Enquanto Piketty propõe o decrescimento, várias personalidades portuguesas escrevem artigos inflamados, clamando que tal proposta é contra a natureza, por li...
A ideia do economista francês Thomas Piketty de um decrescimento planeado, selectivo e equitativo traz de volta demónios do planeamento central, de um Estado omnipresente que controla a vida dos cidadãos, limitando o denominado impulso natural de crescer. A preocupação de muitos com esse muito humano impulso natural de crescer parece, contudo, partir de uma concepção de crescimento humano excessivamente associada à produção e ao consumo — o único tipo de crescimento a que Piketty efectivamente se refere quando propõe o decrescimento.
Não se refere à necessidade de autorrealização nem à procura de significado, geralmente associadas, pela psicologia, a esse impulso natural de crescer. Trata-se, portanto, de uma visão do impulso de crescimento muito redutora e própria do homo economicus. Mas o impulso humano de crescer não é o único impulso humano.
Outros impulsos incluem a manutenção da sobrevivência (alimentação, água, descanso, segurança), a autopreservação (evitar danos, defender-se), a reprodução (sexualidade, parentalidade), a pertença social (vinculação, cooperação), o estatuto/estima (reconhecimento, hierarquia) e a exploração/aprendizagem (curiosidade). O problema surge quando uma certa concepção de “impulso de crescer” se sobrepõe a outros impulsos humanos, como os da manutenção da sobrevivência, da reprodução ou da pertença social. Senão, vejamos.
Em primeiro lugar, o impulso humano de manutenção da sobrevivência parece estar a erodir-se a olhos vistos. De acordo com o IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), metade da população global já experiencia escassez severa de água durante parte do ano, e, segundo projecções, esse número poderá atingir cinco mil milhões em 2050. O consenso de organizações como o IPCC, a FAO (Food and Agriculture Organization) e a própria OCDE é que os sistemas de produção e de distribuição alimentar estão sob pressão, sendo expectável que a desigualdade amplifique estes impactos. Portugal não é alheio a estas dinâmicas. E, no entanto, o impulso colectivo para a sobrevivência não parece afirmar-se com a devida força.
Quanto ao impulso da reprodução, a taxa de fecundidade em Portugal situa-se em cerca de 1,5 filhos por mulher, muito abaixo do nível de substituição geracional de 2,1. Assiste-se a um adiamento significativo da maternidade, sendo a idade média da mãe ao primeiro filho de 31,6 anos. As famílias com um só filho ou monoparentais tornaram-se comuns. O número de casamentos caiu 54% entre 1970 e 2025. Este impulso profundamente humano encontra-se, assim, substancialmente suprimido — sobretudo nos países mais ricos.
Por fim, o impulso da pertença social. Em Portugal, cerca de 1,2 milhões de idosos vivem sozinhos ou apenas com outros idosos. A taxa de risco de pobreza e exclusão mantém-se em torno dos 20% da população (cerca de dois milhões de pessoas, com um milhão em risco de privação material). Por outro lado, estudos europeus mostram que, em média, 36% dos jovens afirmam estar constantemente ligados online com amigos, tendo a interacção pessoal sido, em larga medida, substituída pela digital, ao mesmo tempo que cresce a sensação de tristeza e infelicidade. O impulso da pertença transformou-se — e não para melhor.
Em conclusão, isto dos impulsos tem muito que se lhe diga. Enquanto Piketty propõe o decrescimento (da produção e do consumo), várias personalidades portuguesas escrevem artigos inflamados, clamando que tal proposta é contra a natureza, por limitar um impulso básico humano de procurar o crescimento — entendido sobretudo em termos materiais. Pouco lhes importa que, na prossecução obstinada desse crescimento, outros impulsos profundamente humanos — como os da sobrevivência, da reprodução ou da pertença — sejam completamente esmagados.
Há, para estes intelectuais, uma clara hierarquia de impulsos. Para Maslow, o impulso de crescimento surge no topo da hierarquia; já estes “génios” inverteram a pirâmide: o crescimento primeiro, e o resto virá por acréscimo. Com tais formulações, corre-se o sério risco de uma verdadeira “tragédia dos comuns” à escala planetária.
