Senador sai sob crise, e não por rearranjo ministerial. Sucessor terá de recompor diálogo com Alcolumbre, destravar pautas e evitar derrotas

A saída de Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado foi a primeira baixa de um líder do atual mandato de Lula, no Congresso, provocada por uma crise política, e não por um rearranjo ministerial.

O movimento difere, por exemplo, da saída de José Guimarães (PT-CE) da liderança do governo na Câmara, que deixou o posto para assumir a Secretaria de Relações Institucionais.

No caso de Jaques, a saída foi tratada nos bastidores como uma espécie de “demissão” política, ainda que tenha sido anunciada publicamente pelo parlamentar como uma decisão em “comum acordo”.

O risco avaliado no Planalto era que a permanência de Jaques na liderança poderia contaminar a campanha de reeleição de Lula, que começa oficialmente em agosto. O senador foi alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que apura suspeitas envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Em publicação nas redes sociais, Jaques negou irregularidades e afirmou que sua prioridade, agora, será provar a própria inocência e se dedicar à campanha de Lula, de Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo da Bahia, e de sua reeleição ao Senado.

Acabei de ter uma ótima reunião com o Presidente @LulaOficial, uma conversa entre amigos, e decidimos, em comum acordo, que me afastarei da liderança do Governo no @SenadoFederal.

Neste momento, minha prioridade absoluta é provar minha inocência e me dedicar à reeleição do…

— Jaques Wagner (@jaqueswagner) June 24, 2026

A saída também expõe uma articulação já fragilizada no Congresso. Jaques era um dos nomes mais fortes do governo no Senado, mas a relação do Planalto com a Casa acumula derrotas, como a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), por 42 votos contrários e 34 favoráveis, e reveses em votações sensíveis.

Dentro do PT, uma ala defendia a saída do senador para reduzir o desgaste eleitoral. Outra avaliava que a troca poderia soar como admissão de culpa e enfraquecer ainda mais a bancada governista.

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Jaques deixa posto em meio à relação tensionada entre governo Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre

Lula e Alcolumbre atravessam fase de tensão no Senado, marcada por derrotas do governo e pautas travadas

Ainda assim, Jaques era considerado um dos principais ativos do governo no Senado. Aliado histórico de Lula, ex-governador da Bahia, ex-ministro e parlamentar experiente, ele ocupava uma posição estratégica na interlocução do Planalto com a Casa Alta. Por isso, sua saída tem peso maior do que uma troca comum de liderança.

O episódio reforça cobranças sobre a articulação política do governo no Congresso. Desde o início do terceiro mandato de Lula, aliados e parlamentares apontam falhas de coordenação entre o Planalto, os líderes partidários e os comandos da Câmara e do Senado.

No Senado, a derrota mais simbólica foi a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF. O advogado-geral da União recebeu 34 votos favoráveis, abaixo dos 41 necessários, e teve o nome barrado pelo plenário. Foi a primeira rejeição de um indicado ao Supremo em 132 anos.

A derrota ampliou a tensão entre Lula e Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado.

A fragilidade da articulação também ficou exposta na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O governo perdeu a presidência e a relatoria do colegiado para nomes da oposição.

Após o revés, Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, fez um mea-culpa e admitiu falha na articulação, ao dizer que o “time entrou de salto alto” e subestimou os adversários.

Randolfe também enfrenta cobranças pela condução de sessões de vetos. Sob sua liderança, o governo viu o Congresso derrubar vetos importantes de Lula, inclusive trechos da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, em votações que reduziram a margem de controle do Executivo sobre o Orçamento.