Hitomi com o ex-sargento do Exército dos EUA, Charles Robert Jenkins BBC Era uma tarde quente de agosto na ilha de Sado, no Japão, quando a vida de Hitomi Soga, de 19 anos, mudou para sempre. Ela tinha ido ao supermercado com a mãe e as duas estavam voltando para casa. De repente, três homens apareceram por trás e sequestraram mãe e filha. "Eles taparam nossas bocas com alguma coisa e colocaram uma espécie de saco sobre nossas cabeças", lembra Soga. Os dias seguintes foram um bor

Hitomi com o ex-sargento do Exército dos EUA, Charles Robert Jenkins — Foto: BBC

Era uma tarde quente de agosto na ilha de Sado, no Japão, quando a vida de Hitomi Soga, de 19 anos, mudou para sempre.

Ela tinha ido ao supermercado com a mãe e as duas estavam voltando para casa.

De repente, três homens apareceram por trás e sequestraram mãe e filha.

"Eles taparam nossas bocas com alguma coisa e colocaram uma espécie de saco sobre nossas cabeças", lembra Soga.

Os dias seguintes foram um borrão na memória, enquanto ela era transferida da costa litorânea para o que ela acreditava ser primeiro uma lancha e depois um navio maior.

Soga diz que não teve a chance de falar com a mãe, de quem se recorda como uma pessoa generosa, inteligente e amorosa.

"Não pude trocar algumas últimas palavras com ela."

Dias depois, finalmente tiraram a venda dos seus olhos, e ela pensou: "Isto não é o Japão".

Soga havia sido levada para a Coreia do Norte, vítima de um programa secreto de sequestros patrocinado pelo Estado durante as décadas de 1970 e 1980.

Ela permaneceria lá pelos próximos 24 anos.

Sequestros patrocinados pelo Estado

Uma teoria sugere que as autoridades norte-coreanas pretendiam usar as pessoas sequestradas como os chamados "livros didáticos vivos", permitindo que espiões aprendessem o idioma e os costumes japoneses para, posteriormente, se infiltrarem no país.

O Japão identificou pelo menos 17 pessoas que foram sequestradas entre 1977 e 1983, embora o número possa ser maior.

"Eu ainda não sei se fui alvo específico ou se foi algo aleatório", diz Soga.

Durante os dois primeiros anos, ela ficou detida em um quartel militar. Ela não sabia o paradeiro de sua mãe e nunca perguntou aos funcionários por que havia sido levada para lá. Soga pressentia que eles não lhe contariam a verdade.

O ex-sargento do Exército dos EUA, Charles Robert Jenkins chega com Hitomi Soga ao Japão, em 2004 — Foto: BBC

"Eu saía do quartel, olhava para o céu, via a lua e as estrelas e chorava pensando na minha família no Japão e em quando os veria novamente."

Apesar do medo e do isolamento, ela tentou manter a esperança de que um dia seria livre.

"Sempre guardei isso no meu coração. Esperava que tudo isso chegasse ao fim, e essa esperança nunca se apagou."