Getty Images Com uma deflação maior que a esperada, de -0,32%, por fatores não recorrentes, o IPCA de agosto abre espaço para que o Banco Central faça um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na reunião que termina na quarta-feira. No mesmo dia, o…
Com uma deflação maior que a esperada, de -0,32%, por fatores não recorrentes, o IPCA de agosto abre espaço para que o Banco Central faça um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na reunião que termina na quarta-feira. No mesmo dia, o Federal Reserve, o banco central dos EUA, decidirá seus próximos passos, e as expectativas majoritárias indicam que poderá elevar os juros em 0,25 ponto. A inflação ao consumidor subiu em agosto para 3,4%, recusando-se a fazer os progressos rápidos e claros em direção à meta, condições que o novo presidente do banco, Kevin Warsh, estabeleceu para não aumentar as taxas.
O BC brasileiro teve alguns sinais favoráveis desde sua última reunião para reduzir com cautela os juros. O PIB desacelerou a 0,5% no segundo trimestre, com recuo significativo do consumo das famílias e dos serviços. O IPCA de agosto acumulado em 12 meses diminuiu para 4,22%, abaixo do teto da meta, com um desenho favorável. Antes de tudo, na composição do índice pesou fortemente o bônus de Itaipu, a redução anual dos preços da energia pelo repasse de lucros da hidrelétrica, o que fez as contas de luz caírem 7,63%, com impacto baixista de 0,33 ponto percentual. Sem esse fator, o IPCA seria de 0,01%. No entanto, os preços dos cigarros subiram 19,59% no mês, sua maior alta para agosto desde 1995, devido à elevação do IPI do produto de 2,25% para 3,5%, outro elemento pontual que aumentou as despesas pessoais em 0,11 ponto percentual e que não se repetirá.
A inflação de serviços em 12 meses evoluiu 5,47%, ainda muito alta, porém a mais baixa desde janeiro de 2024. De julho para agosto, caiu de 0,54% para 0,03%. No entanto, com o baixo desemprego, aumento da massa salarial e estímulos oficiais, a demanda continua sustentando os preços, que reagem com menor rapidez às elevadas taxas de juros.
A média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central em 12 meses caiu de 4,42% em julho para 4,35% no mês passado, apontando a continuidade da lenta marcha do índice em direção à meta de 3%. A média trimestral móvel anualizada e dessazonalizada variou de 4,5% em julho para 4% em agosto, segundo a XP. Mas as medidas mensais não foram muito animadoras. Houve recuo de 0,42% para 0,4% em agosto, mas as medidas que consideram os serviços intensivos em trabalho subiram de 0,47% para 0,54%, segundo cálculos da consultoria 4intelligence. Em 12 meses, prosseguem muito elevadas e caíram pouco, de 7,29% para 7,18%.
A alimentação no domicílio apresenta deflação há três meses consecutivos. Apresentaram queda de preços no mês habitação, transportes e comunicação. A inflação subjacente dos bens industriais teve grande recuo na média móvel trimestral anualizada, de 4,7% para 2,6% (XP). Todos os fatores que empurraram a inflação para baixo, porém, poderão fazê-la subir nos próximos meses. A mediana das expectativas para o IPCA constantes no boletim Focus está em 5%.
A grande contribuição dos alimentos pode cessar com o avanço do El Niño, que já se faz presente com chuvas prolongadas no Sudeste e ciclones e temporais no Sul, já no início do calendário de plantio de grandes culturas, como soja e milho, em setembro. O El Niño costuma castigar com altas temperaturas e secas o celeiro de grãos localizado no Centro-Oeste.
Uma grande incógnita é o que vai ocorrer com os preços dos combustíveis, que estão sendo subsidiados pelo governo para evitar o repasse das altas do petróleo, que voltaram a se acentuar com a retomada das hostilidades entre EUA e Irã no Oriente Médio. Cálculos do Itaú BBA indicam que a gasolina está hoje com uma defasagem de 26% em relação à paridade de preços internacional, e o diesel, de 31%. Sem subsídios, com os preços domésticos acompanhando as cotações externas, o IPCA estaria perto de 6%.
A normalidade que pode se instalar nos preços do petróleo é a de preços elevados, de US$ 85 o barril (tipo Brent) na média do ano ou até mais, se a escalada dos últimos dias não for revertida. A Agência Internacional de Energia (AIE), em seu último comunicado, previu que o Estreito de Ormuz não estará livre para navegação em 2026, considerado um ano perdido em termos de aumento de produção e demanda de petróleo. “Com a capacidade do sistema de refino limitada, parece haver poucas opções disponíveis para evitar um aperto adicional do suprimento e preços mais altos nos próximos meses”, advertiu a AIE. Ainda que a questão dos subsídios só seja resolvida após as eleições, a manutenção de cotações altas coloca o dilema de como descomprimir os preços em um momento em que o BC alimenta a pretensão de seguir cortando os juros.
A alta dos combustíveis faz estragos nos índices ao consumidor dos EUA e pode fazer com que o Fed aumente os juros em breve, o que traria um constrangimento a mais à redução dos juros no Brasil, já pressionada pelo aumento das taxas de juros de longo prazo dos títulos do Tesouro americano.
Um plano sério, mesmo que gradual, de ajuste fiscal, poderia descomprimir os grandes prêmios embutidos nos títulos do governo de todos os prazos. Isso é o que se espera do próximo presidente, seja quem for, mas está longe de ser uma certeza.




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