“Ninguém viu cultura como central para o desenvolvimento de Pernambuco”, diz Ivan Moraes - Arthur Botelho/Folha de Pernambuco “Sou o real representante, hoje, da esquerda democrática que disputa o poder em Pernambuco”, o candidato ao governo de Pernambuco Ivan Moraes (Psol) abriu, ontem, a série de sabatinas da Rádio Folha 96,7 FM, criticando a polarização na política local concentrada na atual governadora Raquel Lyra (PSD) e no ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) -que, segundo ele, representam grupos políticos que vêm se alternando no governo nos últimos anos.

Articulação

O candidato ao governo também comentou possíveis dificuldades, caso eleito, para aprovar projetos na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Casa em que atualmente o PSOL não tem representação. Para Ivan, as diferenças serão superadas com base no diálogo. Mencionou como exemplo a atuação dele na Câmara do Recife, quando aprovou projetos com apoio da prefeitura e da oposição conservadora. 

“Vereador não tem nem caneta para fazer nada. É só conversa, pedido e articulação. Desse jeito, garanti que a reforma da Conde da Boa Vista (por exemplo) tivesse acessibilidade e mantivesse o espaço de trabalho para centenas de pessoas que atuam no comércio popular”, relembrou.

No campo nacional, de acordo com Moraes, é imprescindível  reeleger o presidente Lula. “Esqueça se você estiver pensando em qualquer outra candidatura, deixe para um próximo ano. Esse ano a gente elege Lula para a gente continuar sonhando com democracia”, destacou. 

No campo da saúde, Moraes criticou a prática histórica de governantes que focam na construção e reforma de hospitais como trunfo político. “Parece que o hospital é assim, é o grande chamariz do que poderia ser uma política de saúde, mas de fato é ainda que a gente tenha necessidade de ter hospitais bons, isso não se reflete no que  é política pública de saúde como um todo. Então eu quero ser um governador que vai ter política de saúde, então não vou ter política de doença. E vou olhar pros dados”, disse. 

Segundo o candidato, Pernambuco é um dos estados do país com a menor abrangência da atenção básica. “E é na atenção básica que você cuida das pessoas para que elas não tenham que ir ao hospital”, pontuou.

Ivan também detalhou sobre uma de suas propostas - o plano estadual para cannabis medicinal. “Essa planta aqui em Pernambuco sempre foi sinônimo de estigma, de violência, de contravenção, de crime, de opressão. Enquanto é uma planta que tá dando dinheiro no mundo todo”, ponderou. 

De acordo com o postulante,  a pretensão é o estado fazer convênios com associações quilombolas, com assentamentos rurais e também com associações canábicas. “Nós vamos tirar o agricultor da égide ou do controle ou da opressão do crime organizado, que é quem controla esse mercado. Ele vai produzir para o estado. [...] Esses medicamentos vão ser disponibilizados na rede do SUS e a gente vai vender para o mundo todo. Então é o programa que gera trabalho, remédio e renda para nossa população”, explicou.

Segurança 

Questionado sobre o combate ao crime organizado, o candidato propõe combater as facções criminosas atuantes em Pernambuco focando, de acordo com ele, nos “três C’s”: os cabeças (chefes do crime), as contas (secar os cofres e rastrear lavagem de dinheiro no mercado legal) e a corrupção dentro do próprio aparelho estatal. “O estado não pode pedir licença ao crime organizado. [...] O estado precisa tomar o espaço do crime organizado”, enfatizou.

Moraes rechaçou a ideia de que a defesa dos direitos humanos enfraqueça a segurança pública ou represente a “retirada da polícia”. Ele defendeu que a desmilitarização é uma pauta nacional que protege os direitos dos próprios policiais - como a sindicalização -, mas que, a nível estadual, sua prioridade será o investimento em investigação e inteligência.

Além disso, propõe a ampliação das Delegacias da Mulher com funcionamento 24 horas para cobrir regiões atualmente desassistidas, como o Araripe. “Eu compreendo que por uma questão de otimização do recurso público, nem todas irão abrir 24 horas, mas não é possível que num território qualquer alguém esteja impedido de prestar uma denúncia em qualquer horário em que a criminalidade acontece. Criminoso não marca hora para cometer crime”, explicou. 

Moraes defende um plano integrado contra o feminicídio que se inicia nas escolas, com debates sobre gênero e consentimento desde a infância, e passa pelo fortalecimento econômico de mulheres para que consigam sair de relacionamentos tóxicos.

Uma das propostas enfatizadas pelo candidato é a reforma da política cultural do estado, hoje classificada por ele como “produtora de eventos” que concentra recursos em poucos artistas de grande porte. Moraes citou dados que apontam que Pernambuco gastou R$ 57 milhões com apenas 25 apresentações artísticas em dois anos.

Ao fazer uma avaliação histórica, Ivan afirmou que diferentes governos estaduais contribuíram em maior ou menor medida para a cultura, mas não a colocaram como eixo de desenvolvimento. “Uns ajudaram um pouquinho mais, outros ajudaram um pouquinho menos”, avaliou.

O candidato destacou a criação do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) como um avanço na política cultural pernambucana, mas criticou a falta de crescimento dos recursos destinados ao programa. “Nas últimas décadas, o Funcultura praticamente não aumenta em itens nominais. Fica ali entre 30 e 40 milhões de reais todos os anos, há mais de 10 anos. Então não é a política que tá escalando”, ressaltou.

Ivan também criticou as condições de funcionamento da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).  Para reverter esse quadro, ele propõe a criação de uma renda permanente para os chamados "brinquedos da cultura popular".

Educação

No tocante à educação, o psolista afirmou que o principal problema da educação não está exatamente na falta de recursos, mas em um conjunto de fatores que envolvem estrutura, valorização dos profissionais e qualidade do ensino.