCC e CV podem entrar na miraPor John Lucas
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleGoverno Trump disse que agora realizará operações terrestres contra o crime na América Latina. (Foto: Bonnie Cash/EFE/EPA/POOL)Ouça este conteúdo
Os Estados Unidos preparam uma nova fase da ofensiva contra organizações criminosas na América Latina, com a possibilidade de ampliar para operações terrestres uma campanha que até agora se concentrou em ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico. A estratégia também pode atingir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), classificados por Washington como organizações terroristas em junho deste ano.
O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou na semana passada que os EUA já estão trabalhando com países da região para expandir a estratégia de combate aos grupos criminosos. A iniciativa dará continuidade às ações já em curso contra o crime na região, que incluem os ataques contra embarcações do narcotráfico no Caribe e no Pacífico.
Hegseth também afirmou que a Colômbia, agora sob o comando do presidente conservador Abelardo de la Espriella, já autorizou operações militares conjuntas com os Estados Unidos. O secretário de Guerra também admitiu a possibilidade de os EUA realizarem ações mais amplas contra o Exército de Libertação Nacional (ELN) e outras dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que ainda atuam em território colombiano.
Ações terrestres não seriam algo inédito na atual ofensiva americana contra o crime na região. Em março deste ano, militares dos Estados Unidos afirmaram ter realizado operações letais por terra no Equador, com apoio das forças locais. Uma das operações incluiu um bombardeio contra um acampamento de narcotraficantes no nordeste do país, próximo à fronteira com a Colômbia. De acordo com o governo equatoriano, o acampamento era utilizado pelos Comandos de la Frontera, grupo criminoso colombiano formado por dissidentes das Farc, e tinha capacidade para abrigar cerca de 50 pessoas.
A operação realizada no Equador pode servir como um primeiro exemplo do tipo de ação que Washington pretende realizar nessa nova fase. Hegseth disse que pretende obter nessas operações terrestres o mesmo efeito das operações realizadas contra embarcações do narcotráfico no Caribe e no Pacífico, nas quais os americanos afirmam ter destruído mais de 60 embarcações e matado cerca de 220 indivíduos classificados pela Casa Branca como narcoterroristas.
Hegseth indicou também que, nesta nova fase, todas as organizações criminosas latino-americanas que foram classificadas pelos EUA como terroristas deverão se tornar “alvos legítimos” das forças americanas. Ele comparou esses grupos ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda e afirmou que capacidades desenvolvidas pelos EUA durante décadas de combate ao terrorismo no Oriente Médio poderão ser empregadas contra redes criminosas no Hemisfério Ocidental.
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, as ações anunciadas por Washington servem tanto para combater o narcotráfico quanto para ampliar a presença estratégica dos Estados Unidos na América Latina.
“Há uma guerra mais agressiva contra o crime organizado e há uma reconstrução da presença estratégica americana nas Américas”, afirmou Galvão.
O especialista considera que a mudança anunciada nesta semana está entre as maiores transformações da política antidrogas americana para a América Latina desde o Plano Colômbia, programa de cooperação lançado em 2000 que envolveu financiamento, inteligência, treinamento e equipamentos dos Estados Unidos para apoiar Bogotá no combate ao narcotráfico e a grupos armados.
Segundo Galvão, Washington passou agora de um modelo baseado principalmente na atuação da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), inteligência, extradições e assistência militar para outro em que a fronteira entre apoio e participação direta começa a diminuir.
Já estamos na Terceira Guerra Mundial?Ofensiva de Milei contra o crime ajuda a reduzir o número de homicídios na ArgentinaTrump coloca aliado de Rubio no comando da política dos EUA para a América LatinaEUA vão contar com mais países da América Latina em sua nova ofensivaA chegada de Abelardo de la Espriella à Presidência da Colômbia acrescentou à estratégia americana um dos países mais importantes para o combate ao narcotráfico nas Américas.
Ao assumir o cargo, De la Espriella colocou a Colômbia na Coalizão Americana Contra os Cartéis, que faz parte do chamado Escudo das Américas, iniciativa criada por Trump para coordenar a atuação dos países das Américas contra organizações criminosas transnacionais. A Colômbia não participava da iniciativa durante o governo do esquerdista Gustavo Petro.
O país é considerado por diversas organizações como o maior produtor mundial de cocaína. Segundo relatório da ONU, o país possuía cerca de 261 mil hectares de plantações de coca em 2024. As Nações Unidas também apontam que o país é uma das principais rotas para o tráfico internacional de drogas.
Além da Colômbia, países como Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá e Paraguai também integram a coalizão de Trump contra o crime. O governo Lula não colocou o Brasil na iniciativa.
Segundo o Departamento de Guerra americano, os países integrantes da coalizão já começaram a dividir responsabilidades e discutir quais organizações criminosas serão priorizadas nesta nova fase e quais funções cada parceiro poderá exercer.
Para Galvão, os países participantes da iniciativa devem trabalhar na oferta de inteligência, treinamento e apoio logístico, bem como na oferta de acesso territorial, capacidade naval ou aérea e até autorizar operações militares conjuntas.
Hegseth disse que o Equador e a Colômbia já toparam realizar operações conjuntas. O Paraguai, por sua vez, aprofundou sua relação de defesa com Washington no ano passado por meio do Acordo sobre o Estatuto das Forças (Sofa), que estabelece condições para a presença temporária de militares e civis americanos no país durante atividades de cooperação. A Argentina, sob Javier Milei, também se alinhou à política de combate às organizações criminosas, classificando diversos grupos como terroristas, seguindo o enquadramento adotado pelos Estados Unidos.
Segundo Galvão, a existência da coalizão permite que Washington apresente eventuais ofensivas por terra como uma ação coordenada por governos do continente contra uma ameaça comum, e não como uma intervenção unilateral dos Estados Unidos na América Latina.




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