Apenas uma semana atrás, o "alerta de misantropia" lembrou a fragilidade do sistema de aviso da Defesa Civil. Ironicamente ou não, o alarme hacker misantrópico fez bem mais barulho do que desastres reais dos dias atipicamente chuvosos deste junho. Leia mais (06/27/2026 - 22h30)
Jornalista e quadrinista, é ombudsman da Folha. Já foi secretária-assistente de Redação, editora de Diversidade e editora-adjunta de Especiais e Ilustrada
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27.jun.2026 às 22h30
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Apenas uma semana atrás, o "alerta de misantropia" lembrou a fragilidade do sistema de aviso da Defesa Civil. Ironicamente ou não, o alarme hacker misantrópico fez bem mais barulho do que desastres reais dos dias atipicamente chuvosos deste junho.
"Chuva causa queda de árvores, desabamento e caos no trânsito em São Paulo" foi ao ar na quarta (24), sem muita explicação sobre tanta água nesta época. Não parecia uma chuva qualquer: "Em 24 horas, foram registrados 94 mm de precipitação, (...) mais da metade da chuva prevista para o mês inteiro". "Três cidades do estado de SP registram em apenas um dia a chuva esperada para todo o mês." O sistema de alertas continuava fora do ar após o ataque hacker misantrópico. Teria feito diferença?
No "bairro Cidade Dutra, na zona sul [de São Paulo], uma enxurrada atingiu cerca de dez moradias" e "60 moradores ficaram desalojados". "Um homem morreu soterrado e duas pessoas ficaram feridas após o desabamento parcial de um sobrado em Cangaíba, na zona leste de São Paulo."
Isso se seguia a outros incidentes: na semana anterior, houve deslizamento na Rocinha, no Rio, e uma casa desabou na Brasilândia, em São Paulo.
No começo do mês, os jornais falaram bastante da chegada do El Niño, com os riscos associados a ele: "Adaptação emergencial ao El Niño vai de protocolos para chuvas a centros públicos de resfriamento", "Sua cidade está preparada para enchentes e deslizamentos? Confira", "Mudança climática altera dinâmica do El Niño e aumenta eventos extremos", "Para cientistas, não há consenso de que mudanças climáticas turbinam o El Niño".
A mudança climática é assunto há já muitos anos no mesmo sentido, e o jornal é bom para fazer alertas sobre as consequências da queima de combustíveis fósseis. Mas problemas concretos acabam com frequência tratados como casos isolados.
Passadas as semanas de muita umidade em época tradicionalmente seca, o leitor não ficou sabendo se as chuvas atípicas de junho seriam já efeito do El Niño, de um novo normal ou da mudança climática. Nem havia muito questionamento nesse sentido.
Ao mesmo tempo, o consumidor de notícias brasileiro acompanha outra onda bem distante: "El Niño intensifica a onda de calor recorde que atinge a Europa".
Num mesmo dia, duas notícias quase lado a lado davam mostra da diferença de perspectiva: "Criança morre em carro em dia de recorde de calor na França" e "Desabamento de casa na Ilha do Governador mata duas crianças após temporal no Rio de Janeiro".
Histórias tão diferentes talvez contassem pedaços do mesmo problema. Mas, no jornal, elas se distanciavam também nos chapéus —as vinhetas sobre os títulos. No drama europeu, o chapéu era "mudança climática". Na tragédia brasileira, "RJ".
Não era mero acaso. No índice de Ambiente, na Folha, aparecem várias notícias sobre os eventos climáticos no velho continente, seguindo uma cobertura já estabelecida por lá. No britânico The Guardian ou no francês Le Monde, não é raro ler que "as condições de calor extremo" foram "intensificadas pela crise climática". Isso aparece também no conteúdo traduzido de agências ou produzido pelos correspondentes.


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