Andrei Kurkov dividiu mesa com a conterrânea Maria Reva nesta quinta
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23.jul.2026 às 15h50
Patrícia Campos Mello Flavia Lima
Um bloqueio criativo tomou conta dos autores ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022. Como escrever ficção quando uma realidade atroz se descortina à sua frente?
Naquele momento, Kurkov estava em Kiev escrevendo um romance e fugiu para o oeste do país quando os primeiros mísseis atingiram a capital ucraniana. Reva estava no Canadá, onde vive desde os sete anos, e trabalhava em sua obra "Extinção", publicada no Brasil pela DBA.
"Escrever ficção demanda uma imaginação muito ativa, mas a guerra mata a imaginação. Você fica preso nas tragédias da realidade", disse Kurkov em mesa ao lado de Reva na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta quinta-feira (23). "Escrever e ler ficção são prazeres, e ter um prazer durante a guerra me parecia imoral."
Para ele, a saída foi deixar de lado seu romance e começar a escrever um diário sobre tudo o que estava ocorrendo. "Ucrânia: Diário de uma Guerra", da editora Carambaia, reúne os dois primeiros volumes de seus diários sobre a vida na Ucrânia após a invasão da Rússia. O terceiro volume, "Three Years on fire", foi publicado no final do ano passado em inglês
Para Reva, escrever ficção naquele momento não parecia relevante. "Como posso escrever um livro se o cenário está sendo destruído em tempo real? "
Enquanto Reva estava em segurança em solo canadense, seu avô continuava na Kherson ocupada pelas tropas russas, e vários de seus parentes estavam em cidades alvos de bombardeios.
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Após desistir do livro por um tempo, ela tomou a decisão de inserir a guerra e ela mesma em sua narrativa, semifinalista do Booker Prize do ano passado.
Kurkov, o principal escritor ucraniano em atividade, autor de dezenas de livros traduzidos para 45 idiomas e duas vezes finalista do Booker Prize, tinha decidido só voltar a escrever ficção depois que a guerra acabasse.
"Mas aí eu entendi que talvez não exista um ‘depois da guerra’; a Rússia não vai desaparecer e a guerra não vai acabar", disse.
Ele retomou a escrita de ficção em 2024, terminou o livro que havia iniciado, e acaba de entregar um novo romance, que trata da Ucrânia nos tempos atuais.
Antes de mergulhar na não-ficção, Kurkov era um celebrado autor em seu país e no mundo com romances pontuados por humor e crítica mordaz ao sistema soviético, como Morte de um Pinguim e Abelhas Cinzentas, não publicados no Brasil.
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