O programador do Babell, que leva Atwood, Rushdie e Tokarczuk ao Porto, diz que os donos da Lello — que têm feito "muito pela cidade" — investiram mais de 3 milhões e que o impacto será mensurável.

Escritor (tem publicados dois romances e um título de não ficção ainda fresco, A Mais Bela Maldição — Histórias de Gente Apaixonada por Livros) e até há pouco tempo editor, Rui Couceiro, 42 anos, deixou o cargo na Contraponto para levar ao Porto figuras de proa da literatura mundial, enquanto comissário do Babell, evento literário e cultural que começa esta quarta-feira, dia 24. É promovido pela Fundação Livraria Lello, que nele investe mais de três milhões de euros.

Entre os ilustres com presença garantida nesta primeira edição (não se sabe, para já, o futuro do evento), estão dois prémios Nobel da Literatura – Lászlo Krasznahorkai, da Hungria, e Olga Tokarczuk, da Polónia –, o britânico Julian Barnes (que lançou recentemente aquela que diz ser a sua última obra), o indiano-britânico Salman Rushdie, o espanhol Javier Cercas e a brasileira Conceição Evaristo. Até ver, há apenas uma presença cancelada, por motivos de saúde: a da mecenas literária italiana Beatrice Monti della Corte, centenária. O festival – que se distingue pelo modelo de acesso, assente na compra de livros que valem entradas –, arranca com o contributo de Byung-Chul Han, filósofo germano-coreano, autor de títulos como A Sociedade do Cansaço.

Quer concretizar? Não quero dar exemplos, porque seria deselegante, sobretudo tendo em conta a posição em que estou. Mas gosto muito de partilhar ideias, quando frequento estes festivais, com as organizações. Fui a muitos festivais literários e feiras do livro no estrangeiro e gosto de me inspirar nas melhores práticas que vou conhecendo. É assim que robustecemos as coisas que vamos fazendo. Vejo muitas vezes coisas que podiam ser feitas de outra forma. E fico muito contente quando vejo coisas bem feitas. Há exemplos excelentes, aqui perto. Temos não só o mais antigo encontro desta natureza, que são as Correntes d’Escritas [na Póvoa de Varzim], mas outros exemplos muito bons. Ainda recentemente estive no LeV, em Matosinhos. Vou todos os anos ao Escritaria, a Penafiel, que acho que tem um conceito absolutamente extraordinário, pelo facto de ser centrado num só autor e de se focar na lógica da contaminação literária. De um momento para o outro, a cidade, sejam os talhos, as mercearias, as lojas de roupa, estão contaminadas pela literatura. E se temos como objetivo fazer chegar os livros e a leitura a mais pessoas, os livros e a leitura têm de estar perto das pessoas, no seu dia-a-dia. Se crescermos numa localidade onde não há livrarias nem bibliotecas, qual é a probabilidade de nos tornarmos leitores? Só se em casa tivermos a sorte de ter pais leitores, que nos põem os livros nas mãos. Mas não podemos partir do princípio de que isso é uma realidade comum a toda a gente.

Qual é a realidade comum? Do ponto de vista das práticas culturais, continuo a achar que estamos na cauda da Europa. E, no que toca aos índices de leitura, é só olhar para os dados e perceber que estamos lá no fim. Poderíamos ter feito muito melhor, e por isso digo que ainda está por vir um governo que tenha a coragem de fazer da leitura um desígnio nacional. Que tenha a ousadia, a ambição de mostrar que acredita que um povo mais culto é um povo capaz de construir um país mais civilizado e democraticamente mais robusto. Infelizmente, tudo o que temos à nossa volta aponta para um retrocesso a esse nível.

Devido ao modelo de acesso [um livro comprado nas livrarias da cidade, um bilhete]? O modelo de acesso é absolutamente inovador, inspirado no modelo da própria Livraria Lello, e que está a levar milhares de pessoas às livrarias. Livrarias essas que, em muitas circunstâncias, sofrem todos os meses para conseguirem resistir à pressão do mercado imobiliário, ao aumento das rendas. Muitas mudam de localização porque não conseguem aguentar o preço das rendas. E este centro da cidade, onde estamos a fazer esta entrevista, ainda tem bastantes livrarias, mas já teve muitas mais. Lembro-me de ser mais novo, vir para esta zona e ser capaz de passar uma tarde de livraria em livraria. Isso era formidável, porque cada uma tinha o seu perfil.

Alfarrabistas incluídos. Alfarrabistas incluídos. Seguramente, a primeira boa metade da minha biblioteca, quando era jovem e tinha menos dinheiro, foi adquirida em alfarrabistas. São um templo formidável do livro e da leitura, onde conseguimos encontrar autores que, de outra forma, não encontraríamos. Porque a forma voraz como as novidades se sucedem nas prateleiras das livrarias convencionais, das grandes cadeias e tal, não permite a descoberta de coisas que não têm a ver com o imediato. Sabemos que o melhor é aquilo que resiste à passagem do tempo. E é estranho que não esteja nessas livrarias. Se é o melhor, porque é que não está lá? Na semana passada, fui a uma livraria de uma grande cadeia procurar cinco livros da Agustina [Bessa-Luís], para uma pessoa que estava no estrangeiro, queria bilhetes para o Babell e pediu para comprar livros por ela. E só encontrei quatro títulos diferentes. Foi bom ter encontrado quatro, até tinha medo de encontrar menos. Mas ela queria cinco. E, por exemplo, não estava disponível A Sibila. Pedi para encomendar. Mas sei que, se fosse a um alfarrabista, encontrava mais títulos da Agustina disponíveis.

Sobre a questão do bilhete-livro, qual a origem desse modelo? Eu tinha uma grande frustração, justamente por aquilo que debatíamos há pouco: a impossibilidade de se mensurarem os resultados destes eventos. Mas depois o Pedro Pinto, administrador da Livraria Lello, começou a falar comigo do modelo que tem para vários projetos do grupo, e que é devedor do tal sistema da Livraria Lello: um modelo em que o livro é a moeda. E, quando ele me contou isto, eu disse: não precisamos de ir mais longe, já encontrou a forma de distinguir o Babell. A forma de acesso é essa: as pessoas compram um livro e têm direito a um bilhete. Isso, confesso, nessa altura, fez-me sentir uma excitação, um entusiasmo com o que estávamos a construir muito grande, porque nunca foi feito. E quando anunciámos o modelo foi muito curioso ver responsáveis por festivais de outros países, do outro lado do mar, da Europa, a perguntar: como é que vão fazer isto? Alguns vão estar cá para perceber como é que vamos conseguir fazer isto – porque vamos conseguir, já conseguimos, na verdade –, e como é que isto se concretiza.

Já há números? Há, mas não posso ainda partilhá-los. Estamos a preparar a forma de os divulgar no final, porque estamos a fazer um estudo de público com uma instituição preparada para isto.

Nem por aproximação? Não, mas é fácil percebermos. Temos sessões com 1.600 lugares esgotadas. Não há eventos com plateias desta dimensão. Temos muita gente.

Pode dar exemplos de sessões esgotadas? Sim. A Margaret Atwood já esgotou, o Byung-Chul Han já esgotou, já esgotaram há muito tempo. Provavelmente, à hora a que estamos a conversar, a Olga Tokarczuk já terá esgotado também. O Salman Rushdie não esgotou, porque é na maior sala, no Coliseu. Temos 3.000 lugares, mas acho que já passámos os 2.000 bilhetes emitidos e, provavelmente, vamos chegar aos 3.000 até ao dia da sessão.

Como chegou a este papel de comissário? Foi por convite? Sim, fui convidado pelo Pedro Pinto para desempenhar esta função.

E aceitou logo? Aceitei. No dia seguinte.

Essa decisão teve em conta que haverá outras edições do festival? Pode confirmar? Estarei a dizer a verdade se disser que queremos que continue; direi a verdade também se disser que ainda não sabemos se vai continuar, porque, neste momento, o nosso único objetivo é fazer este e bem. E, se isto satisfizer os nossos padrões altíssimos de exigência e de ambição, acredito que possamos fazer outras edições.

Nesse caso, gostaria de se manter como comissário? Muito francamente, não pensei sequer nessa possibilidade. Estou focadíssimo em terminar este desafio. Sou muito racional e metódico e, portanto, é uma coisa de cada vez. Tenho dito isto também à minha equipa: não pensemos em mais nada do que nesta semana que começa a 24 e termina a 29. Foquemo-nos e, depois, cada um pensa no que tiver de pensar. Para fazermos isto bem, temos de estar 100% dedicados, mental e fisicamente, a isto. E, felizmente, tenho uma equipa fora do normal, que se tem dedicado a isto… não é de corpo e alma, há de haver um superlativo melhor, porque a dedicação das pessoas tem sido notável. É muito bonito ver quando há uma causa por detrás de um projeto – e esta causa é o livro e a leitura –, porque as pessoas agarram-se ao que estão a fazer com mais vigor, com mais entusiasmo. Isso é muito bom.

Quem é que teve a ideia do festival, em primeiro lugar? O Pedro Pinto queria fazer um grande evento, que partisse do facto de neste ano se assinalarem os 120 anos da Livraria Lello, e que pudesse unir vários projetos do grupo que estão em execução, como a expansão da livraria, aquilo que hoje é o Jardim do Pensamento… E desafiou-me a idealizar um grande evento.

Com que objetivos? Havia um objetivo de promoção do território através da cultura. Esta foi a base. O Pedro Pinto disse: quero contribuir para este território através da criação de um evento de natureza cultural que pode ter a sua génese no livro. Claro que o meu interesse era que tivesse essa génese no livro. E ele, ao desafiar-me, também sabia que seria a partir do livro que eu iria desenhar o projeto. Mas o facto é que isto foi um extraordinário trabalho de equipa desde então, idealizado de forma muito mais próxima entre mim e o próprio Pedro Pinto, com conversas diárias, multi-diárias, durante mais de um ano; e depois com o contributo de muita gente que foi chegando à nossa equipa. Ainda esta semana entrou mais gente.

Quantas pessoas tem a equipa? A minha equipa próxima, que está aqui no escritório a trabalhar, o coração do Babell, são 20 e tal pessoas. Mas no terreno, para fazer o Babell, vamos ter mais de 800.

Foi o Rui quem desenhou a programação? Sim, sou o responsável pela programação. Tenho gente que me auxilia, como a Patrícia Reis, e a própria Câmara do Porto, o vereador [da Cultura] Jorge Sobrado. Porque a Câmara, a partir do momento em que assumiu a co-produção do evento, assumiu também partes da programação. Já tínhamos idealizado as aulas de História, a Poesia ao Poder ou a Poesia Está na Rua, mas quem depois deu corpo a isso foram o vereador Jorge Sobrado e as equipas que trabalham com ele.

Quais foram os critérios, quando desenhou a programação? Não há nunca um critério só; há uma multiplicidade de fatores que nos levam a ir por um caminho e não por outro. Queríamos ter um cartaz internacional de grande qualidade. Obviamente que o meu gosto e a minha noção de qualidade literária também têm uma influência grande na escolha dos escritores a convidar – e da própria Patrícia Reis, que me ajudou muito nesse domínio. Portanto, havia essa vontade de colocar a fasquia num nível de qualidade muito, muito elevado. Queríamos que as pessoas olhassem para o cartaz e dissessem: este é um evento em que quero estar, porque estão aqui grandes escritores, grandes pensadores, grandes figuras da cena literária. Que tivessem em comum só o facto de serem grandes escritores. E todos estes nomes são, efetivamente, grandes escritores. Conheço a obra de todos eles e ainda me custa acreditar que esta gente toda vem ao Babell.

Como fizeram para garantir a presença destes nomes? Foi um processo relativamente simples, na medida em que os autores portugueses conheço-os todos, dos estrangeiros conhecia alguns e, quando não conhecia os autores, conhecia os agentes. Havia essa mais-valia que eu, enquanto editor, trazia para o projeto: o facto de, com relativa facilidade, conseguir chegar às pessoas. Depois, foi fazer convites, explicar às pessoas porque é que um evento que não existia era bom para elas.