Ceuta foi conquistada por Portugal em 1415 e passou a ser espanhola após 1640. Como foram esses dois séculos de presença portuguesa e o que levou a investir tanta gente e dinheiro no Norte de África?

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E o resto é história. É apenas pomba! Incêndio e plavra ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Atento! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Uma das imagens que marcou este verão foi a entrada abrupta em Ceuta de cerca de 70 mil imigrantes oriundos de Marrocos. E esse acontecimento chamou a atenção para aquele território e para o que parece ser uma estranha presença de um país europeu na África continental após as descolonizações da segunda metade do século XX. O ouvinte Félix Lungo enviou-nos a seguinte questão: "Estamos fartos de ouvir falar de Ceuta e de ver imagens da invasão. Um dia podiam explicar melhor qual é a história deste enclave, e de Melilha também, como chegaram lá os portugueses e por que ainda hoje é território espanhol." Basicamente, eu acho que aquilo que o nosso ouvinte está a pedir é uma breve história de Ceuta, que é hoje um caso inédito, juntamente com Melilha. São cidades autónomas pertencentes a um país europeu situadas em pleno continente africano. É verdade que existem ilhas africanas com estatuto semelhante, como as espanholas Canárias ou as ilhas francesas de Mayotte ou de Reunião, no Oceano Índico, mas no continente africano propriamente dito, Ceuta e Melilha são um caso único e, nesse sentido, um resquício que parece meio bizarro da longínqua era do império espanhol. Agora, na verdade, antes de ser espanhola, Ceuta foi ainda portuguesa. Tendo em conta que foi Portugal que conquistou Ceuta em 1415 e apenas perdeu o território em 1640, quando Ceuta decidiu permanecer fiel à Espanha após a restauração, parece-me que temos todos os ingredientes para uma história fascinante. Aliás, eu acho que ela é tão fascinante que se calhar o melhor é dividi-la em duas postas. E para começar, se calhar vamos para a posta em que Ceuta acabou nas mãos-

A posta lusitana, digamos assim, em que Ceuta ficou nas mãos dos portugueses. Portanto, nesta nossa conversa, nós vamos até finais do século XVII, mais coisa menos coisa, e depois no próximo programa nós vamos falar dessa Ceuta espanhola até aos nossos dias. Mas por onde é que queres começar, Rui? Ou neste caso, até onde é que queres recuar?

Até onde é que eu quero recuar? Bem, antes, talvez valesse a pena começar por desmistificar a ideia de que um país só pode estar num continente. Porque a Turquia é um país asiático que tem uma enorme Ceuta na Europa, que é a cidade de Constantinopla, a que agora chama Istambul, e que os otomanos conquistaram aos gregos bizantinos em 1453, no mesmo século em que os portugueses conquistaram Ceuta em África. Portanto, os otomanos conquistaram Istambul na Europa e é curioso que não provoca a mesma estranheza de Ceuta, apesar de até aos anos 1920, portanto até à segunda década do século XX, ter havido países europeus que esperaram recuperar Constantinopla para a cristandade. Por exemplo, a Rússia, onde os czares se sentiam os herdeiros dos imperadores romanos do Oriente e os protetores da cristandade ortodoxa. Aliás, durante a Primeira Guerra Mundial, os aliados, França e Inglaterra, prometeram Constantinopla aos czares. Entretanto, houve a revolução republicana e depois a revolução bolchevista e isso deixou de fazer sentido. E ainda tivemos os gregos, a Grécia independente do século XIX, que se sentia herdeira do mundo da cultura grega, de que Constantinopla tinha sido a capital e que sempre aspirou a recuperar Constantinopla pro mundo helênico, isto é, pro mundo de cultura grega. Portanto, se Ceuta e, neste caso, Melilha, provieram de conquistas no século XV, é verdade, tal como Istambul também proveio de uma conquista no outro continente também no século XV.

Apesar de tudo, o estreito do Bósforo é um bocadinho mais curtinho do que o estreito de Gibraltar. Fica logo ali, nalguns casos nem 1 km tem.

Não fica logo ali, é um outro mundo, porque aquilo inclui Constantinopla e é a Trácia Oriental. Ceuta também é perto, são 20 km, é menos de 20 km.

Sim, mas há ali zonas do Bósforo que são 700 metros, é mais fácil de dar o salto.

Sim, mas repara, já estamos a dar por adquirido que aquela parte da Ásia Menor, que também era um mundo de cultura grega, fazia parte do Império Otomano. Isto é, fazia parte naturalmente da Turquia. Não fez. Aliás, no século XX, centenas de milhares de gregos foram massacrados e expulsos daquela zona pelas novas autoridades turcas. Mas o que isso quer dizer? O que isso quer dizer é que no século XV, quer as potências cristãs, quer as potências muçulmanas, não se viam uns como potências europeias e outros como potências africanas ou asiáticas. Isto é, não aceitavam a divisão com que hoje nós trabalhamos entre a Europa e o resto do mundo. Isto é, as potências cristãs europeias sabiam que as regiões à volta do Mediterrâneo tinham sido cristãs até à conquista muçulmana no século VII depois de Cristo, e sabiam que também ainda havia no Médio Oriente grandes populações cristãs, sabiam que a cristandade tinha vindo dessas regiões, sabiam, por exemplo, que um santo cristão tão importante como Santo Agostinho, um dos principais doutores da igreja, vinha do norte de África, e queriam Nos séculos XV, XVI, havia planos para recuperar essas regiões pro cristianismo, um pouco na sequência do projeto das Cruzadas do século XI e XII. E por vezes isso até era visto como uma forma de solução para outros problemas políticos na Europa do século XVI, como por exemplo, a divisão entre os cristãos, os reformados e os católicos. Em França houve vários projetos de uma cruzada que pudesse unir as várias correntes cristãs à volta da recuperação daquele mundo cristão que tinha sido ocupado pelo islão. E a mesma coisa existia do lado muçulmano, o mesmo entendimento. A Península Ibérica tinha estado constantemente ligada ao norte da África no tempo dos muçulmanos. Tinha havido vários poderes muçulmanos que se tinham desenvolvido no norte da África e que tinham conquistado a Península Ibérica, por exemplo, os Almóadades, que é uma dinastia de emires, originários da Mauritânia, que domina e une o norte de África, o chamado Magrebe, e depois passa à Península Ibérica nos séculos XI e XII e conquista a Península Ibérica. O império almóada junta a parte muçulmana da Península Ibérica, o andaluz e o norte da África. A mesma coisa fazem os Almóadas, que sucedem aos Almorávidas, é outra dinastia berbere, até se intitulam califas nos séculos XII e XIII e que também vão conquistar a Península Ibérica e unir. Sentir que a Península Ibérica é uma parte de um império que tem a sua sede no norte da África. Eles sentem isso. E depois a dinastia seguinte, mais importante nesta região do norte da África ocidental, que é a dinastia merínida, com capital em Fez, e que não chega a ocupar a Península Ibérica, porque é derrotada na Batalha do Rio Salado em 1340. Mas o objetivo deles era conquistar outra vez a Península Ibérica para o islão.

Essas dinastias que tu falas, que território é que ocupavam no norte de África?

Basicamente, é um território que corresponde ao atual Marrocos e a uma parte da Argélia, digamos assim, nas suas expansões máximas. À volta das montanhas do Rif e do Atlas. É ali na costa que se desenvolvem e que vão ocupando esse território.

E esses territórios também, claro, que cresciam e diminuíam consoante os conflitos entre eles próprios.

Sim, geralmente há uma dinastia nesta época que consegue reunir esses territórios e depois uma ou duas gerações a seguir, os territórios voltam a dividir-se entre vários chefes que concorrem entre eles. Mas o que eu estava a dizer é que nos séculos XV e XVI, nós temos potências muçulmanas que estão empenhadas na expansão da mensagem do profeta e, portanto, têm planos ou levam a cabo empresas de conquista da Europa. Os otomanos, a partir da Ásia Menor, nos séculos XV e XVI, vão tentar aquilo que é nitidamente uma conquista da Europa, que é isso que eles estão a fazer. E, por outro lado, temos potências europeias que também têm a ideia, que vem das Cruzadas, de recuperação no Mediterrâneo e no norte da África, das antigas terras da cristandade. Temos um movimento duplo. As pessoas geralmente só falam de um dos movimentos, mas é um movimento duplo. Temos os europeus a tentar conquistar o mundo, depois as Américas, o Índico, etc. Mas ao mesmo tempo estão os otomanos a tentar conquistar a Europa, isso no mesmo século XVI. Aliás, temos também os europeus a traficar depois centenas de milhares e milhões de escravos a partir da África para as Américas e temos os otomanos a traficar centenas de milhares e milhões de escravos da Europa para o Médio Oriente, porque uma das coisas que eles fazem na Europa é capturar imensa gente para vender nos mercados de escravos e para usar como escravos militares nos exércitos otomanos, uma grande parte deles são escravos europeus, crianças que depois são treinadas para servir o sultão nas suas guerras. Isto é curioso, porque a história de como os otomanos tentaram e quase conseguiram conquistar a Europa em séculos que são supostos ser séculos de expansão europeia, esta história raramente é contada. No passado não era muito contada porque os europeus gostavam de contar a história das suas grandes conquistas e não queriam dar a entender que também estiveram em risco durante essa época de serem conquistados, e portanto queriam aparecer como os únicos gloriosos conquistadores que havia no mundo no século XVI. E hoje em dia é o contrário, porque como há uma ideia de que os europeus são os grandes vilões imperialistas da história, só se conta a história da expansão europeia e poupa-se a história do imperialismo das outras comunidades que circundam a Europa.

Nós no Ocidente temos aquela questão muitas vezes que é a questão tecnológica, temos ideia que o progresso tinha cá chegado mais rápido e que estávamos mais avançados e mais desenvolvidos em termos militares, em termos de armas. Isso não era verdade nessa altura?

Isso não é verdade. Senão os otomanos não tinham chegado a Viena de Áustria, no centro da Europa. Eles estiveram a um passo de entrar na Alemanha e de chegar aos Países Baixos e à França. Os exércitos otomanos eram Incrivelmente superiores na utilização de armas de fogo e de artilharia. Tinham uma tecnologia capaz de derrotar exércitos europeus sistematicamente. A mesma coisa acontecia no mar. As armadas otomanas dominavam o Mediterrâneo no século XVI contra as armadas de Veneza, as armadas francesas. E depois, claro, a história é complexa, porque há alianças complicadas. O Império Otomano, quando no século XVI entra na Europa, está aliado aos franceses, porque os franceses são inimigos do imperador da Alemanha, da Áustria, o Sacro Império Romano-Germânico, e esse é o principal adversário dos otomanos na Europa Central. Portanto, o rei de França está aliado ao sultão de Constantinopla, têm essa aliança. Aliás, já falamos aqui disso uma vez, o sultão de Constantinopla trata como uma submissão do rei de França ao Império Otomano, trata-o como um vassal. Os otomanos olham para os europeus como um bando de selvagens que eles vão conquistar. É isso que eles estão a fazer no século XVI, estão a conquistar, são superiores em muita coisa. O desnível tecnológico afirma-se a partir do século XVII e no século XVIII. No século XVIII já não há paridade e nitidamente os otomanos já não são capazes de enfrentar um grande poder europeu como eram capazes no século XVI, embora ainda tivesse alguma capacidade militar de enfrentamento, mas já estão em refluxo. Portanto, o que é que nós temos nos séculos XV, XVI, quando os otomanos conquistaram Constantinopla e os portugueses conquistaram Ceuta? Temos também que há condições para os otomanos entrarem na Europa e chegarem às portas de Viena. E é precisamente também os conflitos entre as várias potências europeias que lhes permite aliar-se a umas contra os outros, e portanto, eles têm sempre aliados. Os exércitos otomanos que chegam às portas de Viena têm imensos soldados cristãos, príncipes cristãos que estão a combater ao lado deles, porque estão fartos dos Habsburgos e querem libertar-se também deles. A mesma coisa acontece às potências europeias quando entram nesses outros territórios, por exemplo, no Norte de África. Aproveitam-se as divisões locais, poderes locais que estão em guerra entre si e aliam-se uns contra os outros. Portanto, a lógica é sempre a mesma: Estados em crise que permitem a entrada de um poder externo que tenta ocupar. É este o contexto que explica que em 21 de agosto de 1415, o rei de Portugal, Dom João I, possa conquistar Ceuta à frente de uma grande esquadra com os seus filhos e quase toda a grande nobreza, incluindo, aliás, o Conde Estável, o Nuno Álvares Pereira, que também vai nesta expedição de 1415. É uma coisa que corre muito bem. Podia não ter corrido bem, mas corre bem, porque eles desembarcam e conquistam imediatamente a cidade. A cidade não estava bem à espera disso e eles, aparentemente, nem conseguiram fechar as portas da cidade. Os portugueses entraram imediatamente. Podia ter sido muito diferente se eles estivessem preparados e os portugueses tivessem sido obrigados a estar lá a fazer um cerco de meses. Podia correr mal, como correu mal depois em Tânger, em 1437. Portanto, estas coisas correram muito bem. Há um lado de sorte também neste gênero de iniciativas. Nós tomamos esta data de 1415 e a conquista de Ceuta como o início da expansão ultramarina portuguesa, ultramarina porque passa para o outro lado do mar, para além do mar. E houve, no século XX, sobretudo, uma grande discussão entre os historiadores sobre as razões que levaram Dom João I a passar para além do estreito e ir conquistar Ceuta.

Certo. Vamos deixar essas razões para a segunda parte. O tempo da nossa primeira parte chegou ao fim, mas voltamos já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar da história de Ceuta, esse território que tem estado nas notícias e paramos na primeira parte mesmo quando os portugueses tinham acabado de chegar e de conquistar Ceuta. E tu estavas a dizer que havia muitas causas para essa expedição e que causas são essas, Rui?

Os historiadores discutiram imenso e discutiram porque quiseram sempre, em determinada altura, em meados do século XX, quiseram encontrar uma causa única, a causa que teria motivado Dom João I a passar lá. Mas de facto, é um conjunto de causas e o erro é tentar encontrar uma única causa. Há muita coisa que leva o rei a assumir uma empresa, que é uma empresa de grande vulto. Faço aqui uma lista rápida. Dar ocupação a uma nobreza que estava habituada a guerras e que era, sobretudo, uma aristocracia militar, e que era através da guerra que se promovia e desenvolvia a sua própria identidade. Portanto, arranjar-lhe ali, quando tinham acabado as guerras da península, uma vez que em 1411 tinha-se feito paz com Castela, depois de um grande período de guerras com Castela, arranjar-lhe ali um outro território onde pudessem exercer as suas virtudes bélicas e fazer grandes feitos de armas.

Onde pudessem exercer a sua profissão.

Havia depois desígnios comerciais, provavelmente. Sabia-se que havia rotas de caravanas que vinham de além do Saara para o Mediterrâneo, que transportavam o ouro que era minerado nas regiões do Níger, da África Subsaariana. E sabia-se que muitas dessas rotas acabavam no Norte de África e pressupunha-se que Ceuta fosse um dos destinos dessas rotas de caravana que traziam ouro. Поэтому apoderar-se disso era também ficar ali com aquilo que poderia ser, enfim, as coisas depois não correram exatamente assim, mas podia ser um dos portos onde esse ouro transportado pelas caravanas chegava. Depois havia razões daquilo que nós hoje chamaríamos geopolítica, isto é, a ideia de que Ceuta era a chave de um Mediterrâneo, que permitiria o controle do Estreito de Gibraltar, aliás, fica a 20 km de Gibraltar, поэтому o estreito é mesmo muito exíguo e permite ali um controle. Isso era outra razão. E depois havia a questão também da defesa da costa portuguesa, que estava sujeita à pirataria vinda do norte de África, a pirataria muçulmana, que sobretudo flagelava imenso o Algarve, as costas algarvias, e impedia a fixação da população, etc. E acabar com este ninho de piratas, construir ali uma base militar que depois permitisse vigiar e patrulhar aquela zona e impedir os piratas de andarem ali à vontade, também poderá ter sido outra razão. Mas, sobretudo, o rei vai a Ceuta porque também precisa de se engrandecer. D. João I tinha se tornado rei de Portugal em 1385, depois daquela ruptura em 1383. Em 1385 é escolhido pelas Cortes como rei português, e a sua monarquia é muito disputada, é muito discutida. É discutida dentro do país, porque há muitos fidalgos que não reconhecem o bastardo do rei D. Pedro I como rei de Portugal, e é discutida exteriormente, porque o rei de Castela, casado com a filha de D. Fernando, acha que ele é que é o rei de Portugal. E é uma monarquia que não tem uma legitimidade completamente assegurada. E a melhor maneira de conseguir essa legitimidade é precisamente o rei projetar-se numa empresa que lhe dê uma grande glória, uma honra, que seja visto na Europa como alguém que é capaz de fazer grandes empresas, como é, por exemplo, fazer a guerra aos muçulmanos, que há um grande prestígio associado à ideia das Cruzadas. Isso também é uma razão para ir a Ceuta. Aliás, ele rapidamente junta ao seu título de Rei de Portugal e do Algarve, o Senhor de Ceuta, ele torna-se D. João I, Rei de Portugal, do Algarve e Senhor de Ceuta. Isto é importante para o rei se apresentar perante o resto da cristandade como este rei que é tão poderoso, tão bravo, tão corajoso, que chegou à África e está a recuperar a África para os cristãos. E há esta ideia, que é muito forte, que o que está a fazer-se é recuperar terras que eram cristãs e foram ocupadas pelos muçulmanos. Isso, aliás, aparece no Gil Vicente, aquela frase que eu agora vou parafrasear, mas que é: "A África é uma terra cristã e os mouros roubaram-na."

Tu chamas muitas vezes a atenção para isto, e acho que é pouco demais sublinhar, que hoje em dia nós, na nossa mentalidade secular, temos muita dificuldade em ver, ou pelo menos a levar a sério que um empreendimento com uma dimensão religiosa pudesse ser mesmo uma enorme motivação para aquelas pessoas. Mas era, não é? Tu chamas muitas vezes a atenção para isso.