No Brasil, startups já desenvolvem soluções de inteligência artificial para apoiar a detecção precoce do câncer de mama e ampliar a identificação de mulheres sob maior risco The post Inteligência artificial identifica câncer de mama anos antes do diagnóstico appeared first on Diário da Manhã - O Jornal do leitor Inteligente .

A inteligência artificial (IA) está ganhando espaço na análise de exames de imagem e pode ajudar a identificar sinais associados ao desenvolvimento do câncer de mama antes que a doença seja diagnosticada pelos métodos convencionais. Pesquisas recentes mostram que algoritmos conseguem reconhecer padrões muito discretos em mamografias que, embora pareçam normais aos olhos humanos, podem estar relacionados a um risco maior de câncer nos anos seguintes.

A tecnologia, porém, exige uma distinção importante. Identificar um padrão associado a um risco futuro não significa necessariamente que a inteligência artificial tenha encontrado um tumor já existente cinco anos antes do diagnóstico. Em determinadas pesquisas, o sistema reconhece características da imagem relacionadas à probabilidade de desenvolvimento posterior da doença.

Essa diferença também aparece na regulamentação de sistemas desenvolvidos especificamente para previsão de risco. A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, classificou o Allix5 como um software destinado a prever o risco futuro de câncer de mama. O sistema calcula uma estimativa para os cinco anos seguintes a partir da análise de mamografias e não tem como finalidade diagnosticar ou detectar câncer.

Estudos retrospectivos vêm mostrando que algoritmos podem encontrar informações em mamografias realizadas anos antes de um diagnóstico que posteriormente se confirmou como câncer de mama.

Em uma pesquisa envolvendo mais de 2,4 mil mulheres que posteriormente desenvolveram câncer invasivo, a inteligência artificial identificou padrões associados ao risco da doença em exames realizados entre dois e 5,5 anos antes do diagnóstico.

Outro estudo, com 1.602 mulheres, apontou que aproximadamente 23% dos cânceres diagnosticados posteriormente já recebiam a classificação máxima de risco pelo sistema quatro anos antes.

Os resultados não significam que os tumores necessariamente estavam visíveis ou plenamente desenvolvidos naquele momento. A interpretação é que os algoritmos podem encontrar características extremamente sutis relacionadas ao risco futuro, algumas delas difíceis de serem percebidas em uma avaliação convencional.

O potencial da tecnologia também foi avaliado fora dos experimentos retrospectivos. Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista científica Nature Medicine acompanhou o uso de IA em um programa real de rastreamento de câncer de mama na Alemanha.

A pesquisa envolveu 461.818 mulheres entre 50 e 69 anos que participaram do programa de rastreamento em 12 unidades alemãs entre julho de 2021 e fevereiro de 2023. Os exames eram avaliados por dois radiologistas de forma independente.

Em 260.739 exames, pelo menos um dos profissionais utilizou uma ferramenta de inteligência artificial como apoio à interpretação das imagens. O sistema classificava exames com maior confiança como normais ou suspeitos e também funcionava como uma espécie de mecanismo de segurança.

Quando a IA identificava uma alteração suspeita em uma mamografia que havia sido considerada não suspeita pelo radiologista, o sistema emitia um alerta e indicava a região da imagem que merecia uma nova avaliação.

Ao todo, 2.881 casos de câncer de mama foram identificados durante o estudo. A taxa de detecção foi de 6,7 casos para cada mil mulheres no grupo em que houve apoio da IA, contra 5,7 casos por mil no grupo submetido à avaliação convencional. Isso representou uma elevação de 17,6% na taxa de detecção e correspondeu a aproximadamente um caso adicional identificado a cada mil mulheres examinadas.

A pesquisa também mostrou que o uso da tecnologia não aumentou a taxa de convocação para exames complementares. Pelo contrário, ela foi ligeiramente menor no grupo que contou com o apoio da IA, embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa.

No modelo estudado na Alemanha, a inteligência artificial não substituiu os médicos. A tecnologia foi utilizada como ferramenta complementar à avaliação dos radiologistas.

A experiência é especialmente relevante em programas de rastreamento que lidam com um grande volume de exames. No sistema alemão, duas avaliações independentes são realizadas para cada mamografia. Quando existe suspeita de alteração, um terceiro especialista pode ser acionado para decidir pela necessidade de exames adicionais.

O volume de exames torna esse processo particularmente exigente. A possibilidade de utilizar algoritmos para destacar imagens que merecem maior atenção pode reduzir a carga sobre os profissionais e ajudar a acelerar determinadas etapas da análise.

Os pesquisadores responsáveis pelo estudo consideraram os resultados promissores justamente pelo potencial de aumentar a capacidade de detecção sem ampliar proporcionalmente a quantidade de exames chamados para investigação.

A busca por métodos capazes de antecipar a identificação da doença ocorre diante da dimensão mundial do câncer de mama. Dados da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, apontam que aproximadamente 2,3 milhões de novos casos foram registrados no mundo em 2022, enquanto cerca de 670 mil mulheres morreram em decorrência da doença.

O câncer de mama continua sendo o tipo de câncer mais diagnosticado entre as mulheres e uma das principais causas de morte por câncer nesse grupo. A ampliação da detecção precoce é considerada uma das estratégias fundamentais para melhorar os resultados do tratamento.

Nesse cenário, pesquisadores e empresas de tecnologia vêm desenvolvendo diferentes aplicações de inteligência artificial para auxiliar profissionais de saúde.