Escrita em 1887, a peça do dramaturgo sueco, que se estreia na quarta-feira, é um drama familiar, mas é também uma "luta de poder mais recalcada e potente",...

Escrita em 1887, a peça do dramaturgo sueco, que se estreia na quarta-feira, coloca frente a frente o Capitão e a mulher, Laura, em conflito sobre a educação da filha, Berta, mas, para Gonçalo Waddington, aquilo que parece estar em causa é um confronto mais profundo.

Em O Pai, o Capitão decide enviar Berta para a cidade (para fora de casa), contra a vontade de Laura. Perante a tentativa do marido de impor a sua autoridade, a mulher lança-lhe a dúvida sobre a paternidade da filha, desencadeando um processo de desagregação mental.

À medida que o confronto avança, a filha deixa de ser o verdadeiro centro da disputa e a peça expõe as relações de poder entre duas pessoas que partem de posições profundamente desiguais.

O Capitão ocupa o lugar de autoridade que a sociedade do final do século XIX reserva ao homem, embora não esteja preparado para exercer essa autoridade no espaço familiar, explica Gonçalo Waddington.

A violência desse confronto coloca a encenação perante a questão da misoginia atribuída a Strindberg, que deixou escritos profundamente hostis às mulheres e concebia as relações entre os sexos como uma luta pelo poder.

Gonçalo Waddington não contorna a misoginia do autor, mas considera que a personagem de Laura torna mais complexa uma leitura nesse sentido, porque a sua força reside precisamente em enfrentar o marido apesar da desigualdade social e económica entre ambos.

Escrito há quase 140 anos, O Pai chega ao palco sem uma atualização da ação para os dias de hoje, apesar da modernidade do cenário, opção que Gonçalo Waddington justifica com a capacidade que o próprio texto original tem para confrontar o espectador contemporâneo.

Além de encenar, Gonçalo Waddington interpreta o Capitão, uma decisão que estava tomada desde que escolheu a peça.

O elenco integra ainda Cecília Borges, Hugo Narciso, Joana Bárcia, João Pedro Vaz e Miguel Sopas.

Com tradução de António Cabrita e Luís Miguel Cintra, cenografia e figurinos de Ângela Rocha, desenho de luz de Daniel Worm e som de Miguel Raposo Lima, O Pai estreia-se na quarta-feira e fica em cena até 27 de setembro, na Sala Luís Miguel Cintra do São Luiz Teatro Municipal.

O espetáculo segue depois para o Teatro Nacional São João, no Porto, onde estará em cena de 08 a 18 de outubro.