Startupi Geração Z parece ter desistido da casa própria. Mas está construindo patrimônio na tela do celular Com imóveis fora de alcance, jovens adultos apostam em aplicativos de investimento e previdência privada; o movimento redesenha o mercado financeiro e…
Ela tinha 20 e poucos anos, um estágio de verão e uma decisão que seus pais provavelmente não entenderiam: em vez de juntar dinheiro para a entrada de um imóvel, abriu uma conta de aposentadoria e começou a investir. A história da jovem de Cleveland relatada pelo The New York Times (NYT) não é um caso isolado, mas sim um retrato de uma geração inteira que olhou para o preço dos imóveis, fez as contas e concluiu que o caminho para construir riqueza passa pelo mercado de capitais, não pelo mercado imobiliário.
O caso de Jeff Sharp, de 28 anos, ilustra a equação impossível. Bartender em meio período e estudante de aviação, ele mora em Bend, Oregon, onde o preço mediano de uma casa chegou a US$ 700 mil, quase 75% acima do registrado há 20 anos, conforme reportado pelo NYT.
No lugar do financiamento imobiliário, entram os aportes automáticos. De acordo com uma análise da companhia previdenciária americana Fidelity sobre hábitos de poupança para aposentadoria, as contribuições da Geração Z para planos de previdência estão crescendo 65% ao ano, mais que o dobro da taxa observada entre os millennials.
A mudança tem raiz cultural profunda. Roberta Katz, pesquisadora de Stanford e coautora do livro Gen Z, Explained: The Art of Living in a Digital Age, explicou ao jornal que se trata de uma geração moldada pela incerteza.
A infraestrutura dessa revolução cabe no bolso. Um estudo da Gallup revelou que 81% dos adultos da Geração Z buscam orientação sobre finanças pessoais e 75% encontram essas informações online. Aplicativos como Robinhood, Vanguard e Acorns aparecem nas trajetórias dos jovens entrevistados, que migram de apostas em ações individuais para fundos de índice e contribuições automáticas.
O fenômeno encontra eco imediato no Brasil com contornos ainda mais agudos. Com a taxa Selic em patamares elevados e o crédito imobiliário encarecido, o sonho da casa própria também se afasta dos jovens brasileiros, enquanto o país vive uma democratização sem precedentes do acesso a investimentos: o número de pessoas físicas na B3 já supera 5 milhões, e plataformas como Nubank, XP e Inter colocaram fundos, ações e títulos públicos a um toque de distância. A renda fixa de alto rendimento, privilégio do cenário de juros brasileiro, cumpre aqui o papel das contas de alto rendimento americanas.
Para executivos do setor financeiro e imobiliário, o recado é estratégico: a próxima geração de clientes não parece estar mais poupando para dar entrada em um apartamento. Diferente disso, ela pode estar construindo carteiras líquidas, diversificadas e digitais. E assim, quem continuar vendendo produtos para o cliente que existia em 2005, poderá ficar falando sozinho.




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