Excesso de capacidade e guerra de preços aceleram reorganização da indústria chinesa; especialista alerta para risco de desaparecimento de marcas e impacto no valor de revenda dos veículos

Com tanta marca chinesa, será que o mercado começa a ficar saturado? A indústria automobilística chinesa está entrando em uma fase de consolidação que pode mudar o mercado global de carros elétricos. E isso pode ter efeitos também no Brasil. O excesso de capacidade, a grande quantidade de concorrentes e a guerra de preços pressionam as fabricantes, enquanto o governo chinês passou a apoiar a integração de grandes grupos.

Um dos sinais mais recentes é o acordo entre GAC Group e FAW Group, duas grandes montadoras estatais chinesas. A operação prevê a integração de recursos industriais e pode fazer da FAW a segunda maior acionista da GAC, com influência estratégica. Parte da negociação envolve uma joint venture automotiva.

O movimento acontece em um momento de forte transformação da indústria. Montadoras estatais, que durante a era dos motores a combustão dependiam de joint ventures com fabricantes estrangeiras, perderam espaço para empresas chinesas mais novas no avanço dos veículos eletrificados. A GAC, por exemplo, teve prejuízo líquido de 4,5 bilhões de yuans no primeiro semestre, alta de 76% em um ano. A BAIC também saiu de lucro para prejuízo.

Para Milad Kalume Neto, da K.Lume Consultoria, o que acontece na China é uma combinação de crise e consolidação.

Nesse cenário, a sobrevivência não dependerá necessariamente do tamanho da empresa.

"Somente as mais eficientes sobreviverão. E isso não significa que a eficiência esteja nas gigantes. É claro que elas têm eficiência operacional, mas eventualmente podem não ter eficiência no processo total até a venda ou, ampliando, o pós-venda", afirma.

O problema está na diferença entre capacidade produtiva e demanda. Produzir em grande escala não é necessariamente ruim se os veículos conseguem ser vendidos na China ou exportados.

"Produção é a base de um processo que inclui vendas, estoque e exportação. Se você produz muito e consegue exportar bastante, mesmo vendendo internamente pouco, está tudo bem", explica Kalume Neto. "Mas se sua produção é tão grande — e é difícil baixá-la justamente pelo ganho de escala e relação com fornecedores, entre outros — e não consegue escoá-la via vendas ou exportação, seu estoque sobe. É o que ocorre hoje na China."

O excesso de capacidade e a guerra de preços são apontados como fatores que podem acelerar a concentração da indústria. O governo chinês também sinalizou apoio a fusões entre grandes grupos para consolidar recursos produtivos e evitar a concorrência considerada "homogênea".

A consolidação pode ser profunda. Segundo Kalume Neto, existem atualmente 112 marcas pertencentes a aproximadamente 55 grupos, enquanto cerca de 80% do mercado está concentrado em aproximadamente 15 grupos. "Empresas serão adquiridas, outras apenas trabalharão em nichos e outras desaparecerão do mercado", afirma.

O especialista não vê necessariamente o governo chinês tentando escolher quais empresas serão vencedoras. Para ele, o objetivo é preservar a própria indústria. A consolidação, por sua vez, pode aumentar a competitividade dos grupos que permanecerem, mas desde que a reorganização seja efetiva.

"É necessário entender que as marcas precisam de fato desaparecer e deixar de produzir, evitando produtos que canibalizem o mercado", diz o especialista.

A FAW, por exemplo, já vem se aproximando de uma empresa mais nova: comprou 5% da Leapmotor, que aqui no Brasil é representada pela Stellantis (que também é detentora de marcas como Fiat, Jeep, Ram, Peugeot e Citroën), e anunciou posteriormente uma cooperação ampliada em áreas como capital, condução assistida e inteligente e finanças.

O processo importa para o Brasil porque diversas fabricantes chinesas estão expandindo suas operações no País. Para Kalume Neto, o Brasil já é um polo estratégico e tende a ganhar ainda mais importância para os grupos que sobreviverem.

Mas a reorganização também cria um risco para quem já comprou um carro chinês. "Se forem as adquiridoras, sem problemas. Se forem as adquiridas, problemas de confiança na continuidade da marca aparecerão e, decorrentes desta análise, o valor residual."

Na avaliação do consultor, o consumidor deve observar principalmente a capacidade de uma marca sustentar sua operação no longo prazo. "Mas o cliente não precisa se preocupar com qualquer marca, apenas com aquelas que não emplacarem no mercado, sejam elas pequenas ou não na própria China."

O tamanho do grupo também pode ser uma vantagem. Kalume Neto cita GAC, Changan e Leapmotor como empresas que contam com grupos fortes por trás.

"O que diferencia é o fato de estas empresas terem um grupo forte por trás podendo aturar eventuais quedas no mercado. Uma empresa pequena não teria capacidade para suportar tantas instabilidades. O mesmo se aplica a um investimento de uma marca no Brasil."

Para o especialista, porém, ter um grupo grande por trás não é suficiente. A capacidade de manter uma rede de atendimento e preservar o valor dos veículos será fundamental. "E este risco está no pós-vendas mal trabalhado. É o foco que a indústria chinesa precisa dar hoje evitando problemas de valor residual de suas marcas."

Isso pode atingir até empresas atualmente relevantes. "Se não preservarem o valor do veículo em relação à depreciação, uma marca muito representativa hoje pode não sobreviver", diz.