Crise de tontura pode ser incapacitante até para atletas de alto rendimento; especialistas alertam que nem toda tontura é causada por um problema no labirinto

Compartilhar matériaUma sensação repentina de que o ambiente está girando, dificuldade para ficar em pé e perda do equilíbrio são sintomas capazes de interromper até a rotina de um atleta profissional. No último domingo (16), o zagueiro André Ramalho, do Corinthians, não pôde enfrentar o Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro após apresentar um quadro divulgado como labirintite.

Embora o nome seja conhecido e frequentemente usado para descrever episódios de tontura e vertigem, especialistas alertam que o termo pode esconder diferentes condições. Nem toda tontura tem origem no labirinto — e identificar a causa é fundamental para definir o tratamento adequado.

Em atletas de alto rendimento, o impacto pode ser ainda maior. Equilíbrio, orientação espacial, coordenação e capacidade de realizar movimentos rápidos são essenciais durante uma partida. Uma crise aguda pode tornar inseguro até mesmo caminhar ou permanecer em pé, quanto mais correr, saltar e mudar de direção em campo.

Segundo o neurologista Saulo Nader, especialista em tontura e distúrbios do equilíbrio, o termo “labirintite” é usado popularmente para descrever diferentes situações que provocam tontura, mas nem sempre o sintoma tem origem no labirinto.

“Uma crise de vertigem pode ser extremamente incapacitante. Imagine um jogador que depende de equilíbrio, visão, movimentos rápidos e mudanças bruscas de direção. Se esse sistema não está funcionando adequadamente, não existem condições seguras para uma atividade esportiva de alta performance”, explica.

A chamada crise labiríntica está relacionada a alterações no labirinto, estrutura localizada na parte interna do ouvido e que participa do controle do equilíbrio e da orientação do corpo no espaço.

O otorrinolaringologista Leonardo Soares, do Hospital São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro, explica que uma crise aguda pode impedir até mesmo um atleta de alto rendimento de exercer sua atividade.

“A crise labiríntica, popularmente conhecida como labirintite, é uma desordem de uma estrutura que fica localizada na parte mais interna do ouvido, que a gente chama de labirinto. Ele é responsável pela coordenação do nosso equilíbrio periférico, ou seja, da posição do nosso corpo e da nossa cabeça em relação ao espaço”, afirma.

Segundo o especialista, a condição pode ocorrer em diferentes faixas etárias e não está restrita a pessoas mais velhas.

“A labirintite, a labirintopatia, não escolhe faixa etária. Ela pode acontecer desde o indivíduo mais jovem, como um atleta, até indivíduos mais idosos”, diz.

“Tontura” é um sintoma, e não um diagnóstico. Ela pode ter diversas causas, que precisam ser investigadas para que seja definido o tratamento adequado.

“As pessoas costumam chamar qualquer tontura de labirintite, mas existem inúmeras causas para esse sintoma. O diagnóstico correto é fundamental porque o tratamento depende da origem do problema”, explica Nader.

Entre as possibilidades estão a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), provocada pelo deslocamento de pequenos cristais presentes no ouvido interno, a enxaqueca vestibular, alterações da pressão arterial e problemas neurológicos, incluindo o acidente vascular cerebral (AVC).

Por isso, segundo Nader, não é recomendável simplesmente recorrer a medicamentos para “labirintite” sem saber a causa da tontura.

“Não existe isso de tomar remedinho para ‘labirintite’ e pronto. Isso é um perigo, pois mascara a tontura sem realmente tratá-la. O que precisa é o tratamento específico para a causa da tontura que a pessoa está tendo, para parar de ter e não voltar a ter no futuro”, afirma.

Uma crise pode começar de forma repentina, mesmo em uma pessoa que estava aparentemente bem. Entre os sintomas estão:

De acordo com Leonardo Soares, sintomas auditivos podem aparecer em alguns casos, mas não são obrigatórios para que exista uma alteração relacionada ao sistema vestibular.

“Elas podem estar relacionadas a problemas auditivos também, como zumbido, sensação de ouvido tapado e perda auditiva, mas, em geral, esses sintomas não precisam estar presentes para a gente fechar um quadro de crise labiríntica”, explica.

O neurologista Saulo Nader afirma ainda que episódios de tontura são relativamente frequentes na população. Segundo ele, cerca de 30% das pessoas podem apresentar algum tipo de tontura ao longo da vida.

O equilíbrio depende da integração de informações provenientes do ouvido interno, da visão e de outras estruturas responsáveis pela percepção da posição do corpo.