O contrato social das economias desenvolvidas assenta num compromisso: o trabalho proporciona rendimento e mobilidade social, enquanto o Estado assegura serviç...
Economista. Presidente do International Affairs Network
CopiedSiga-nosO contrato social das economias desenvolvidas assenta num compromisso: o trabalho proporciona rendimento e mobilidade social, enquanto o Estado assegura serviços públicos e proteção social, financiados em parte pelos impostos e contribuições associados à atividade económica. Mas o que acontece quando a Inteligência Artificial permite produzir mais riqueza sem exigir um aumento equivalente do emprego? Esta transformação merece algumas reflexões, das quais partilho três neste artigo.
A primeira diz respeito ao impacto no emprego. Segundo o FMI, cerca de 60% dos postos de trabalho nas economias avançadas estão expostos à IA. Contudo, ter exposição não significa provocar desemprego: no final do dia, a tecnologia poderá complementar muitas profissões, mas também irá, de facto, substituir tarefas e reduzir contratações. O Fórum Económico Mundial estima que, até 2030, a IA e o processamento de informação poderão criar 11 milhões de empregos e deslocar outros nove milhões. O saldo poderá ser positivo, mas os trabalhadores afetados não serão necessariamente aqueles que beneficiarão das novas oportunidades.
A segunda reflexão é sobre o incontornável impacto positivo da IA na economia. A OCDE estima que a Inteligência Artificial poderá acrescentar até um ponto percentual ao crescimento anual da produtividade do trabalho nas economias do G7 durante a próxima década. Para sociedades envelhecidas e com dificuldades em aumentar a produtividade, esta é uma oportunidade significativa. Mas produzir mais riqueza não garante que os ganhos sejam distribuídos de forma equilibrada. O risco é aumentar a distância entre trabalhadores que beneficiam da tecnologia e aqueles cujas competências perdem valor.
Uma última reflexão, mas não menos importante, é sobre o papel do Estado neste ciclo de profunda transição tecnológica. Um novo contrato social não pode travar a inovação – aliás dificilmente o faria neste caso – mas facilitar a adaptação e transição humana de forma a que não se percam expectativas. Quer o FMI, quer a OCDE, nos relatórios que têm produzido sobre o assunto, apontam caminhos comuns: formação contínua antes da perda do emprego, proteção temporária dos rendimentos durante a reconversão profissional e adaptação dos sistemas fiscais e contributivos à transformação do trabalho. A discussão será mais sobre como proteger o trabalho humano e as expectivas das pessoas, mas que não pode perpetuar funções e postos de trabalho que a tecnologia tornou obsoletas.
Afinal, IA até poderá criar uma economia mais produtiva e novas profissões. Mas a transição não será justa, pelo menos no imediato. O desafio em termos de políticas públicas passará por tentar antecipar os seus custos sociais, assegurando que o progresso tecnológico se traduz também em progresso coletivo.
Em Portugal, onde a produtividade continua abaixo da média da OCDE e a adoção empresarial da IA enfrenta atrasos, este debate assume particular importância. Precisamos no nosso país, de preparar simultaneamente empresas e trabalhadores: acelerar a inovação, investir na requalificação e modernizar a proteção social. O verdadeiro desafio não é evitar a transformação tecnológica, mas assegurar que ela produz melhores salários, novas oportunidades de forma a que se possa traduzir em melhor mobilidade social.




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