Foto: “A Pele Morta”, de Bruno Fatumbi Torres e Denise Moraes

Por Maria do Rosário Caetano

A quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro vai começar com sessão especial, hors concours, de “A Pele Morta”, produção baiana com DNA candango. Afinal, seus diretores, Bruno Fatumbi Torres e Denise Moraes, têm suas trajetórias ligadas, em profundidade, à capital federal.

Produzido pela baiana Sol Moraes, da Araçá Filmes, “A Pele Morta” constitui-se como um road movie latino-americano, protagonizado por um caminhoneiro (o uruguaio César Troncoso) e um jovem indígena da etnia guarani-kaiowá (o brasileiro Luan Iturve). Os dois encontrarão, pelas “carreteras” da vida, uma adolescente paraguaia (Ivana Gomez).

No encerramento, mais um filme de realizador brasiliense, Santigo Dellappe, convocado a dirigir em outro território (o Rio de Janeiro), ficção inspirada no Verão da Lata. Em setembro de 1987, um navio de bandeira estrangeira arremessou 22 toneladas (sim, toneladas!) de maconha enlatada ao mar, próximo a Angra do Reis.

As correntes marinhas levaram milhares de latas a outras praias do Sudeste. O auê causado pela inusitada carga gerou comédia policial, protagonizada por Samantha Schmütz (Agente Sandra) e Babu Santana (Agente Braz). Também atuam no filme nomes conhecidos como Leandro Firmino da Hora (o Zé Pequeno, de “Cidade de Deus”), Humberto Martins e Paulinho Serra.

A trama de “A Pele Morta” (roteiro de Daniel Tavares, ex-coordenador da Cátedra de Guiones da cubana Escuela de Cine y TV de San António de los Baños) mostra um jovem guarani-kaiowá, que encontra-se em processo de luto pela morte do irmão. Ele aceitará o convite de um caminhoneiro, que vive de fretes ocasionais por países da América do Sul, para trabalharem juntos. Cruzando fronteiras, eles darão carona a uma adolescente, La Paraguaia, que busca irmã desaparecida.

Sol Moraes realiza, com este road movie falado em espanhol, português e guarani, projeto que seu companheiro, o cineasta Geraldo Moraes (1939-2017), não teve tempo de realizar. O roteiro de “A Pele Morta” chegou às mãos de Geraldo e Sol na Escuela de San António. O realizador gaúcho-brasiliense colaborou, por seis anos, com a Cátedra de Polivalência da instituição criada há exatos 30 anos por Gabriel García Márquez e associados da Fundación del Nuevo Cine Latino-Americano. E lá o brasileiro aprofundou suas relações com a América Hispânica.

“A sessão inaugural do Festival de Brasília” – diz Sol Moraes – “será um tributo à memória de Geraldo (Moraes) e ao nosso diretor de fotografia, Antonio Luiz Mendes (1946-2021), que desempenhou papel fundamental na realização de ‘A Pele Morta’”.

Vinte atores e técnicos uruguaios, paraguaios e brasileiros se juntarão aos diretores e à produtora no palco do Cine Brasília para prestigiar a sessão. “César Troncoso, que está filmando na Argentina, conseguiu dois dias de folga para assistir ao filme e participar do debate no dia seguinte”, lembrou Sol Moraes.

Entre “A Pele Morta” e “O Verão da Lata”, o público do mais tradicional festival do país, criado em 1965 por Paulo Emilio Salles Gomes e equipe, contará com suculento recheio. A começar pela mostra competitiva de longas brasileiros, composta com sete títulos, todos de recorte autoral e 100% inéditos em telas brasileiras. Junto aos longas serão exibidos 12 curtas vindos de diversas regiões brasileiras.

No mesmo Cine Brasília, palco nobre do festival, serão realizadas mostras complementares. A principal delas, com sessões no final de tarde, é a Mostra Brasília, promovida pela Câmara Legislativa do DF. Serão apresentados quatro longas e onze curtas candangos.

O festival conta, ainda, com as mostras Caleidoscópio (que atribuirá o Prêmio Bernardet ao melhor filme), o Festival dos Festivais (com títulos já destacados em outras competições), História(s) do Cinema Brasileiro (fincada na memória fílmica), a Première DF e o Festivalzinho (cuja peça de resistência será o longa capixaba “Folclórica”, de Rodrigo Aragão, criativo terror light engendrado para infantes).

A competição de longas brasileiros reúne duas produções mineiras – “Se Eu Fosse Vivo…Vivia”, de André Novais Oliveira, e “Ana, en Passant”, animação de Fernanda Salgado; uma brasiliense, “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira; uma goiana, “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco; uma carioca, o documentário “Tudo é Tempo”, de Marcos Guttman; uma baiana, “Todo o Sentimento”, da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio; e uma paulista, “Privadas de suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner.

Um dos competidores, André Novais Oliveira, tem em sua estante um Troféu Candango de melhor filme (por “Temporada”, 2018). Sócio fundador da produtora Filmes de Plástico, nascida no município de Contagem, na Grande BH, o realizador chega à capital federal com “Se Eu Fosse Vivo…Vivia”, protagonizado por seu pai, Norberto Novais Oliveira (o Sr Gilberto), e pela escritora Conceição Evaristo (Dona Jacira). Os dois personagens, quando uniram seus destinos, haviam se comprometido a “envelhecer juntos, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. Até que a morte os separasse.

Depois de 50 anos de vida em comum, Dona Jacira é subitamente internada num hospital. O companheiro Gilberto passará, então, a vivenciar acontecimentos perturbadores. O filme, um drama íntimo, com toques de comédia de costumes, vai incorporar elementos de ficção científica. No elenco estão os jovens Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo, que interpretam os protagonistas em suas juventudes setentistas. No elenco secundário estão Wilson Rabelo, Aisha Brunno, Demétrio Nascimento, Suellen Sampaio e Zora Santos.

Curioso notar que, enquanto André exibe seu novo filme na vitrine do festival brasiliense, seu sócio, Gabriel Martins, o Gabito, participa, com “Vicentina Pede Desculpa”, do Festival de Toronto, no Canadá. Em outubro, disputará o Troféu Redentor, no Festival do Rio. “Vicentina” é o mais forte dos 15 pré-candidatos habilitados a representar o Brasil no Oscar internacional 2027.

A Filmes de Plástico e o cinema mineiro vivem momento dos mais alvissareiros. Não será surpresa se os dois festivais — o candango e o carioca — laurearem “Se Eu Fosse Vivo…” e o drama social de Gabito. A empresa mineira está se preparando, com empenho e dedicação, para o desafio do Oscar. Experiência que começou com a pré-indicação de “Marte Um”.

O outro filme mineiro na disputa pelo Troféu Candango – “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado – representa segmento da produção audiovisual brasileira que começa a ganhar vulto em BH, graças aos esforços, em especial, da Escola de Belas Artes da UFMG.

O currículo de Fernanda é dos mais instigantes. Nesse momento, ela prepara, no Canadá, sua tese de doutorado sobre cinema de animação. E avisa que está “desbravando os invernos rigorosos de Montreal”(mas virá a Brasília para mostrar e debater seu filme). Lembremos que o Canadá, graças aos esforços do escocês Norman McLaren e do NFB (National Film Board), tornou-se a Meca da animação autoral. Lá, formaram-se nomes brasileiros da importância de Marcos “Meow” Magalhães. A diretora mineira encontra-se, pois, em locus privilegiado. Ela, “uma Berlinale Talents”, é cofundadora do Apiário Estudio Criativo e trabalha como roteirista, produtora e diretora desde 2005. Vinte um anos de batalha, portanto.