A inteligência artificial já é usada por 92% das empresas do mercado de capitais ligadas à Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), segundo pesquisa inédita da associação em parceria com o Datafolha. Porém, o levanta…
A inteligência artificial já é usada por 92% das empresas do mercado de capitais ligadas à Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), segundo pesquisa inédita da associação em parceria com o Datafolha. Porém, o levantamento também indicou que boa parte das instituições ainda está em estágio intermediário de maturidade, com o uso da IA ainda concentrado em ganhos de eficiência e processos internos.
A pesquisa ouviu 177 empresas entre 21 de janeiro e 6 de abril deste ano, dentro de um universo de 1.500 instituições associadas à Anbima ou aderentes aos códigos de autorregulação da entidade. Do total de respondentes, 80% são gestoras e 20% são outras instituições, como securitizadoras, bancos, distribuidoras, corretoras e consultorias.
Segundo Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, a maior presença de gestoras na amostra reflete a composição do quadro da associação.
“A gente garante sempre que tenha uma proporção adequada de cada tipo de instituição para que, no conjunto, elas reflitam realmente o quadro de associados”, disse. Segundo ele, trata-se de “uma boa amostra para o mercado financeiro e de capitais do Brasil”.
O levantamento nasceu de discussões anteriores da Anbima sobre o uso de IA no mercado. Billi afirma que, no ano passado, a associação fez um trabalho específico com gestoras de recursos para entender quais eram seus principais problemas e como a IA poderia ajudar a resolvê-las. A partir daí, a entidade decidiu ampliar a pesquisa para medir o grau de maturidade das instituições, mapear desafios e orientar a agenda da Anbima no tema.
Aplicações mais comuns da IA
No levantamento, as práticas de IA mais citadas foram análise de dados, ou data science, apontada por 72% dos respondentes, e IA generativa, mencionada por 67%. Também aparecem machine learning, com 48%, processamento de linguagem natural, com 36%, sistemas autônomos com IA embarcada, com 21%, visão computacional, com 16%, e interface homem-máquina, com 6%. Outros 8% disseram não utilizar IA. Em geral, os casos relatados se concentram em atividades como processamento de informações, resumo de documentos, apoio a análises, organização de dados, automação de rotinas e revisão de processos.
Para Billi, a pesquisa mostra uma divisão entre o uso atual da IA e o que as instituições esperam da tecnologia no futuro. “O uso de hoje é produtividade, eficiência, como eu pego esses processos repetitivos, como uso o dado de uma forma mais eficiente, como leio as coisas mais rápido”, afirmou. “O mundo do futuro, que ainda é muito incipiente, é uma agenda de transformação dos negócios.”
Entre as empresas que adotam alguma prática de IA, 80% citam aumento de produtividade e 75% mencionam automação de tarefas. Apoio à tomada de decisão em áreas específicas e redução de riscos ou erros aparecem com 57% cada. Já efeitos mais diretamente ligados à transformação do negócio ainda são menos frequentes: 17% citam criação de novos produtos ou serviços, 14% mencionam vantagem competitiva e 6% apontam mudança no modelo de negócio.
A própria Anbima avalia que a adoção da tecnologia ainda não significa maturidade homogênea. Entre as empresas que usam IA, 48% dizem estar em estágio intermediário, com aplicação em áreas-chave e melhoria de processos. Outros 25% relatam projetos isolados com ganhos pontuais. Só 11% afirmam ter IA integrada a processos críticos, com ganhos de produtividade e uso em novos negócios, e 3% dizem enxergar vantagem competitiva clara.
A governança de dados também aparece em estágio intermediário. Segundo a pesquisa, 36% das empresas têm políticas e processos básicos, mas com baixa integração entre áreas, enquanto 30% relatam iniciativas pontuais, sem padronização ou formalização. Outras 24% dizem ter governança formalizada, com papéis definidos e processos aplicados de forma consistente, e 5% afirmam estar em estágio avançado. Já 6% dizem não ter políticas, processos ou papéis definidos para governança de dados.
Entre as empresas que usam IA, 52% dizem ter diretrizes informais ou políticas ainda em elaboração para o uso responsável da tecnologia. Apenas 9% afirmam ter política formal abrangente, com governança robusta, e 3% dizem estar em estágio avançado de maturidade.
Para o executivo, é natural que a governança avance depois dos primeiros testes, mas ela passa a ser necessária quando as empresas tentam escalar o uso da tecnologia. “Quando eu quero isso fora do ambiente de experimentação, a gente precisa ter toda essa governança estruturada”, afirmou. “A gente não pode escalar um projeto de IA sem ter todas as políticas, todo o treinamento feito e tudo definido dentro da governança.”
A transparência também aparece como ponto de atenção no relatório. Sete em cada dez empresas afirmam não ter políticas de transparência ou ter apenas políticas básicas sobre o uso de IA. Segundo a pesquisa, o tema tende a ganhar relevância à medida que a tecnologia se aproxima de processos críticos e de decisões com impacto sobre clientes, investidores e o mercado.
A mensuração de resultados é outra lacuna. Entre as empresas que usam IA, 43% dizem perceber os resultados de forma subjetiva, sem métricas ou registros, e 28% usam indicadores apenas em projetos específicos. Só 3% afirmam ter mensuração corporativa integrada à estratégia da organização.
Segundo Billi, a agenda da Anbima será ajudar as instituições, especialmente as menores, a avançar no uso da IA de forma mais estruturada. “A nossa missão é ajudar agora os nossos associados, especialmente os menores, que não têm tanta estrutura e tanto acesso a esse tipo de tecnologia, a avançar nessa agenda”, disse.




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