Seis meses depois de aprovada pelo Congresso Nacional, foi sancionada semana passada pelo presidente da República a lei que, segundo a imprensa, proíbe o foie gras (produção e comercialização) no Brasil. Mas atenção: a lei 15.475, de 23 de julho último
Seis meses depois de aprovada pelo Congresso Nacional, foi sancionada semana passada pelo presidente da República a lei que, segundo a imprensa, proíbe o foie gras (produção e comercialização) no Brasil. Mas atenção: a lei 15.475, de 23 de julho último, tem uma contradição, ou no mínimo uma brecha a ser considerada.
Vamos lá. Ela proíbe "a produção e a comercialização de qualquer produto alimentício obtido por meio de método de alimentação forçada de animais". Isto está claro. Mas em seguida exemplifica: a lei "inclui, mas não se limita, à produção e à comercialização de foie gras, o fígado gordo de pato ou ganso, in natura ou enlatado".
Aí está a contradição. Pois quem disse que todo fígado gordo de pato ou ganso tem que ser resultado de alimentação forçada? Pois saiba que nem todo foie gras é assim. E que portanto, uma lei que proíbe alimentação forçada, não se aplica necessariamente a qualquer foie gras, como o texto da lei dá a entender.
Vamos por partes. Conter a crueldade contra os animais é uma iniciativa bem-vinda. Embora o Congresso devesse não somente focar em poucos milhares de patos e gansos, mas principalmente nas cem milhões (!!) de galinhas poedeiras que ainda são mantidas, no Brasil, em gaiolas cruéis sem poder se mexer. (Até existem projetos de lei se arrastando em Brasília, para serem aplicados quem sabe em 2030 — caso algum dia sejam aprovados: pois aí já mexem não com pequenos produtores de pato, mas com poderosos donos de gigantescas granjas...)
Mas voltando a patos e gansos: o processo tradicional de produção de foie gras inclui, sim, o gavage (termo francês), que é a introdução de alimento nas aves mesmo que já estejam saciadas. O milho é enfiado à força, com funis, garganta abaixo dos animais para produzir o crescimento do fígado.
Anos atrás, porém, conheci alguns enormes gansos que cevavam seus fígados de bom grado, sozinhos. Foi no restaurante-fazenda Blue Hill at Stone Barns, perto de Nova York.
Enquanto passeávamos pela criação, e pelas hortas orgânicas, o chef Dan Barber explicou que patos e gansos tendem naturalmente a comer além do normal, por instinto, na época das migrações. Assim, no outono, os gansos aumentam voluntariamente a ingestão de alimentos energéticos (grãos, sementes, frutas) para acumular reservas de gordura no fígado e músculos.
O trabalho de Barber, então, nesta época do ano, era servir (não enfiar goela abaixo) os grãos e alimentos que ajudem a engordar o fígado.
Barber era entusiasta do trabalho realizado há décadas na Espanha por um produtor, Eduardo Sousa, que cria seus gansos cevados com alimentos naturais e orgânicos, da sua própria fazenda na região da Extremadura. Como os animais ficam glutões, basta fornecer-lhes a comida certa, boa e na quantidade exagerada, que os animais comem.
Na França e outros países da Europa (também Estados Unidos e Canadá) há produtores que há muito buscam alternativas à alimentação forçada para obter o foie gras, inclusive selecionando alimentos probióticos que ajudem a engordar o fígado. Mas não conheço ninguém no Brasil que já venda estes produtos (que são bem caros — mas até aí, aquele outro, feito com crueldade, barato é que não é).
Seria ótimo se alguém se aventurasse a trazer para o nosso mercado. Só não sei como ficará agora, que a lei erradamente menciona o foie gras em geral como exemplo da crueldade animal, sem atentar para o fato de que ele também pode ser obtido sem crueldade. Mais uma lei mal feita, provavelmente escrita sem conhecimento de causa... e fadada a terminar nos tribunais.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário