A duas semanas do primeiro turno, governo norte-americano intensifica movimentos que têm impacto sobre o cenário político brasileiro

A duas semanas das eleições gerais no Brasil, que, ao final, vão definir, além do presidente da República pelos próximos quatro anos, também dois terços do Senado, governadores, deputados federais e estaduais, cresce entre autoridades e em parte dos meios político, jurídico, acadêmico e cultural o receio sobre ações do governo de Donald Trump para tentar influenciar o pleito. Tanto, que o tema está na pauta do discurso que o presidente Lula fará na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, amanhã, e em tratativas da diplomacia brasileira para uma eventual nova conversa entre Lula e Trump durante o evento. O norte-americano será o segundo a discursar.

A uma lista de movimentos de Trump que ocorrem desde o ano passado, se somou, no último final de semana, a divulgação de um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que trata de ‘Ameaças ao processo eleitoral de 2026’. O documento aponta escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil, de modo “gradual, combinado e adaptativo”, e eleva para crítico o risco de interferência nas eleições.

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A análise relaciona as ações do governo Trump à prioridade dos Estados Unidos em reafirmar sua hegemonia sobre a América Latina, dentro de um contexto de disputa com outras potências pelo controle de riquezas naturais, ativos estratégicos e de infraestruturas, e no qual o Brasil é o país com maior capacidade de manter autonomia. Com trechos publicados pelo jornal Folha de São Paulo no sábado, e confirmado na sequência por outros veículos de comunicação, o relatório foi enviado à Presidência da República, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no final de agosto.

“Sob a ótica do direito internacional, a atuação dos EUA transcende os limites do princípio da não interferência nos assuntos internos, uma das principais bases das relações entre estados. O princípio proíbe o uso de medidas econômicas, políticas ou de outra índole para forçar outro país, com o objetivo de obter vantagens ou avançar temas próprios. É exatamente o que vislumbro nas ações de Trump, seja na tentativa de ‘garantir’ a participação de ‘dissidentes políticos’ nas eleições, seja na imposição da classificação de PCC e CV como entidades terroristas, ou seja ao acesso irrestrito a minerais críticos, em troca da não imposição de mais sanções econômicas. Além de violarem o princípio da não interferência, as medidas extrapolam os limites da legalidade internacional”, explica a professora de Direito Internacional Tatiana Squeff, da Ufrgs.

“Estamos no olho do furacão e, dentro dele, é difícil entender ainda todos os atores e acontecimentos. Mas há uma série de movimentos relacionados. O próprio timing da crise no poder Judiciário brasileiro, não ocorre por acaso. Integra uma estratégia de ataque às instituições, que contém um timing eleitoral, e atores articulados. Estamos tratando de múltiplos interesses quando falamos dos Estados Unidos: há, para citar apenas alguns, as big techs, e seu poder para influenciar populações inteiras, e as terras raras”, lista o professor de Relações Internacionais da Ufrgs e doutor em Economia Política Internacional, Bruno Hendler.

Hendler aponta que, para explicar a estratégia de Trump como um todo e a pressão dos EUA sobre o cenário político brasileiro, ganha destaque na academia a teoria da interdependência instrumentalizada, (weaponized interdependence). A tese sustenta que vivemos em um momento de pós-globalização no qual poucas potências controlam redes econômicas globais (financeiras, comerciais ou de informações) e se valem de sua posição para obter vantagens sobre os demais países, principalmente através de dois mecanismos. São eles: a coleta de informações do tráfego de dados digitais (efeito panóptico) e o uso de seu poder para pressionar as demais nações a atenderem a seus interesses, limitando ou impedindo o acesso delas às redes globais (efeito gargalo).