O Programa Municipal de Fomento ao Teatro de São Paulo nasceu com a premissa de fortalecer e expandir a produção teatral da cidade, garantindo que artistas desenvolvessem pesquisas continuadas e obras de qualidade para o público. No entanto, ao longo dos anos, o que se observa e? um distanciamento entre o espírito original do programa e sua prática concreta. Leia mais (06/28/2026 - 22h00)
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28.jun.2026 às 22h00
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Léo Stefanini Ator, diretor teatral e vice-presidente da Rede de Teatros e Produtores Independentes
O Programa Municipal de Fomento ao Teatro de São Paulo nasceu com a premissa de fortalecer e expandir a produção teatral da cidade, garantindo que artistas desenvolvessem pesquisas continuadas e obras de qualidade para o público. No entanto, ao longo dos anos, o que se observa é um distanciamento entre o espírito original do programa e sua prática concreta.
O primeiro ponto é a baixíssima proporção de contemplados em relação ao número de proponentes. A cada edição, centenas de projetos são inscritos, revelando uma cena teatral pulsante e necessitada de apoio. Mas uma fração mínima é selecionada.
A lei limita o número de contemplados em 30 projetos por ano, algo que precisa ser ampliado, já que a realidade do teatro paulistano é muito diferente da época em que a lei foi criada. Essa discrepância não apenas frustra artistas, mas expõe um problema estrutural: o fomento, que deveria irrigar o ecossistema teatral, acaba funcionando como um funil extremamente estreito e incapaz de responder à demanda real da cidade.
Além disso, é recorrente a concentração de recursos. Observa-se que determinados grupos e entidades são contemplados repetidas vezes, enquanto uma grande parcela da classe teatral permanece sistematicamente excluída.
Não se trata de questionar a qualidade desses grupos, muitas vezes, relevante, mas de problematizar um modelo que, na prática, perpetua desigualdades. Um fomento público não pode operar como mecanismo de consagração contínua de poucos, sua função é ampliar o acesso, democratizar oportunidades e permitir a renovação da cena.
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Outro desvio é a não exigência de que os contemplados realizem um mínimo de espetáculos públicos, algo que não faz sentido para o teatro. O teatro —sua linguagem, potência estética e principalmente o encontro com o público— deveria ser o centro da lei. O que se percebe é que aspectos acadêmicos e burocráticos dos projetos acabam tendo mais peso na análise das comissões. Vale mais um projeto "adequado", recheado de ações formativas, do que o teatro feito no palco.
O fomento deve acolher a diversidade de linguagens, trajetórias, visões de mundo —e não promover a pasteurização da produção. O modelo atual privilegia, de forma quase exclusiva, a lógica dos grupos teatrais. Embora essa diretriz tenha sua importância histórica, ela acaba por tornar invisíveis outras formas legítimas de produção teatral, como é o caso dos produtores independentes. Profissionais que não estão necessariamente vinculados a grupos estáveis, mas que são fundamentais para a existência do teatro na cidade, articulando projetos, viabilizando montagens, conectando artistas, espaços e públicos.
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O teatro contemporâneo é múltiplo: há coletivos, companhias, parcerias pontuais. Reduzir o acesso da lei de fomento a estruturas fixas, é ignorar essa realidade dinâmica.
O teatro de São Paulo é maior que qualquer edital. Ele resiste, insiste e se reinventa todos os dias nos palcos e fora deles. Um programa de fomento à altura dessa vitalidade não pode ser excludente, concentrador ou descolado de sua finalidade essencial.


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