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28.jun.2026 às 16h33
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José Henrique Mariante
"Não deveria ser um assunto."
Dominik Krause não está evitando o assunto, o beijo que recebeu do noivo ao ser anunciado como novo prefeito de Munique. Em entrevista à imprensa alemã, apenas ponderava se o primeiro-ministro, Friedrich Merz, seria indagado sobre o beijo que deu em sua esposa quando se tornou presidente de partido.
À frente da capital da Baviera desde 1° de maio, Krause soa como exceção em uma Alemanha que parece pronta para ser tomada de assalto pela ultradireita. Aos 35 anos, é um prefeito jovem para os padrões dos grandes centros urbanos alemães, gay e integrante dos Verdes, um partido que perdeu considerável peso na última eleição federal.
Para Munique, porém, é quase um continuísmo. Em 2024, Krause se tornou vice-prefeito, após 12 anos no Stadtrat, o conselho municipal, algo como a Câmara de Vereadores. Superou o antigo prefeito, o social-democrata Dieter Reiter, em uma campanha respeitosa, coerente com o passado recente de aliados.
Na prática, um ajuste fino na política local, reduto do SPD de Reiter desde a Segunda Guerra Mundial. Munique, diferentemente do que possam sugerir as roupas típicas e a tradição da Oktoberfest, "é uma cidade muito liberal", afirma Anna Hoben, jornalista do Süddeutsche Zeitung que acompanha a ascensão de Krause.
Ao mesmo tempo, o estado da Baviera é comandado pela CSU, os democratas-cristãos, com quem o novo prefeito promete convivência pacífica. No ano passado, chamou a atenção ao elogiar Markus Söder, o governador, por ele ter hasteado a bandeira do arco-íris na sede do governo durante o Christopher Street Day.
Na Alemanha, a data designa as paradas LGBTQIA+, e o sinal do líder conservador veio logo depois de Julia Klöckner, presidente do Bundestag, recusar o gesto no prédio do Parlamento alemão, em Berlim.
Krause de fato não parece ter problemas em elogiar adversários. Söder, por exemplo, é um crítico contumaz do Partido Verde. Em um raro sinal de distensão na política alemã atual, neste início de mandato o jovem prefeito declarou que estava disposto a "explorar compromissos não convencionais".
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Cumpriu o objetivo, montando uma coalizão heterodoxa, com três grupos parlamentares compostos por cinco partidos, união que não se vê em outros locais do país. Pelo contrário, a ascensão da AfD, o partido de ultradireita com chance de chegar ao poder em dois estados em setembro, tem dificultado o debate político alemão.
Munique soa como um outro país. "Acho que isso mostra o quanto a política está fragmentada hoje em dia. Não só na Alemanha, aliás", afirma Hoben.
A plataforma do novo prefeito reflete a opção pelo consenso, abdicando de soluções fáceis, algo que a centro-direita europeia vem emulando dos populistas em busca de votos perdidos. Promessa de campanha, Krause quer viabilizar a construção de 50 mil moradias populares, problema crônico em Munique e no país. Alugar um apartamento na cidade é uma tarefa hercúlea; comprar, quase impossível.
Corte de gastos também está no plano de governo. Munique tem uma dívida pública de € 7 bilhões (R$ 40,7 bilhões), uma das mais altas entre as grandes cidades europeias. Para especialistas, curiosamente, isso é fruto do elevado dispêndio com bem-estar social, habitação e mobilidade, não de má gestão.
A contenção, porém, não deve fazer Krause retirar seu apoio à candidatura da cidade aos Jogos Olímpicos de 2036. O país espera organizar o evento cem anos depois de Berlim, que, em 1936, teve uma edição instrumentalizada pelo regime nazista. É um pleito popular, ao menos em Munique.


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