Fora da política partidária desde que rompeu com o Novo, o empresário diz que quer conhecer melhor Augusto Cury e critica o "corporativismo" do Supremo diante das revelações sobre Alexandre de Moraes.

João Amoêdo não vai disputar cargo nenhum nesta eleição, mas continua sendo um dos nomes mais cortejados do campo liberal brasileiro.

Fundador e ex-presidente do Partido Novo, do qual se desfiliou em 2022, o empresário e engenheiro carioca, hoje dedicado a cuidar dos próprios investimentos, acompanha a corrida de 2026 com um diagnóstico severo: o de que o eleitor voltará às urnas em outubro movido menos pela escolha do que pela rejeição.

Em entrevista à BBC News Brasil, Amoêdo avalia que essa lógica da repulsa ajuda a explicar o fenômeno recente da campanha, o crescimento do escritor Augusto Cury, candidato do Avante que foi o primeiro da terceira via a alcançar dois dígitos nas pesquisas.

Amoêdo diz que ainda não decidiu se apoiará alguém no primeiro turno, mas admite querer conhecer melhor Cury, sinal de que um eventual apoio não está descartado.

O empresário reserva as palavras mais duras para a crise que atinge o Supremo Tribunal Federal, a partir das revelações sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro.

Para Amoêdo, o tribunal deveria ter afastado Moraes, e o silêncio da corte é sinal de um "corporativismo" que corrói a instituição.

Ele também alerta para o risco de um eventual governo de Flávio Bolsonaro, que promete anistiar o pai, e para um país que, refém dos juros altos e da baixa ambição, assiste a outras nações "deslancharem".

BBC News Brasil – O que essa crise no STF revela?

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Fim da Promoção da eleição 2026

João Amoêdo – Uma promiscuidade muito grande entre o setor público e o setor privado. E a questão do Alexandre de Moraes é impressionante. Eu não entendo o posicionamento dele de não ter se afastado lá atrás, e entendo menos ainda o enorme corporativismo do Supremo Tribunal Federal, de alguns membros, em que virou mais importante defender o colega do que defender a instituição.

Alexandre de Moraes deveria ter solicitado o seu afastamento desde o momento em que foi divulgado o contrato milionário da sua esposa com o banco Master.

É uma afronta ao Estado de Direito que o ministro use a instituição e seu cargo para pedir uma investigação contra André Mendonça, em represália à decisão do relator do caso Master de tornar público um relatório da PF com elementos que envolvem diretamente o próprio Moraes.

Suas ações só reforçam que ele precisa sair do STF imediatamente.

Mas há uma série de pessoas envolvidas, e esse jogo de interesses de não abrir, por exemplo, um processo de impeachment contra ele. Certamente há um toma lá, dá cá muito grande em todo esse processo.

Agora mesmo acabei de ler uma notícia de que o Gilmar Mendes disse que a Polícia Federal não deveria cumprir ordens que considera ilegais [nota da redação: segundo relatos na imprensa, Mendes teria defendido essa posição em uma reunião privada com Lula sobre a crise no STF].

Quer dizer, é uma interferência de um poder sobre o outro, sem nenhuma separação. E o que se vê nesse processo todo, que começou lá atrás, muito com o Bolsonaro, é um enorme enfraquecimento das instituições.

Então a gente troca as instituições pelos salvadores da pátria. Uma coisa que sempre me impressiona é que a crítica muitas vezes é feita à instituição. Isso eu combato sempre que posso, porque a gente deve criticar o Alexandre de Moraes, o Gilmar Mendes, mas não o Supremo Tribunal Federal.

Deve criticar o Alcolumbre, mas não o Senado. O Hugo Motta, o Eduardo Cunha, mas não o Congresso. A narrativa de muitos políticos, para ter um posicionamento mais forte e maior atração, tem sido criticar as instituições.

BBC News Brasil – Isso vai dar em alguma coisa, ou vai virar um processo que se arrasta?