O cantor e compositor, que lança álbum com duetos para celebrar a data, fala sobre como sua obra chega às novas gerações e diz que não aceita a tentativa de ‘censura’ que querem impor à sua música ‘Gol Anulado’, que tem letra de Aldir Blanc: ‘Isso não vai nos levar a lugar nenhum’

Foto: Felipe Rau/EstadãoEntrevista comJoão BoscoCantor, músico e compositorPara comemorar 80 anos, João Bosco prepara um álbum com 17 regravações e muitas participações especiais que levará como título uma de suas parcerias com Aldir Blanc (1946-2020), Amigos novos e antigos, de 1974. “As frases e as manhãs são espontâneas/levantam do escuro e ninguém pode evitar”, dizem os primeiros versos. “É a nossa atividade [de compositor]”, justifica Bosco. “Um disco, com esse título, celebra a amizade”, completa.

A primeira parte sai no dia 31 de julho, com seis músicas e participações como Zeca Pagodinho, no samba Siri Recheado e o Cacete, Tiago Iorc, em Perfeição, e o pianista César Camargo Mariano, em Casa de Marimbondo. Caetano Veloso, Chico Buarque e Anitta também estão convidados. O álbum completo tem lançamento previsto para 25 de setembro.

A amizade também é tema central da conversa de Bosco com o Estadão. E igualmente surge espontaneamente. É inevitável que Bosco fale sobre Aldir e se emocione. “Um gênio. Sinto falta de nossos papos”, diz. Ou de Elis Regina, sua grande intérprete: “O legado dela continua influenciando de forma magnífica o Brasil”. Chico é outro a aparecer, transparecendo uma admiração. Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Johnny Alf são apontados como “espelhos”, que refletem Bosco, mas não o revelam de forma íntima, apenas musical. “Tenho muita dificuldade para falar sobre mim”, confessa.

Vamos à música, então. Dela, Bosco não foge. Fala sobre como, mineiro de Ponte Nova (na Zona da Mata), se entregou ao samba de quadra e dos ranchos, inspiração para boa parte de sua obra. Regravados recentemente em hip hop pelo rapper FBC, os sambas Tiro de Misericórdia, Gênesis e O Ronco da Cuíca revelam como Aldir e outros parceiros de composição de Bosco sempre procuraram traduzir o Brasil e seu povo.

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Bosco segue atento a tudo. Da inteligência artificial aos exageros do identitarismo — que chegou a ele e a Aldir em forma de crítica à canção Gol Anulado, de 1976. O compositor não hesita em defender o parceiro, autor dos versos “pensei sem tirar o cinto e bati até cansar”, sobre um marido vascaíno que descobre que a mulher torce o Flamengo quando ela comemora um gol do Zico. “Eu não aceito isso. A música é uma crônica. Ela é feita dentro de um universo criativo, poético”, diz.

Por motivos de compreensão, clareza e espaço, o conteúdo da conversa abaixo foi editado e condensado.

Eu vivo a vida que me é oferecida, no caminho a que já estou habituado que é o da procura pela música. Algo fundamental é o desejo de continuar a fazer o que eu faço. Adoro ficar horas no meu violão procurando coisas, experimentando. E gosto muito do palco, sobretudo quando posso compartilhá-lo com outros músicos que admiro. Isso tudo é sinônimo de perspectiva, de ir adiante. Foi o que me trouxe aos 80 anos. Só pode ser isso.

Tem tudo isso. O violão adequa isso dentro de uma linguagem que permite certa identificação comigo. Quando eu toco o violão, as pessoas dizem: “É o Bosco”. Assim como identificam quando é o João Gilberto ou o Baden Powell. Isso é uma tradição da música brasileira. Muitos compositores brasileiros expressam sua linguagem por meio do violão.

Qualquer pessoa que tentar consegue. Consegue. Ah, consegue. Se gosta de música, toca um instrumento, basta tentar. Quando fui tocar Moacir Santos, eu sofri muito. Mas consegui. Gravei Coisas nº 2. E Moacir é complicado. Ele distribui as vozes para big band. É preciso reduzi-las para voz e violão.

Não sei. Eu me acho facílimo. Resumo no seguinte: Ou é fácil ou é impossível. Impossível é o cara que não tentou.

Eu e Aldir frequentávamos muito a Avenida Rio Branco [no Rio de Janeiro], que era onde desfilavam os blocos, como o Cordão do Bola Preta e o Bafo da Onça. Tinha, inclusive, desfile de ranchos. Tanto que fizemos O Rancho da Goiabada muito em função desses desfiles. Nos divertíamos muito. Ouvíamos esses blocos que tocavam samba de quadra. Eu sempre fui muito fascinado por grandes compositores de samba enredo, notoriamente o Silas de Oliveira, do Império Serrano. O Aldir era Salgueirense, conhecia todos os compositores de lá. Inclusive, no nosso samba Siri Recheado e o Cacete, ele fala de alguns deles. Nosso samba, então, está cheio de Cacique de Ramos, Bafo da Onça e Império Serrano.

Ouça ‘Siri Recheado e o Cacete’, com João Bosco

Nossa identificação foi muito forte, desde o primeiro encontro. Afinal, ele saiu do Rio e foi a Minas Gerais para me conhecer, em 1969, levado por um amigo. Aldir era do Estácio. Eu, mineiro, morando em uma cidade barroca [Ouro Preto]. Ele sacou que, primeiro, tinha que ir para Minas [nas letras], para perto de mim. Quando eu fui morar no Rio, entendi que, agora, eu que deveria ir para perto do Aldir.

Aldir dizia que gostava de colocar realidade e poesia no mesmo barco. A realidade brasileira era - e ainda é - de uma desigualdade social muito grande. No Brasil, grande parte da renda está concentrada em menos de 10% da população. O restante é distribuído de forma desigual. Essa é a história do Brasil. E Aldir falava sobre o Brasil. Ele amava o Brasil. Eu amo o Brasil. Mas é impossível dar uma de avestruz. Tudo o que fizemos dentro dessa realidade, falando sobre balconistas, boias-frias, de quem frequentava a geral dos estádios de futebol, de pessoas sem voz, era representativo numericamente. Isso nunca fugiu ao nosso olhar, e persiste até hoje. Isso nunca me escapou, nem com Aldir, nem com Francisco Bosco, Waly Salomão ou Antonio Cicero [demais parceiros]. Basta ver [a canção] Zona de Fronteira [de 1991], que fala de um País que, ao mesmo tempo que se levanta, cai.

Pois é. O brasileiro não pode fugir à luta. Não é isso que nosso hino fala?

Aldir era muito esperto. Minha música é muito cheia de fonemas, e ele aproveitava. Em Tiro de Misericórdia, a citação dos orixás foi algo que eu pedi a ele. Tinha uma marcação que era um mantra afro, sons de palavras ligadas ao candomblé. Aldir, então, veio com a árvore genealógica dos orixás, antes de contar a história de um menino que nasce no morro, em uma comunidade pobre e humilde. [declama a letra]. “O menino cresceu entre a ronda e a cana/Correndo nos becos que nem ratazana”.

Não engessou. Deu trabalho. Fomos acusados de sermos exageradamente intérpretes de uma violência que não existia. Ora, espera aí. De Frente Pro Crime. Isso já existia. E fomos chamados de exagerados. Olhem a história do Brasil dos anos 1970 para cá. Hoje, tem as milícias e as organizações do tráfico - e tem muita “gente boa” envolvida nisso. Fomos acusados também de excesso do ponto de vista da política. Se for isso, estamos felizes. Estamos ao lado de Chico Buarque, que fazia a mesma coisa. Ou do Gonzaguinha. Se você é um artista, um criador, você precisa olhar para o seu lugar.