Antes da perda do poder, a ex-presidente Dilma já vinha sofrendo problemas políticos e de articulação no Congresso Nacional - José Cruz/Agência Brasil Passada uma década após o impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), concluído em 31 de agosto de 2016, o processo ainda preserva consequências na política brasileira, como a intensificação da polarização no país.

Além disso, após o julgamento contra a então mandatária, partidos e líderes políticos tradicionais acabaram tendo uma queda na votação no pleito seguinte e abriram espaço para o avanço de forças radicais a partir de 2018.

Antecedentes Antes da perda do poder, a ex-presidente Dilma já vinha sofrendo problemas políticos e de articulação no Congresso Nacional. Mas um outro fato já dava sinais de desgaste do governo: as Jornadas de Junho de 2013, movimentos difusos antissistema que atingiram violentamente a popularidade de Dilma.

A reeleição apertada, em 2014, contra Aécio Neves, candidato a presidente pelo PSDB, tornou-se, então, o mais evidente sinal de desgaste dos três mandatos petistas junto à população. No pleito, a ex-presidente obteve 54 milhões de votos contra 51 milhões do candidato tucano, até então a disputa mais acirrada desde redemocratização.

A fragilidade da reeleição, perda de popularidade devido à crise econômica e problemas na articulação política estimularam o debate sobre um possível pedido de impedimento da então presidente. O caminho sem volta começou em 2 de dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, saiu da base governista devido a uma falta de acordo com deputados petistas para absolvê-lo no Conselho de Ética da Casa.

Em represália, ele aceitou um pedido de impeachment apresentado pelos juristas Miguel Reale Júnior, Janaína Paschoal e Hélio Bicudo, que denunciavam supostas práticas de “pedaladas fiscais”, que teriam como objetivo mascarar as contas públicas e feririam a Lei de Responsabilidade Fiscal. 

Análise O clima de polarização política, segundo o cientista político Marco Tulio Freitas, vinha ganhando forma desde as Jornadas de Junho de 2013, tidas como ponto de inflexão ao expor um esgotamento do pacto de estabilidade da Nova República e uma fragmentação da confiança institucional que preexistia ao impeachment.

“O processo de 2016 não criou a polarização, mas funcionou como catalisador: transformou uma crise de representação difusa em um racha binário e organizado, ou seja, pró e contra impeachment, que depois se cristalizou eleitoralmente em 2018”, afirma.

O cientista político Hely Ferreira acrescenta que a operação Lava Jato – uma série de investigações que tinha como objetivo original investigar casos de corrupção na Petrobras e atingiu políticos de diferentes espectros – alimentou na população um sentimento de desconfiança ainda maior em relação à classe política e às instituições.

“Quando se cria uma narrativa para desconstruir ora o Executivo, ora o Legislativo, ora o Judiciário, o governo vai ficando sem condições de governabilidade. Porque até os aliados começam a se distanciar, já que não querem ver a sua imagem atrelada a um governo que está desgastado. Naquele momento, o discurso era justamente de uma desconstrução da chamada classe política”, relembra.

Consequências eleitorais Um outro personagem foi fundamental no impeachment de Dilma. O então vice-presidente Michel Temer acumulava atritos com a mandatária, que foram tornados públicos em 7 de dezembro de 2015, quando divulgou uma carta na qual listava episódios em que a presidente teria demonstrado falta de confiança no partido dele, o PMDB, e dizia que ela o tratava como um vice “meramente decorativo”. 

Com a confirmação do impeachment da presidente pelo Senado em agosto de 2016, Temer assumiu o governo e os partidos da centro direita juntaram-se a ele, incluindo o PSDB, partido derrotado na eleição presidencial de 2014. A aliança com o governo Temer - considerado impopular -, segundo Marco Tulio Freitas, embora não tenha sido determinante isoladamente, contribuiu para um vácuo de representação que desembocou na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018. 

“Isso abriu espaço para um outsider (Jair Bolsonaro) que se apresentava como antissistema, capitalizando o mesmo sentimento antipetista mobilizado durante o processo. Ou seja, o impeachment não causou a ascensão da direita radical, mas fez parte da mesma cadeia de erosão da confiança institucional que a tornou possível”, explica o especialista.

Na mesma linha, Hely Ferreira acrescenta que a direita tradicional, representada pelo PSDB, foi uma das principais derrotadas no período que se seguiu ao processo. “As eleições que vieram depois de 1989 registraram uma disputa entre PT e PSDB. Embora tivéssemos uma pluralidade partidária, funcionava na prática como um bipartidarismo. O PSDB praticamente desapareceu e não só o PSDB, mas a chamada direita histórica tornou-se órfã depois do processo de impeachment de Dilma.”