Salários, produtividade, investimento e fiscalidade estão ligados. Portugal não precisa de trabalhar mais horas nem de competir pelo baixo custo, mas de gera...
Portugal tem hoje preços cada vez mais próximos dos países europeus mais desenvolvidos e uma carga fiscal elevada, mas continua a praticar salários muito inferiores, comparativamente aos dos países com os quais nos comparamos. Esta realidade torna-se ainda mais difícil de compreender quando temos profissionais qualificados, empresas competitivas e setores reconhecidos pelo seu sucesso. Como chegámos a este ponto e o que é preciso fazer para mudar?
A resposta não está na ideia de que os portugueses trabalham pouco. Temos profissionais competentes, dedicados, capazes de se adaptar e de criar, com um desempenho comparável ao dos melhores padrões internacionais. O problema está na nossa capacidade de transformar esse trabalho em maior valor acrescentado. E é precisamente esta distinção que temos de compreender.
Imaginem-se duas pessoas a trabalhar durante oito horas, com níveis de competência e desempenho iguais. Quem trabalha numa empresa com mais investimento, tecnologia avançada, processos eficientes e acesso a mercados internacionais terá, à partida, melhores condições para criar mais valor do que quem trabalha numa atividade de pequena escala, margens reduzidas e pouco investimento. É disso que falamos quando falamos de produtividade: não de trabalhar mais, mas de gerar mais valor por cada hora de trabalho. Só uma economia capaz de criar mais valor por trabalhador consegue sustentar salários mais elevados.
Portugal tem excelentes empresas e profissionais de elevada produtividade. O desafio está em fazer com que esses exemplos deixem de ser exceção e passem a representar uma parcela cada vez maior da nossa economia.
A economia portuguesa é composta sobretudo por micro e pequenas empresas, muitas delas com dificuldades de financiamento, pouca escala, custos elevados e capacidade limitada para investir em tecnologia, inovação e internacionalização. Esta realidade é particularmente visível em setores como o turismo, a restauração, o comércio e os serviços, onde aumentar os salários exige também maior produtividade e valor acrescentado. Não se trata de atribuir culpas, mas de reconhecer um problema estrutural que envolve empresas, trabalhadores e Estado.
A carga fiscal deve ser analisada em função dos rendimentos, porque o mesmo imposto pode ser suportável para quem ganha 4.000 euros e muito pesado para quem recebe 1.200. Além do IRS e das contribuições, o rendimento disponível volta a ser tributado através dos impostos sobre o consumo, presentes em despesas como alimentação, energia, transportes, habitação e serviços. No final do mês, a diferença entre o salário bruto e o valor que efetivamente sobra é significativa. Vivemos com preços europeus, mas ainda não vivemos com rendimentos europeus.
Portugal não está condenado a ter salários baixos, mas precisa de deixar de competir sobretudo pelo custo e apostar no conhecimento, na tecnologia, na qualidade, na especialização e na criação de valor. Isso exige mais investimento produtivo, empresas com maior escala, inovação, melhor organização, mais capital por trabalhador e uma aposta contínua na qualificação. Exige também condições para que as empresas que criam mais valor possam crescer, investir e pagar melhores salários. Este não é apenas um desafio de um Governo, mas de todo o país.
O Estado deve criar estabilidade, reduzir a burocracia, promover o investimento, garantir boas infraestruturas, melhorar a educação e a qualificação e assegurar um sistema fiscal previsível e competitivo. As empresas, os trabalhadores e as suas organizações também têm responsabilidades na construção de relações laborais que conciliem produtividade, salários e competitividade. Não é preciso escolher entre empresas competitivas e bons salários: sem criação de valor, as empresas não conseguem pagar melhor, mas salários baixos limitam o consumo, a poupança, o acesso à habitação, a natalidade e o crescimento económico.
Salários, produtividade, investimento e fiscalidade estão ligados. Portugal não precisa de trabalhar mais horas nem de competir pelo baixo custo, mas de gerar mais valor por cada hora de trabalho. Só assim será possível aproximar os rendimentos e a qualidade de vida dos padrões europeus, sem comprometer a competitividade, e financiar um Estado de qualidade, empresas fortes e salários dignos. Mais do que saber quanto produzimos, importa perceber quanto desse valor chega efetivamente às pessoas.



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