Novo método de abordagem facilita fuga dos criminosos; secretário da Segurança Pública diz que patrulhamento será reforçado com dezenas de motocicletas

As quadrilhas “quebra-vidro” em São Paulo têm mudado modus operandi dos assaltos. Antes esse tipo de crime era praticado por bandidos a pé ou de bicicleta, agora há uma nova estratégia: os ladrões agem em duplas e têm usado motocicletas para surpreender as vítimas e facilitar a fuga (veja vídeo acima).

O ataque por motos costuma acontecer em dupla, e os principais alvos são motoristas de aplicativo e passageiros distraídos que deixam bolsas no colo ou celulares à mostra. Enquanto um dos criminosos desce da garupa para realizar o assalto, o outro já posiciona a moto de modo a fugir o mais rápido da cena do crime. É comum também usarem placas adulteradas para despistar as autoridades.

A influencer Tabata Lenk, de 23 anos, foi alvo de um roubo desse tipo no dia 28 de agosto, na Avenida Presidente Tancredo Neves, na zona sul de São Paulo. Levou menos de cinco minutos para o bandido concluir o assalto - tudo foi filmado por uma câmera interna acoplada ao próprio automóvel de Tabata.

Ao Estadão, Tabata diz que costuma esconder os seus pertences, mas se descuidou naquele dia. Agora ela instalou uma película antivandalismo no vidro do veículo. “A gente tem de ter a segurança de ir e vir para onde quer e como quer”, conta a jovem (veja vídeo abaixo).

A Secretaria da Segurança Pública do Estado afirma que as polícias Civil e Militar atuam em conjunto para combater delitos patrimoniais e desmantelar a cadeia de receptação e comercialização dos telefones. Sobre o caso de Tabata, a pasta diz que a polícia já identificou os suspeitos e atua para prendê-los.

Quebra-vidro: Influencer descreve assalto que sofreu na zona sul de SP

8:02Tabata Lenk registrou o momento em que criminoso invade seu carro e toma seu celular. Crédito: Tabata Lenk/ Arquivo pessoal

“Há essa sofisticação do crime”, afirma Antônio Carlos Boucault, presidente do Conselho de Segurança do Ipiranga, na zona sul paulistana. “Antes, víamos meninos roubando de bike com a ajuda de flanelinhas. Agora, usam motos com placas adulteradas e capacetes, que ajudam a fugir mais rápido e correm menos riscos porque o rosto está coberto.”

Ao menos dois casos de quebra-vidro com motos foram registrados no Ipiranga recentemente, um em maio e outro em agosto, ambos na Rua Agostinho Gomes.

Em ambas as situações, os criminosos aproveitam que os carros estão parados no trânsito para praticar o assalto e fogem pela contramão da via. Tudo isso no período da tarde, aos olhos de várias testemunhas.

Para Boucault, a moto ajuda os bandidos a serem mais certeiros porque permite identificar uma vítima no trânsito e persegui-la por mais tempo antes do ataque em locais onde sabem que há menos fiscalização. “Eles já sabem o que querem, sabem o que estão procurando e sabem onde atacar”, afirma. “Agem iguais a cobras peçonhentas: não erram o bote.”

Secretário da Segurança Pública do Estado, Nico Gonçalves disse que a partir desta semana há reforço no patrulhamento para combater essa modalidade de crime com a inclusão de dezenas de motocicletas da PM nas ruas.

Segundo Nico, os agentes vão atuar em dupla - enquanto um policial pilota a moto, o outro vai na garupa. O objetivo é ganhar agilidade nas abordagens.

A secretaria diz que não encontrou os registros das ocorrências citadas no Ipiranga, mas afirma que houve redução de 14,8% nos roubos em geral e de 49% nos roubos de veículos na área da 2ª Delegacia Seccional — Sul.

A pasta informa ainda que faz o reforço do policiamento em vias com maior incidência de crimes e que os roubos e furtos de celulares na capital paulista caíram 15,4% e 2,6%, respectivamente, nos primeiros sete meses deste ano, ante o mesmo período de 2025.

Acrescenta que mais de 85,2 mil celulares foram recuperados em todo o Estado desde 2023.

“A melhor forma de lidar com isso é ficar atento, especialmente nos cruzamentos”, afirma Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Uma dica, segundo ele, é parar o veículo no semáforo em faixas mais centrais e que fiquem menos expostas às ações de criminosos. “Assim tem sempre outro carro para impedir um acesso fácil”, diz.

Outra recomendação é também ficar em pontos com possíveis áreas de escape mapeadas, para o carro não ficar “enclausurado”. Segundo autoridades, os ladrões escolhem justamente veículos com pouca margem de escape, até para dificultar fuga durante a ação.

Antes de saber o que fazer em pontos críticos, é preciso saber quais são eles. Entre os pontos já conhecidos pela ação de gangues quebra-vidro na região central, estão, por exemplo, a Baixada do Glicério, o Viaduto Julio de Mesquita Filho e as avenidas do Estado e Tiradentes.