T. Kingfisher tem alguns livros onde explora contos clássicos e os transforma em novas histórias que, contendo elementos dos originais, os ecoam sem copiar. T...

T. Kingfisher tem alguns livros onde explora contos clássicos e os transforma em novas histórias que, contendo elementos dos originais, os ecoam sem copiar. The Seventh Bride pega na lenda do Barba azul, Thornhedge remete para a Bela Adormecida, A Sorceress comes to call estará relacionado com A Rapariga dos Gansos. Hemlock & Silver ter-se-à inspirado na história original de A Branca de Neve (sem anões) para criar uma história fantástica com elementos curiosos e personagens interessantes. Não deixa de ter, como é habitual, uns elementos fantásticos mas sombrios que criam um toque de terror nalguns momentos.

A história apresenta-nos Anja, uma mulher que, no seguimento da morte de um primo na infância, desde cedo explora venenos com o objectivo de arranjar curas. Filha de um mercador abastado e obcecada por este tema, Anja possui o seu próprio nicho onde faz experiências, sendo reconhecida pelos curandeiros locais como alguém que frequentemente ajuda com envenenamentos. É esta fama que leva o Rei às suas instalações, destacando-a para acompanhar a filha que definha a olhos vistos.

Depois de uma viagem cansativa pelo deserto, com o Rei e a respectiva comitiva, a corte suspeita que Anja poderá ser a nova amante do Rei. Chegados ao destino, Anja verifica que a princesa Snow é uma criança mimada, órfã de mãe (morta pelo Rei quando este a viu retirar o coração da filha mais nova), mas estranhamente consciente de que não será uma causa normal que a fará estar recorrentemente doente. O que Anja descobre é a existência de uma realidade por detrás dos espelhos, uma realidade obscura feita de reflexos, alguns deturpados.

A história usa elementos da lenda de Branca de Neve anteriores à versão da Disney para criar uma visão um pouco diferente das dinâmicas entre mulheres. Anja, como especialista em venenos, é uma figura peculiar, cuja conversação sem rodeios é estranhada pelas pessoas da corte. A sua abordagem mais científica e objectiva é, também, pouco usual, destacando-se com a aprendizagem que teve, em não dar crédito automático a tudo o que foi escrito pelos antigos.

Em termos de dinâmicas, as interacções são relativamente objectivas, e poucas, com Anja a interagir mais regularmente com um dos guardas destacados para a proteger (se se suspeita de um envenenador, decerto este poderá ver em Anja uma ameaça). A dinâmica que se estabelece com este guarda recorda levemente a da série Saint of Steel, mas não sendo uma história com vertente mais romântica, é menos explorada à história.

Hemlock & Silver não se tornou um dos meus livros favoritos da autora. Esse lugar ainda está ocupado por Nettle & Bone (publicado em Portugal). Ainda que tenha gostado bastante da história, das personagens e dos elementos fantásticos, possui uma sequência demasiado simples, e relativamente linear, não explorando tão fortemente as personagens e o que as rodeiam.