O gestor fez carreira na banca internacional e foi um dos pioneiros da televisão privada em Portugal. Nesta entrevista recorda o "chumbo" que lhe ditou o rumo ...

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Mas um dia eu estava no hotel Sheraton em Buenos Aires e recebi um telefonema às 03:00 da manhã dos Montoneres a dizer que se eu não fosse embora no dia seguinte, levava um tiro na cabeça.

Licenciou-se em Direito e acabou na gestão, geriu empresas do setor financeiro um pouco por todo o mundo. Nos anos 90 regressou a Portugal, foi fundador da TVI, fez-se produtor de Vinho do Douro, escreveu em jornais e revistas e tem vindo a escrever a sua autobiografia em várias fases. Os títulos dos quatro livros já editados são autoexplicativos: "Young Johnny", "Johnny Boy", "Johnny Man" e recentemente, "Johnny Senior". Em "40 Minutos", João Vanzeller, bem-vindo.

Muito obrigado por eu estar aqui. É um grande prazer estar aqui na Rádio Observador consigo, em particular, hoje.

Muito obrigado. É João ou Johnny?

Tratam das mais diversas maneiras. No Brasil chegaram a me tratar por senhor Van.

Senhor Van? O que tem graça, não é? Porque pode ser confundido com uma van. Uma carrinha.

Muito bem. Tem uma larga experiência. Mas já agora, desculpe, Johnny é como tratam os amigos mais próximos ou não?

Sim, muitos tratam, foi uma coisa que eu nunca gostei muito, francamente. Lutei contra isso a minha vida inteira, até que finalmente tive que desistir. Johnny é nome de cão pra mim.

Não é Johnny, é Jony.

É Jony, ainda por cima.

Havia um jogador do Salgueiros, o Extinto Salgueiro, não sei se ainda está vivo, que se chamava Jony, que eu achava aquele um bado especial.

Muito bem. João Vanzeller, o último livro desta série que tem vindo a publicar nos últimos anos, dedicado à sua pessoa, chama-se "Johnny Senior: Cultura Britânica e Inglesices". Está muito presente em si a cultura britânica?

Muito presente. Eu digo aqui, logo no princípio, é uma coisa que me saiu espontaneamente, e até passei a dizer isso com alguma frequência: nasci praticamente dentro de uma pipa de vinho do Porto. Porque a minha família, família Vanzeller, é dos mais antigos, senão o mais antigo produtor de vinho do Porto desde os finais do século XVII. Eu estive rodeado da comunidade com a colônia britânica nos meus primeiros 18 anos no Porto.

Lá no Porto, sim. O que recebeu de mais importante e que serviu de ferramenta para ao longo da sua vida usar, que tenha recebido dos ingleses, dos britânicos?

Primeiro foi o idioma. Sou fluente em inglês e em português. E segundo, foi a cultura própria deles. Eu tenho algumas inglesices.

"With a drop of milk." Os ingleses dizem, com uma gota de leite. Muita coisa, a pontualidade. Sou maníaco na pontualidade. Infelizmente, durante os anos que estive em Inglaterra, deixei de ser prolixo, voltei a Portugal, tornei a ser prolixo. Os ingleses escrevem o mesmo que têm a dizer numa folha A4. Os portugueses necessitam de duas pra dizer exatamente a mesma coisa. Eu tenho uma história do amigo do meu pai, que era presidente do Leal Senado em Macau. Presidente do Leal Senado, cargo importantíssimo. Macau, como sabe, tinha um estatuto especial, como a antiga colônia tinha um estatuto especial e as relações com a China, aquela coisa toda. E um dia foi lá um ministro que lhe pediu pra traduzir o discurso pra inglês, porque ele é fluente em inglês, absolutamente fluente. Ele traduziu o discurso, que tinha duas páginas, efetivamente, ele traduziu aquilo numa página e duas linhas, qualquer uma coisa assim. E o ministro zangou-se, pensou que ele estava a censurá-lo e esteve quase pra o mandar pra rua. Imagine, o presidente do Leal Senado, que criou ali uma crise incrível, porque ele disse apenas o que o ministro dizia, mas só que à inglesa. Conciso.

Condensou. Nós somos muito palavrosos, não somos, em Portugal?

Sim, nós temos sentido de humor, eles têm muito sentido de humor, nós temos pouco sentido de humor. Os discursos normalmente são muito maçadores.

Gostamos muito de palha, não é?