Ucrânia tem levado a guerra para a Rússia, mas, até o momento, a resposta de Putin tem sido continuar atacando

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, está sob pressão.

Nas últimas semanas, a Ucrânia levou a guerra para dentro do território russo de novas maneiras, com ataques a refinarias e em Moscou, aproveitando seus avanços na produção de drones e mísseis.

Será que o aumento dos ataques ucranianos ao território russo acabará convencendo Putin a encerrar a guerra?

Até agora, a resposta parece ser não.

Na quinta-feira, 2, a Rússia lançou ondas de mísseis balísticos e drones contra Kiev, matando pelo menos 18 pessoas, no que pareceu ser uma resposta imediata do Kremlin à pressão e o sinal mais recente de Moscou de que Putin está decidido a manter sua posição.

Ataques aéreos contra refinarias de petróleo russas causaram escassez de combustível em todo o país. O maior ataque de drones a Moscou durante a guerra fez com que enormes nuvens de fumaça negra pairassem sobre a capital russa no mês passado. Além disso, Kiev começou a isolar progressivamente a Crimeia — a península do Mar Negro que o Kremlin anexou ilegalmente da Ucrânia em 2014 —, provocando cortes de energia, graves déficits de combustível e problemas no abastecimento de água na região.

Os russos parecem estar cada vez mais frustrados com a guerra, enfrentando perspectivas econômicas em deterioração, impostos mais altos, restrições à internet, ataques em solo russo e um cansaço generalizado decorrente de um conflito que já dura mais tempo do que a Primeira Guerra Mundial.

Após dias de silêncio, Putin abordou as dificuldades crescentes em uma entrevista a uma emissora estatal no domingo, 28. Ele prometeu resolver os problemas de combustível e produzir mais sistemas de defesa aérea, mas também se comprometeu a continuar a luta no campo de batalha.

Está longe de ser claro se a crescente insatisfação pública com a guerra na Rússia se traduzirá em um desafio político significativo para Putin, visto que ele estabeleceu um sistema autoritário e intensificou drasticamente a censura e a repressão em tempos de guerra.

Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center em Berlim, afirmou: “As chances de a maré virar contra Putin existem, mas situam-se na casa de um dígito percentual”.

“A pressão ucraniana torna isso mais provável, mas não acredito que seja o cenário mais provável”, acrescentou. “O cenário mais provável é que tudo continue como está, com mais destruição e mais mortes de ambos os lados”.

Os cálculos futuros de Putin dependerão, em parte, de até onde a Ucrânia conseguirá ir com seus ataques. Se a campanha aérea limitar ainda mais a capacidade da Rússia de travar a guerra ao destruir fábricas de armamentos e linhas de suprimento, isso poderá forçar Putin a alterar suas ambições.

Em declarações feitas no domingo, Putin afirmou que a Ucrânia enfrentava uma crise aguda de efetivos, sugerindo que ele ainda acredita bastar resistir o tempo suficiente e continuar pressionando até que as defesas ucranianas colapsem.

“Diante da escassez catastrófica de pessoal, as Forças Armadas ucranianas aparentemente acreditam que isso poderia ser sua salvação”, disse Putin. “Mas salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos.”

Putin então apresentou uma longa descrição das posições no campo de batalha que, segundo analistas, recorria a uma espécie de “matemática mágica”, com o líder russo reduzindo sistematicamente à metade as distâncias entre suas forças e as cidades ucranianas.

“Ou ele está mal-informado, ou está mentindo, ou ambos”, disse Gabuev. “Mas isso não importa, pois ele parece irredutível quanto a isso. Não creio que, neste momento, haja qualquer indício de mudança.”

Se os ataques ucranianos representarem uma ameaça mais grave à vida da população na Rússia e na Crimeia, isso também poderá provocar maior desafio na sociedade russa e dar voz aos russos defensores de uma linha dura e favoráveis ​​à guerra. Há anos, eles argumentam que o Kremlin precisa abandonar a moderação, eliminar o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, e recorrer a armas nucleares, se necessário.

Uma das surpresas persistentes do conflito é o grau de sofrimento que Putin tem estado disposto a suportar internamente para alcançar seus objetivos de guerra.

Veja maisRússia ataca Kiev com drones e mísseis durante 11 horas e mata ao menos 20 pessoas

Putin enfrenta pressão crescente após Moscou ser novamente atacada por drones