Da infância em Tomar ao bronze olímpico em Paris, Patrícia Sampaio fala das dores crónicas, as lesões, a luta com a balança e a força mental que a mantêm focada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

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Hoje em dia eu gosto muito e sou muito orgulhosa do corpo que tenho. Agora digo até das minhas mãos. Eu tenho as mãos todas deformadas. Tenho muito. E durante muitos anos, usar anéis ou pintar as unhas, nem pensar, porque isso chamava a atenção para as mãos. Hoje em dia eu olho e penso: "Estas são as mãos que me fizeram ganhar todas as minhas medalhas." As cicatrizes no corpo fizeram todas parte da minha história. Os braços grandes e o corpo musculado, eu tenho muito orgulho. Eu estou sempre a gozar. Eu chegava e fazia bíceps para minha avó e dizia: "Avó, já tinhas visto algum braço assim tão grande?" E ela: "Filha, tu és mesmo musculada." E eu tenho imenso orgulho, mas não foi sempre assim. Com 16, 17 anos, eu lidava mal com meu corpo, não tanto pela questão do músculo, porque eu sempre gostei de ser grande e de ser musculada, mais pelo contrário, de me achar gorda, destas questões de perder o peso. Tinha alguns transtornos alimentares, lidava muito mal com a comida, tinha compulsão. E isso, especialmente numa rapariga, numa jovem adolescente, são coisas que causam grande impacto.

Aprendeu cedo a arte de cair e levantar. Na infância, em Tomar, começou por rejeitar o tatame logo na primeira semana. Foi preciso a teimosia dos primeiros anos para perceber que a sua vocação não estava na fuga, mas sim no confronto. Numa modalidade desportiva habituada a atrair os seus maiores talentos para as luzes e infraestruturas da capital, Lisboa, foi audaz e recusou o caminho óbvio. Preferiu continuar no clube da sua terra natal, treinada pelo próprio irmão, erguendo um modelo de preparação familiar e fiel às suas origens. Licenciou-se em Ciências da Comunicação enquanto preparava os maiores palcos do desporto internacional e recusou sempre o deslumbramento, mantendo intacto o hábito de voltar todos os dias para a mesa e casa dos avós, mesmo depois de atingir o topo do mundo. Superou cirurgias, dores crônicas e as melhores judocas do planeta para conquistar um bronze olímpico nos Jogos de Paris, o título de campeã da Europa e a liderança absoluta do ranking mundial da sua categoria. Hoje, no "Em 40 Minutos", João Miguel Santos, vamos ter que ter cuidado. Temos aqui uma verdadeira atleta que é bem capaz de dar cabo de nós. Patrícia Tambay, seja muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.

Muito obrigada, boa tarde. Foi uma introdução muito boa. Eu estava aqui a ouvir isto e a sorrir. Fiquei orgulhosa da pessoa que estavam a falar.

É a imagem que temos de ti. Mas sabemos também, de fonte segura, que também és uma pessoa teimosa. Nomeadamente nos teus treinos, quem te está a treinar se calhar reconhece mais isso. É só do desporto ou na tua vida também és uma pessoa mais de convicções firmes, às vezes até um bocadinho insuportável, não somos nós a dizer.

Meu Deus, insuportável é uma palavra forte. Não, mas sou muito teimosa, tenho um feitio complicado, tenho bastante noção disso. Acho que a culpa não é inteiramente minha, porque isso é de família. Em casa somos todos assim, mas também acho que esse feitio, essa maneira de ser mais marcada e mais decidida, me tem ajudado muito no meu percurso.

Nomeadamente na tua competitividade e quando entras a jogo.

Sim, na competitividade, na persistência. É preciso sermos teimosos nesta vida e neste desporto, neste mundo competitivo e do desporto de alto rendimento. É preciso sermos teimosos e termos umas convicções muito fortes para nos mantermos aqui depois de tanta coisa que nos acontece.

Porque as adversidades são muitas, é isso?

São desafios. Adversidades e desafios, principalmente desafios.

Uma palavra mais positiva, exatamente.

Boa. Essa boa perspectiva de olhar para o desporto como um desafio foi sempre assim, porque ainda na introdução falávamos disto, tu treinas no clube da tua terra, ou seja, sabemos de muitos desportistas que começam realmente os seus primeiros contactos no desporto da sua terra, mas depois fazem essa transição para um clube maior. Tu sempre mantiveste essa ligação muito forte ao teu clube. Aliás, eu estou me a lembrar que quando ganhaste essa medalha de bronze, nós aqui na Rádio Observador fizemos uma emissão especial e falámos com esse clube da tua terra, com a tua mãe também, estou a lembrar disso.

Do pouco que ela conseguia falar.

E foi um momento muito emocionante, porque se percebia muito bem essa ligação que tu tens a essas tuas raízes, a Tomar.

Sim, o meu clube é muito familiar, a cidade é pequena, o clube também de dimensões e de capacidade é pequeno, então é um contexto muito familiar. A minha turma de treino somos como irmãos. À sexta-feira, acabamos o treino, juntamo-nos todos, vamos jantar, vamos pôr a conversa em dia, porque alguns estão na faculdade ou alguns estão a trabalhar durante a semana, então à sexta juntamo-nos todos. É tudo um contexto familiar. Os aniversários, somos nós juntos outra vez. Passagem de ano, passo com eles. É realmente uma família e foi uma das razões, para além de ter lá família, efetivamente, com o meu irmão enquanto meu treinador, o facto de sermos uma grande família unida foi uma das grandes razões para nunca ter querido abandonar o clube, fora tantas outras que eu acho que esses desafios que nós falávamos, são coisas que eu e o meu irmão sempre fomos aprendendo a ultrapassar e a aproveitar isso como etapas que íamos subindo e coisas que nos desafiavam a sermos melhores. Cada coisa que nós conquistávamos e que víamos que conseguíamos fazer A seguir podemos fazer ainda melhor e assim vamos crescendo em coisas mínimas, nas condições do clube. Ele tem trabalhado todos estes anos e o tapete não é o mesmo quando começamos a trabalhar juntos em 2013. O ginásio tem sido completamente diferente. Até as paredes do clube estão diferentes por estruturas que eles foram colocando. E acho que isto tem sido um grande objetivo nosso de fazer o judo e fazer o clube crescer ali na cidade sem nunca virarmos costas.

Portanto, tu és uma inspiração para os judocas de Tomar e da região de Tomar, é isso?

Especialmente depois dos Jogos Olímpicos, eu senti muito isso, eu tive essa noção. Nós tivemos um boom muito grande a seguir aos jogos, ali para outubro, mais ou menos, de meninas, especialmente. A turma abaixo da minha, dos 11, 12 anos, é maioritariamente constituída por meninas. Meninas grandes, meninas que gostam de andar à porrada, que eu vejo muito quando eu tinha 11, 12 anos também, olho para elas e vejo uma Patrícia, isso é giríssimo.

Portanto, boas atletas ou bons atletas e com reconhecimento internacional puxam por outros atletas.

Acredito que sim. E não só o reconhecimento internacional.

Não sejas humilde, Patrícia.