A IA se tornou a tecnologia dominante no discurso corporativo, mas inovação continua sendo, antes de tudo, a capacidade de criar valor por meio de novos produtos, processos, experiências e modelos de negócio.

Quando comecei a vida profissional nos anos 1990, inovação era sinônimo de novo produto. Não era tema corporativo, nem disciplina de faculdade, muito menos conteúdo de festival.

Com 3 décadas na 3M, aprendi na prática como incorporar inovação aos negócios. Naqueles anos, dava para contar nos dedos as empresas que priorizavam inovação, geralmente indústrias químicas, farmacêuticas ou de TI. São as “mães da gestão da inovação”, entre elas, 3M, GE, Dupont, Dow, Bayer, Basf, Merck, Pfizer, Xerox, IBM, Kodak, HP, Bosch, Phillips e mais algumas poucas.

Essa turma formou a primeira geração da inovação, com batalhão de pesquisadores em robustos laboratórios, acionando a alavanca de desenvolvimento tecnológico para viabilizar produtos revolucionários: lâmpada incandescente, rádio valvulado, sistema de ignição automotiva, medicamentos, copiadora, computadores e muito mais.

Até os anos 1990, as premiações estavam impregnadas dessa mentalidade e apontavam como empresas mais inovadoras aquelas com capacidade de transformar P&D em novos produtos.

Pouco adiante, inovação passou a ser sinônimo de novo modelo de negócios. O ponto de inflexão surgiu com a explosão da internet que proporcionava novidade que não era ligada a produto, mas a uma arquitetura de negócios. Amazon, eBay, Salesforce, Netflix e PayPal são exemplos dessa geração posterior que jogou holofotes no business model.

Agora, vivemos um novo momento. Inovação está virando sinônimo de Inteligência artificial. O mercado passou a enxergar inovação quase exclusivamente pela lente da aplicação de IA generativa.

No Prêmio Valor de Inovação, do qual fui jurado nos últimos dois anos, quase a totalidade de projetos submetidos para avaliação dizia respeito a aplicações de IA e outras tecnologias afins para ganhos de produtividade.

No passado remoto, já existiam grandes eventos de inovação como o Great Exhibition de Londres (1851) ou a Exposition Universelle de Paris (1855 a 1900) que refletiam os avanços da engenharia, eletricidade, arquitetura e de outros campos. Hoje, os festivais como CES, SXSW e Web Summit destacam a IA como tecnologia horizontal de inovação, transformando os diversos mercados (saúde, mobilidade, finanças, energia, agro etc.).

A conclusão é que, desde quando inovação corporativa passou a ser nutrida pelas organizações, a sociedade mudou como enxerga, discute e incentiva o tema. Começamos com “vamos criar novos produtos”, passamos por “que tal criar novas maneiras de gerar valor”, vivemos fase de “conectar tecnologias e ecossistemas” e agora, estacionaremos por algum tempo no mantra “vamos gerar maior produtividade com IA”.

É bom que se diga: inovação se pratica aos montes desde os tempos pré-históricos, com Neanderthais usando pirita como isqueiro portátil e Homo Heidelbergenses fabricando machados bifaciais, entre tantas inovações que nos trouxeram até hoje.

Ouso dizer que, em algum prêmio imaginário primitivo, inovação seria sinônimo de ferramentas de pedra para caçar.

Espero que a gente evolua logo para algo mais instigante, com a IA sendo ferramenta e/ou plataforma, mas não como “a grande inovação”. Ao longo do tempo, independente do hype do momento, inovações eram plurais e aconteciam em muitas dimensões, criando produtos e serviços, transformando processos produtivos, operações logísticas, canais de marketing e experiência do usuário.

Não há dúvida de que viveremos, daqui em diante, uma inovação majoritariamente viabilizada por IA. Mas que as empresas pensem menos na IA, e mais em atraentes propostas de valor, em melhores e revolucionárias experiências, em surpreendentes desenhos organizacionais, em novos modelos de negócio, em incríveis construções de marca e engenhosos mecanismos de captura de valor, que serão mais possíveis pela capacidade gigantesca de analisar, reciclar conhecimento, testar, decidir e executar via Inteligência Artificial.

Não podemos deixar de focar o principal tema da inovação. Não é sobre produto, nem tecnologia, tampouco startup, também não é sobre ecossistema, nem IA. É sobre o Valor gerado às pessoas, ao planeta, para a Vida, gerando impactos positivos a todos.