Bombas e mísseis liberam substâncias nocivas na atmosfera e contaminam as águas da região, causando danos severos a um dos ecossistemas mais singulares do planeta

O conflito no Oriente Médio caminha para se tornar mais uma guerra dos Estados Unidos com um legado tóxico.

Bombas e mísseis liberaram metais pesados ​​e substâncias químicas nocivas na atmosfera. Ataques envolvendo os EUA, Israel e o Irã atingiram instalações petrolíferas, provocando incêndios que cobriram Teerã com uma densa fumaça negra e chuvas saturadas de petróleo, expondo milhões de pessoas a uma poluição que pode trazer impactos duradouros à saúde.

Esses ataques também estão afetando o Golfo Pérsico. Investidas contra navios e infraestruturas petrolíferas na região causaram derramamentos de petróleo visíveis do espaço.

Um vazamento proveniente de um navio-tanque levou ao fechamento temporário de praias no emirado de Umm Al Quwain, com as autoridades trabalhando para conter os danos ambientais — informou, na quinta-feira (22), o Ministério de Mudanças Climáticas e Meio Ambiente dos Emirados Árabes Unidos.

Ainda não foi confirmado se o vazamento está relacionado aos ataques iranianos, mas o episódio é mais um sinal dos enormes riscos enfrentados pelo Golfo Pérsico, um dos ecossistemas marinhos mais delicados e singulares do mundo.

À medida que o conflito prossegue, especialistas alertam para uma crise de contaminação de maior escala.

Há meses, navios de carga e petroleiros vêm sendo alvos no Estreito de Ormuz, uma rota marítima vital para o transporte de petróleo e gás entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã.

Em muitos casos, é possível observar claramente a progressão que vai do impacto contra a embarcação até o dano ambiental, explica Brian Barnes, integrante de um grupo de oceanógrafos que utiliza imagens de satélite na Universidade do Sul da Flórida para analisar, à distância, os efeitos desta guerra.

“Em relação a algumas das grandes embarcações que foram atacadas, observamos extensas plumas de poluição que se espalham por centenas de quilômetros a partir do local do impacto”, diz Barnes.

O Golfo Pérsico sofre há muito tempo com a poluição por petróleo; no entanto, pesquisas conduzidas por Barnes e outros cientistas — comparando março de 2026, período de intensos combates, com o mesmo intervalo do ano anterior — revelam um aumento expressivo.

“O que estamos observando é uma quantidade de petróleo na superfície do Golfo Pérsico duas vezes maior do que seria esperado na ausência de um conflito de grande escala”, afirma Barnes. No entanto, ele observou que as imagens de satélite só conseguem mostrar o que está na superfície da água, e não a espessura da camada de óleo — dado que forneceria uma noção mais precisa da extensão da contaminação.

O que é mais difícil de avaliar, dado o acesso físico limitado a essa via navegável marcada por conflitos, é o impacto sobre a vida selvagem marinha.

O Golfo Pérsico abriga um ecossistema repleto de vida. É o lar de várias espécies de tartarugas marinhas, centenas de espécies de peixes e a segunda maior população mundial de dugongos — também conhecidos como vacas-marinhas.

“Uma das maiores concentrações de tubarões-baleia do mundo ocorre perto do campo de petróleo de South Pars, na região onde o Catar e o Irã se encontram”, afirmou Bernhard Riegl, professor da Nova Southeastern University, que estuda o Golfo Pérsico há décadas.

Ilhas arenosas e extensas pradarias de ervas marinhas tornam o Golfo um habitat ideal para a nidificação e a reprodução. Extensos manguezais e formações de recifes de coral criam refúgios protegidos para golfinhos, aves marinhas e tubarões-baleia. Contudo, na primavera — tradicionalmente a época de reprodução —, a guerra estava em pleno curso.

Apenas as formas de vida marinha mais resistentes sobrevivem nessas águas. O Golfo Pérsico não é apenas um dos mares mais quentes do mundo, mas também apresenta variações bruscas de temperatura ao longo do ano.

As águas próximas à cidade do Kuwait, por exemplo, oscilam entre máximas de cerca de 36 graus Celsius, no auge do verão, e mínimas de aproximadamente 16 graus Celsius.

Razan Khalifa Al Mubarak, enviada especial do Ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos para questões da natureza, defendeu o fim dos ataques no Golfo em um artigo de opinião publicado no início deste ano.

“Embora os custos financeiros dos danos possam ser calculados, a perda de ecossistemas e espécies, não. Uma vez degradados, esses sistemas podem não se recuperar”, escreveu ela.

A contaminação no Golfo traz desafios singulares, uma vez que esse corpo hídrico é relativamente raso — as áreas mais profundas chegam a apenas cerca de 360 ​​pés (aproximadamente 110 metros) — e possui uma extensão reduzida, de cerca de 240.000 quilômetros quadrados.