Enquanto o conflito não terminar, seus dolorosos efeitos econômicos de alcance global continuarão a se espalhar

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A guerra no Oriente Médio reaquece os preços do petróleo acima de 100 dólares, desencadeando um novo ciclo de alta nos juros de Europa e Estados Unidos. Entenda como essa escalada inflacionária, impulsionada por ataques a oleodutos e rotas marítimas, impacta os mercados financeiros globais e aumenta os riscos para a economia brasileira.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Na mesma sexta-feira 11 de setembro em que os ataques às torres do World Trade Center, nos Estados Unidos, completavam 25 anos, a Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo, anunciou o fechamento de um de seus principais corredores de escoamento, o oleoduto Leste-Oeste, também chamado de Petroline. A medida foi tomada depois que um trecho das instalações foi atingido por drones vindos do Iraque, em um ataque atribuído a milícias ligadas ao Irã. A notícia caiu como uma bomba em meio ao conflito que se arrasta desde fevereiro entre os Estados Unidos e o Irã e afastou as esperanças de avanço nas negociações de cessar-fogo. O primeiro reflexo apareceu no preço do petróleo. A cotação internacional do barril, que já subia com a retomada dos ataques a cargueiros na região, voltou a superar os 100 dólares pela primeira vez em meses. A escalada reacendeu os temores de desabastecimento, piorou as expectativas para a inflação, derrubou índices das bolsas de valores e provocou um terremoto nos mercados de juros e de dívida de algumas das nações mais ricas do planeta. Também mostrou que, enquanto o conflito não terminar, seus dolorosos efeitos econômicos de alcance global continuarão a se espalhar.

A escolha do Petroline como alvo não foi casual. Com 1 200 quilômetros de extensão, o oleoduto cruza a Arábia Saudita de ponta a ponta, ligando a costa oriental, banhada pelo Golfo Pérsico, ao porto de Yambu, no Mar Vermelho. Segundo estimativas de especialistas, 5% do petróleo vendido no mundo passa por esse caminho, que se tornou a principal alternativa para o fluxo da produção saudita depois do início da guerra e dos bloqueios impostos pelo Irã à navegação no Estreito de Ormuz, porta de saída do Golfo Pérsico. Agora, os ataques dos hutis — grupo rebelde instalado no Iêmen e apoiado pelo Irã — também elevam os riscos à navegação no Mar Vermelho (leia a reportagem na pág. 56), deixando os principais produtores com cada vez menos rotas seguras para despachar sua produção.

Com o cerco se fechando sobre as rotas, a cotação do barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional, bateu os 108 dólares na máxima dos últimos dias e já completa mais de uma semana acima dos 100, abrindo uma espécie de segunda temporada do conflito. Em junho, quando os presidentes dos Estados Unidos e do Irã chegaram a assinar um memorando para encerrar o confronto, a cotação do barril recuou aos 70 dólares, mas por pouco tempo. Antes da guerra, ele havia passado mais de um ano sendo negociado pouco acima dos 60 dólares. “É pouco provável que o petróleo volte para os preços do pré-guerra tão cedo e, mesmo que volte, depois vai demorar até que toda a cadeia se normalize”, diz Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da StoneX, consultoria internacional de commodities. Isso ocorre porque as sucessivas interrupções consumiram os estoques globais, enquanto os preços dos principais combustíveis, como gasolina, diesel e querosene de aviação, se não estão nas máximas históricas, encontram-se perto delas. Ou seja, o preço dos derivados, que é o que de fato importa às pessoas e às empresas, subiu ainda mais do que o do petróleo e não deu, em nenhum momento, sinais de que possa ceder, mesmo que a cotação do barril volte a cair.

Sem dar trégua à inflação, a nova crise do petróleo se alastrou pelos mercados financeiros. “É um novo choque inflacionário que aumenta as incertezas”, diz Adauto Lima, economista-chefe da gestora americana Franklin Templeton no Brasil. As bolsas, de Wall Street a Xangai, atravessaram dias turbulentos na última semana, assim como a B3 e seu Ibovespa, principal índice acionário do Brasil. Em algumas das maiores economias do mundo, a escalada do petróleo se somou à preocupação com o aumento das dívidas públicas e provocou uma fuga em massa de investidores dos títulos soberanos. Como resultado, os juros dispararam para os maiores níveis em anos ou até décadas. A taxa dos papéis com vencimento em dez anos do Tesouro dos Estados Unidos ultrapassou 5% ao ano, enquanto a do Reino Unido chegou a 5,4%, percentuais mais altos desde 2007. Até no Japão, que antes da pandemia enfrentava uma crise de deflação e juros negativos, a taxa de mercado dos títulos públicos subiu a 3% ao ano, algo que não se via na Terra do Sol Nascente desde 1996.

Pressionados de todos os lados, os bancos centrais, que iniciaram 2026 acreditando que poderiam voltar a reduzir o custo do crédito em suas economias, tiveram de ceder. Há uma semana, o Banco Central Europeu, chefiado por Christine Lagarde, deu início à onda ao elevar a taxa básica na União Europeia para 2,5% ao ano. Na quarta-feira 16, Kevin Warsh, o novo presidente do banco central dos Estados Unidos, acabou obrigado a fazer o mesmo. A instituição elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, no primeiro aumento desde julho de 2023, e indicou que poderá promover mais uma alta em 2026. A guinada fechou uma sequência de quatro reuniões sem mudanças e confirmou a reviravolta provocada pela guerra: em poucos meses, os cortes esperados deram lugar a novo ciclo de aperto monetário.

No Brasil, boa parte dos choques foi amortecida pelo governo. Na semana passada, o presidente Lula ampliou seu pacote de subsídios para a gasolina e o diesel. Desde o início da guerra, o custo total da ajuda já se aproxima dos 40 bilhões de reais, segundo as contas do próprio Ministério do Planejamento e Orçamento. “A arrecadação com petróleo de fato aumentou, mas é um dinheiro que poderia ter sido usado para reduzir a dívida pública e que o governo preferiu gastar”, diz Lima, da Franklin Templeton. A Petrobras também continua segurando parte do preço dos combustíveis em suas refinarias e, há alguns dias, em um episódio ainda por explicar, chegou a anunciar um aumento da gasolina para revogá-lo poucas horas depois. “A nossa inflação está mascarada e só não explodiu por causa dessas intervenções”, diz o economista Fabio Silveira, consultor sênior da consultoria de negócios Volt Partners.

Apesar desse tipo de intervenção no mercado, o Banco Central brasileiro não consegue baixar a taxa de juros, uma das mais altas do mundo, a não ser a conta-gotas. Na quarta 16, em redução aprovada por unanimidade, a taxa básica passou de 14% para 13,75% ao ano, o menor nível desde março de 2025. Foi o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, mas o Copom evitou antecipar novos movimentos e advertiu que a instabilidade internacional exige cautela. Nem de longe, portanto, os problemas estão resolvidos. “Na indústria, o petróleo está presente em quase tudo, e se esta alta se mantiver por mais tempo, os preços que tinham cedido nos últimos meses subirão de novo”, afirma André Rebelo, diretor de assuntos estratégicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Enquanto a guerra não cede, suas consequências continuam causando estragos muito além dos campos de batalha.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013