Humanizar a medicina é, em última análise, recentrar o essencial. Mesmo perante os avanços tecnológicos a medicina continua a ser, acima de tudo, uma rela?...
A medicina contemporânea vive hoje uma tensão evidente entre os extraordinários avanços científicos e tecnológicos e o risco, cada vez maior, da perda da sua dimensão humana. Quando o doente é reduzido a um caso clínico ou a um corpo a ser tratado, deixa de ser reconhecido como aquilo que verdadeiramente é: uma pessoa integral, dotada de dignidade, história, sofrimento e espiritualidade.
A prática médica tem-se vindo a afastar progressivamente dessa dimensão, que considero, enquanto médico especialista em Gastrenterologia, absolutamente essencial.
O diálogo entre médico e doente limita-se, muitas vezes, à avaliação de sintomas e resultados laboratoriais, negligenciando aquilo que não se mede, nomeadamente a experiência do sofrimento, a fragilidade e a singularidade de quem procura ajuda. Este afastamento não surge de forma isolada, ou sem causa aparente. A crescente mercantilização da saúde, impulsionada por modelos organizativos centrados na produtividade, bem como um ensino médico ainda insuficientemente ajustado a uma visão humanista, têm contribuído para uma prática mais orientada para o consumo do que para o cuidado. Em muitos contextos, o doente corre o risco de se tornar um número, realidade particularmente visível nos serviços de urgência, onde a necessidade de dar resposta à doença se sobrepõe, frequentemente, ao cuidado da pessoa em sofrimento.
Neste contexto, estou convicto de que a fé cristã oferece um contributo singular ao propor a recuperação do cuidado como serviço, inspirado na compaixão de Cristo, médico das almas e dos corpos.
A tradição cristã é profundamente personalista, assente na convicção de que cada ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, a fragilidade humana, nomeadamente na doença, não diminui a dignidade inalienável da pessoa.
Nos Evangelhos, Jesus é apresentado como curador e pastor, que cuida integralmente do ser humano. Não trata apenas a doença: estabelece uma relação pessoal, escuta, aproxima-se, toca. A sua ação revela uma medicina que integra corpo, mente e espírito.
A tradição cristã oferece um contributo particularmente relevante para a compreensão da humanização da medicina, ao colocar a pessoa no centro do cuidado. No Evangelho de Mateus (25, 36), lê-se: “Estive doente e visitastes-me”. Esta passagem exprime, de forma particularmente clara, a identificação entre o cuidado prestado ao outro e a responsabilidade ética de quem cuida. Não se trata apenas de um apelo à assistência, mas de um reconhecimento da dignidade do doente, que deve ser visto não apenas como portador de doença, mas como uma pessoa merecedora de presença, atenção e respeito.
Para a fé cristã, a medicina não é apenas uma ciência, mas também uma vocação e, para muitos, um verdadeiro ministério de serviço à vida. O médico é chamado a ver, em cada doente, a presença de Cristo, concretizando essa visão numa prática assente na empatia, na escuta e no respeito pela dignidade humana.
O médico, ao escolher uma profissão que o aproxima de forma tão direta do seu semelhante, assume necessariamente como missão a procura do bem, concretizando-a através dos meios técnicos de que dispõe e da ciência que adquiriu ao longo da sua formação.
Essa procura do bem fundamenta-se, antes de mais, no encontro entre quem sofre e quem trata, um encontro que está na base da própria relação médico-doente.
Recordo, a este propósito, o meu sexto ano (1971-72) na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, quando, nas aulas de psiquiatria, o Professor Barahona Fernandes nos ensinava, e a mim em particular marcou, a importância desse encontro, do contacto direto entre o médico e o doente, como elemento essencial da prática clínica.
É nesse gesto simples e profundamente humano, quando o médico estende a mão ao doente que entra no seu consultório e o cumprimenta, que se inicia o diálogo, numa perspetiva de entendimento, assente desde logo na cordialidade e no respeito mútuo.
Humanizar a medicina significa, por isso, usar a ciência ao serviço da vida, sem que esta substitua o contacto humano. Significa recuperar o cuidado como encontro entre pessoas, onde se escuta ativamente, se dedica tempo ao doente e se reconhece a inseparabilidade entre corpo, mente e espírito.
A bioética assume, neste contexto, um papel fundamental, ao integrar o pensamento ético na prática médica. Trata-se de um ramo da ética que orienta as decisões clínicas, promovendo uma consciência moral permanente dos atos médicos e assegurando o respeito pela vida, pela dignidade humana e pela autonomia do doente. Nesta perspetiva, o doente nunca pode ser reduzido a um meio para fins, nomeadamente económicos.
O ensino médico e as faculdades de medicina têm, por isso, um papel decisivo.
Ao longo de mais de trinta anos como professor na Faculdade de Medicina, tive o privilégio de acompanhar alunos do quinto ano no ensino da clínica. Para além dos conhecimentos técnicos, procurei transmitir-lhes, sempre, algo que considero essencial: a importância da relação médico-doente.
A prática clínica exige método, rigor e capacidade de decisão. Mas exige também escuta, atenção e respeito pela pessoa que está diante de nós. A história clínica e a observação não são apenas etapas formais, são, muitas vezes, parte integrante do próprio processo terapêutico.
Recordava frequentemente aos meus alunos um episódio do início da minha prática, em 1972. Uma doente apresentou-se em consulta dizendo: “Doutor, tenho toda a parte esquerda do corpo fria e dormente.” A descrição pareceu-me, à primeira vista, algo exagerada. Ainda assim, considerei que desvalorizar aquela queixa seria um erro.
Optei por fazer uma história clínica completa, observá-la com cuidado e dar-lhe o tempo necessário. No final, prescrevi-lhe o que provavelmente teria indicado desde o início.
Quinze dias depois, regressou e disse-me: “Doutor, aquele comprimido foi uma maravilha. Tomei o primeiro e todas as queixas desapareceram”. Este episódio acompanhou-me ao longo dos anos como um exemplo simples, mas claro. Mais do que a medicação em si, o que fez a diferença foi a forma como a doente foi escutada e valorizada.



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