Pequim rompeu com o Vaticano em 1957 e associação patriótica é principal autoridade na organização da Igreja no país

Pequim rompeu com o Vaticano em 1957 e associação patriótica é principal autoridade na organização da Igreja no país

Eric Napoli / Poder360 - 7.abr.2026

de Pequim 4.jul.2026 (sábado) - 6h00 Siga o Poder360 no Google

Há quase 70 anos, os cristãos católicos chineses vivem um clima de tensão com a Igreja Católica Apostólica Romana. Na prática, a autoridade máxima responsável pela administração das igrejas e pela indicação de bispos no país não é o Vaticano, mas o PCCH (Partido Comunista da China), que exerce esse controle por meio da CCPA (Associação Patriótica Católica Chinesa).

Essa ruptura formal não é declarada como um cisma oficial pela Igreja Católica, mas criou um distanciamento profundo entre a Igreja na China e a Santa Sé.

A CCPA foi criada ainda na 1ª década depois de o PCCH assumir o comando do país e fundar a República Popular da China, em 1949.

Seu objetivo original era afastar a influência de forças estrangeiras sobre a população chinesa. Em seu site oficial, diz que a Igreja Católica estava sob domínio colonial durante os primórdios da República Popular, com sua administração concentrada nas mãos de missionários estrangeiros.

Com o governo chinês estruturando uma forma de estabelecer o controle no país e afastar interferências externas depois de décadas de ocupações estrangeiras, o PCCH incentivou organizações católicas patrióticas ao longo da década de 1950, o que resultou na criação da CCPA em agosto de 1957.

A criação da CCPA provocou uma reação imediata do Vaticano.

Assista à reportagem (2min14s):

Ao longo das décadas, a relação entre o Vaticano e o PCCH foi se distensionando até um acordo provisório firmado em 2018 –já no papado de Francisco– para unificar as duas igrejas.

Nele, o papa passou a aceitar as nomeações de bispos da CCPA, mas mantém um poder de veto sobre essas ordenações. Esse documento foi renovado em 2020, 2022 e 2024. A última renovação foi por 4 anos.

O último episódio de maior tensão entre o Vaticano e o PCCH foi a prisão e destituição do bispo Joseph Zhang Weizhu. O bispo, que liderava a diocese de Xinxiang, foi preso em maio de 2021 por não ser um clérigo registrado no país. Em novembro de 2025, o papa Leão 14 aprovou a substituição de Zhang pelo bispo Francis Li Jianlin, indicado pela CCPA.

A CCPA é uma das 7 associações religiosas oficiais da China, subordinadas à Administração Nacional de Assuntos Religiosos –braço do governo chinês responsável por supervisionar as atividades religiosas do país. Além da CCPA, outra organização católica é a Conferência Episcopal da Igreja Católica, que atua em conjunto com a CCPA.

Também há duas organizações para a Igreja Protestante: o Comitê do Movimento Patriótico das Três Autonomias das Igrejas Protestantes na China e o Conselho Cristão da China. Embora os cultos evangélicos não sejam centralizados em uma unidade única como a Igreja Católica, as pregações precisam ser sancionadas por esses órgãos para serem consideradas legais.

Esses grupos são alvos de operações policiais, assim como os católicos e outras religiões. Em novembro do ano passado, a agência de notícias Reuters reportou a prisão de 30 pessoas –entre pastores e funcionários– de uma igreja evangélica não sancionada pelo Estado. Eles podem ser condenados a até 3 anos de prisão.

Embora a maioria da população chinesa se declare ateia, a China concentra uma das maiores populações de cristãos do mundo.

A pesquisa mais recente sobre religiões no país foi feita pela CGSS (Pesquisa Social Geral da China) em 2018 e contabilizou cerca de 44 milhões de cristãos, dos quais 90% eram protestantes. Os dados oficiais da China não informam a composição religiosa da população.

Segundo o Pew Research Center, esse número pode ser maior. Um cruzamento de estudos compilado pelo instituto diz que o número de chineses que declararam acreditar em Jesus Cristo ou em Tianzhu –a palavra que os católicos chineses usam para Deus– foi de 81 milhões. Essa quantidade coloca a China como a 7ª maior população cristã do mundo.