Clínico geral Dr. Alfredo Salim explica por que conhecer os riscos nem sempre é suficiente para evitar o contágio
Quem acompanhou o início da epidemia de aids, nas décadas de 1980 e 1990, certamente se lembra do medo que cercava o diagnóstico de HIV. Naquela época, não existiam tratamentos capazes de controlar a infecção como os disponíveis atualmente, e receber o resultado positivo era frequentemente associado a uma sentença de morte.
Quatro décadas depois, a medicina transformou essa realidade. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, pessoas vivendo com HIV podem ter uma expectativa de vida próxima à da população geral. Além disso, quem mantém a carga viral indetectável não transmite o vírus por via sexual.
Os avanços, entretanto, trouxeram um novo desafio: como manter a percepção de risco diante de doenças que hoje podem ser tratadas ou controladas?
Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2024, a maior taxa de detecção de HIV entre os homens brasileiros ocorreu na faixa dos 25 aos 29 anos. A sífilis também preocupa. Aproximadamente 256 mil casos adquiridos foram notificados naquele ano, com taxas elevadas entre adultos jovens.
Seria simplista afirmar que os jovens deixaram de se preocupar com as infecções sexualmente transmissíveis. O comportamento sexual é influenciado por fatores culturais, emocionais e sociais, além do conhecimento sobre saúde. No entanto, a possibilidade de controlar o HIV com medicamentos e a existência de recursos preventivos altamente eficazes podem contribuir para uma percepção diferente das consequências de uma relação desprotegida.
A profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP, é um exemplo importante. Quando utilizada corretamente, oferece proteção altamente eficaz contra o HIV, mas não previne sífilis, gonorreia, clamídia ou HPV. Da mesma forma, o fato de uma infecção ter tratamento não significa que seja inofensiva. A sífilis, quando não diagnosticada e tratada, pode comprometer diferentes órgãos e sistemas, incluindo o sistema nervoso e o cardiovascular, além de provocar consequências graves durante a gestação.
Hoje, qualquer adolescente consegue encontrar rapidamente informações sobre transmissão, sintomas e prevenção das IST. Mas existe uma distância considerável entre conhecer uma recomendação médica e incorporá-la à vida cotidiana.
A sexualidade envolve desejo, confiança, vínculos afetivos e decisões que nem sempre são tomadas de maneira racional. O consumo de álcool, a dificuldade de negociar o uso do preservativo e a sensação de segurança em relacionamentos estáveis também podem influenciar o comportamento. Muitas pessoas
abandonam a proteção quando estabelecem uma relação duradoura, mesmo sem que os parceiros tenham realizado exames.
Outro problema é acreditar que a ausência de sintomas significa ausência de infecção. Clamídia, gonorreia e sífilis podem permanecer sem manifestações evidentes por determinados períodos. Uma pessoa pode sentir-se saudável e, ainda assim, transmitir uma IST. Por isso, esperar o aparecimento de feridas, corrimentos ou outros sinais para procurar atendimento não é uma estratégia segura.
A saúde sexual precisa ser compreendida como parte integrante da saúde geral. Assim como o médico investiga hábitos alimentares, atividade física, tabagismo e histórico familiar, conversar sobre sexualidade deveria fazer parte da avaliação clínica, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.
Essa abordagem permite identificar situações de vulnerabilidade, esclarecer dúvidas e recomendar medidas preventivas individualizadas. Dependendo do histórico e das práticas sexuais, podem ser indicados exames periódicos, vacinação contra hepatite B e HPV, uso de preservativos e estratégias específicas de prevenção do HIV, como PrEP e profilaxia pós-exposição (PEP).
O atendimento também precisa oferecer um ambiente de confiança, privacidade e ausência de julgamentos. Vergonha, medo de exposição e dificuldade para conversar sobre sexo ainda afastam muitos jovens dos serviços de saúde. Quando o assunto é tratado com naturalidade durante uma consulta, aumentam as oportunidades de orientação e diagnóstico precoce.
A prevenção combinada, que reúne diferentes medidas de proteção, é atualmente uma das principais estratégias de enfrentamento das IST. Muitas dessas ferramentas estão disponíveis gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). O desafio é ampliar seu conhecimento e facilitar o acesso de quem precisa.
A medicina conseguiu transformar o HIV de uma infecção frequentemente fatal em uma condição crônica controlável. Essa conquista deve ser celebrada, mas não pode levar à banalização das infecções sexualmente transmissíveis.
Não precisamos recuperar o medo que marcou as gerações anteriores. Precisamos fortalecer a consciência de que cuidar da saúde sexual é tão importante quanto controlar a pressão arterial, manter a vacinação em dia ou realizar exames preventivos. O conhecimento existe, os recursos estão disponíveis e a prevenção funciona. O passo seguinte é fazer com que esses cuidados sejam incorporados à rotina, antes que uma infecção aconteça.
*Texto escrito por Dr. Alfredo Salim Helito, membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Head nacional de Clínica Médica da Brazil Health - CRM/SP 43163 | RQE 132808 Clínica Médica




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