Quando a eletricidade chegou às cidades, mudou tudo o que era possível fazer num dia, numa fábrica, numa noite. Cem anos depois, a rede social mudou o que era possível fazer com uma câmera, um pleito e uma multidão. Leia mais (06/28/2026 - 07h00)

Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Quando a eletricidade chegou às cidades, mudou tudo o que era possível fazer num dia, numa fábrica, numa noite. Cem anos depois, a rede social mudou o que era possível fazer com uma câmera, um pleito e uma multidão.

As duas são determinantes e foram parar nas mãos de um punhado de empresas, o que sugere que representem o mesmo poder, em séculos distintos. Não é o caso. A despeito da relevância incomparável da eletricidade, são as plataformas digitais que submetem os usuários aos caprichos de seus proprietários.

Tornou-se um truísmo dizer que a inteligência artificial é a eletricidade do nosso tempo, mas resta saber se o poder irá fluir como na malha da Enel, que pode ser escorraçada de São Paulo pelos serviços tenebrosos que presta, ou na do Instagram, que não precisa combater a proibição do uso por adolescentes, já que estes se encarregam de fazer o impossível para burlá-la.

A diferença é de produto, com uma vendendo commodity e a outra, acesso. Extrapolando, é a dicotomia entre fungibilidade e exclusividade que qualifica o poder tecnológico mais amplo.

O "momento DeepSeek" marcou uma transição do reinado dos donos para um modelo híbrido, em que versões abertas das IAs líderes são disponibilizadas com seis meses de atraso pelos concorrentes asiáticos, permitindo que países como o Brasil possam abandonar as infrutíferas tentativas de construir LLMs totalmente nacionais e investir em estratégias melhores de participação na economia da IA.

Isso reflete a conversão da inteligência em recurso ordinário, algo que ninguém imaginava há dez anos. Igualmente imprevisto é o fato de que a expansão da IA não leva o custo do processamento e a sua oferta a caírem de forma generalizada, mas por vezes faz até o contrário, a despeito dos investimentos massivos em infraestrutura.

Ocorre que o afã de produzir algoritmos cada vez mais poderosos se torna industrial pela necessidade de chips sucessivamente mais rápidos e nichado pela elevação do valor de fontes de dados capazes de ensinar como particularidades do mundo funcionam, incentivando a geração intencional da escassez, como no mercado de diamantes e outros.

O resultado é uma separação cada vez maior entre a IA commoditizada e, portanto, sem controlador, que deve se instalar em praticamente todos os produtos e serviços de adoção ampla, e as IAs que geram valor de forma diretamente competitiva (em que seis meses podem significar uma vida) ou pela extração complexa e refino patenteável de dados sensíveis. Exemplos desse segundo tipo incluem dispositivos médicos e armas autônomas. Aqui, o tempo torna o poder mais vertical e não menos.

Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar

A importância inconteste de tais segmentos não ofusca a vitória, no agregado, do modelo de poder das concessões de eletricidade sobre o das redes sociais no horizonte de alguns anos. No entanto, é preciso considerar que o futuro ampliado da IA está na robótica, que também deve perpassar grande parte das atividades humanas, sendo que seu fornecimento é industrial e seu treinamento é baseado em dados altamente seletivos, como dinâmicas fabris e rotinas domésticas.