Como Fefe Schneider, 24 anos, soube se diferenciar da geração anterior de celebridades digitais e construir uma outra identidade de cultura digital

Priorizar nos meus resultados Google Diferentemente da geração anterior de celebridades digitais, surgidas na década passada, há uma leva curiosa de gente mega conectada que vem construindo uma identidade que se relaciona com o universo geek, horror, true crime, cinema e comportamento – temas que hoje dominam a conversa cultural da Gen Z,e que diversas empresas estão atentas. Um dos nomes mais fortes nesse cenário é o de Fefe Schneider, 24 anos. Mas nada foi por acaso.

Até chegar neste degrau, lá se vão seis anos de labuta com celular na mão. A carioca foi uma dos tantos jovens que utilizaram a pandemia como uma maneira de fazer dinheiro sem sair de casa – a um clique das telas de celular. Isolada nos Estados Unidos, onde morava, decidiu produzir conteúdos sobre true crime, e deu certo. Hoje soma mais de 25 milhões de seguidores nas redes sociais e conseguiu realizar o sonho de ser atriz, colecionando vários trabalhos no cinema e no streaming.

Agora a coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente 

Na época em que começou a provocar engajamento, o termo mais comum a este tipo de trabalho era “influenciador digital”. Agora uma nova nomenclatura surge a reboque do que o antigo adjetivo tem de pejorativo. Os creators, como são chamados, são mais criativos e querem mais informar o seguidor do que realmente aparecer nas redes.

“É a pessoa que, de fato, não copia vídeo de outras pessoas, porque existe muito isso de pegar um conteúdo que vem de fora e traduzir para o português. O creator senta, escreve um roteiro, pensa no vídeo, pesquisa… É alguém que de fato não quer aparecer, mas vai por consequência. Quem quer fazer um conteúdo interessante e que vai agregar na vida de alguém”, define ela à coluna GENTE.

Enquanto estava nos EUA, Fefe via muitos vídeos de TikTok sobre crimes reais, casos de sequestro ou não solucionados. Logo percebeu que no Brasil não tinha ninguém falando sobre o assunto e decidiu se aventurar no vasto mundo policial. Tinha ali encontrado seu nicho – algo tão necessário a quem quer se destacar em terrenos virtuais. “O próprio TikTok me disse que fui a primeira mulher brasileira a criar de fato esse conteúdo. Meu primeiro vídeo desse tema bateu 1 milhão de visualizações. Em um ano ganhei 10 milhões, foi muito rápido”, recorda.

Mas o “pulo do gato” de Fefe foi entender a nova lógica que parece estar transformando o universo influencer e o entretenimento como um todo: a forma como a Gen Z, da qual ela faz parte, passou a consumir cinema, streaming, festivais, cultura pop e grandes eventos através de novos nomes que funcionam como “curadores” de uma linguagem que funciona no meio digital, em produções multiplataforma.

Fefe assim deixou de ser apenas uma criadora digital para vir a se tornar um dos nomes mais fortes dessa nova geração de personalidades que “jogam nas onze”, como diriam os mais velhos, os millenniuns.

Aulas de Criminologia 

Até hoje ela produz esse tipo de conteúdo, mas agora tem o apoio de um colaborador que pesquisa o tema para vídeos do YouTube. O interesse foi tanto que Fefe cursa Criminologia, de forma online, na faculdade Anhanguera, para entender como funcionam as investigações. “Já houve vários casos em que a própria família da vítima me mandou informações sobre um lugar para falar. Isso é recorrente, porque às vezes não encontram espaço no jornal para falar. Já recebi inúmeros casos de pessoas falando: ‘aconteceu isso aqui na minha cidade e me mandam informações’. Eu averiguo os dados com base em sites de notícia, tento sempre ser certa no que informo”.

Mas o real motivo pelo qual a criadora de conteúdo surgiu e ganhou espaço na internet foi para realizar o sonho de ser atriz. Formada em Artes Cênicas pela Casa de Artes Laranjeiras (CAL), atuou em Se Eu Fosse Você 3 e Tiros No Escuro, que fala sobre o massacre em um cinema em São Paulo, em 1999.

Outros influenciadores acabam conseguindo um espaço nas telonas mesmo sem formação, diferentemente de Fefe: “Já perdi papel para pessoas que têm mais seguidores, mas não têm um DRT (registro profissional obrigatório). Se a coisa não é para ser minha, ela não vai ser, mas tem essa onda de influenciadores que querem migrar para o audiovisual”, conforma-se a jovem.

Passos internacionais

Só neste ano, Fefe protagonizou o longa Preto no Branco, ao lado de Caio Antonelli, filme que discute privilégios da branquitude e questões sociais contemporâneas. Gravou a série Quero Ser Alguém, de Matheus Souza, e o longa Sessão Final, ao lado de Werner Schunemann e Caio Paduan. Em paralelo, esteve no Oscar, a convite da TNT e HBO Max Brasil, produzindo conteúdo durante o Academy Awards. Nos últimos anos, entrevistou nomes como Margot Robbie, Jacob Elordi, Jenna Ortega, Sydney Sweeney, Jared Leto, Tim Burton e Millie Bobby Brown.

Com toda essa lista, o que não falta é história e perrengue. A criadora já passou por sufocos antes de conseguir entrevistar celebridades. “Começou a obra do lado da minha casa, no prédio da frente, e era uma britadeira que não deixava eu ouvir dentro da minha casa o que se falava. Saí chorando para o outro prédio pedindo para pararem por dez minutos, para que eu pudesse entrevistar. Na hora que abri a câmera, acabou”, conta, aliviada.

Com carisma (elemento também essencial diante das telas), conseguiu deixar Millie Bobby Brown mais à vontade diante da micro-câmera do celular. “Ela estava cansada e não aguentava mais tanta entrevista num só dia. Fui fazer um jogo e no final ela já estava gritando, subindo na cadeira para responder. Senti que fiz o trabalho direito”, comemora.

Mais do que influenciadora ou atriz, ela vem tentando se firmar como uma ponte entre a indústria do entretenimento e o público jovem, ajudando a transformar grandes estreias, festivais e eventos globais em experiências digitais consumidas em tempo real. Fefe soube sair da micro-tela para todas as demais que vê pela frente. Nessa nova lógica da indústria do entretenimento, onde creator economy, audiovisual e o papel da Gen Z na cultura pop precisam dialogar de forma orgânica, seu “crime” preferido é estar conectada em todas as frentes. Seja como testemunha, seja como protagonista da ação, ela não é nada inocente.