Voo vindo da Louisiana levou 20 deportados ao país, sob um acordo que pode resultar na transferência de até 1.200 pessoas

Compartilhar matériaA Libéria é um depósito de descartes dos Estados Unidos — ou um lugar onde uma nova geração de recém-chegados pode construir uma vida nova?

Essa é a pergunta que os liberianos fazem a si mesmos após a chegada à capital, Monróvia, das primeiras pessoas deportadas dos Estados Unidos para o país da África Ocidental.

As 20 pessoas que vieram no voo da Louisiana foram as primeiras a ser enviadas sob um acordo que pode resultar na transferência de até 1.200 pessoas para a Libéria, um país com menos de 6 milhões de habitantes, muitos deles descendentes de negros americanos que foram escravizados.

Autoridades de Monróvia informaram que os recém-chegados eram provenientes de "países da África e do hemisfério ocidental".

A Libéria é um dos vários países que concordaram em receber migrantes deportados por Washington no âmbito da política de repressão à imigração do governo Trump. Essas pessoas chegam a uma nação cuja história está profundamente ligada à migração vinda dos EUA.

Há quase dois séculos, negros americanos livres e ex-escravizados atravessaram o Atlântico para se estabelecer no que viria a ser a Libéria — nome que significa "terra dos livres".

Agora, um país moldado em parte por essa migração está acolhendo pessoas que os EUA querem remover.

Para os liberianos, isso despertou sentimentos contraditórios em um país que ainda se recupera de uma longa e sangrenta guerra civil.

"Este país está passando por muita coisa e, com a chegada de mais gente... será que damos conta de tudo isso?", disse Pheta Morris, de 48 anos, descendente dos negros americanos que se estabeleceram na Libéria.

No entanto, ela afirma ver os recém-chegados sob a ótica da história da Libéria e se impressiona com o contraste.

"Penso nos americo-liberianos — pessoas que foram rejeitadas onde estavam e precisavam de um lugar para ir, e a Libéria lhes abriu os braços", disse ela.

"Naquela época, as pessoas precisavam de um lugar onde pudessem ser livres, aceitas e acolhidas. Agora, pessoas estão sendo rejeitadas pelos EUA, e a Libéria está abrindo suas portas para elas."

A primeira transferência já enfrentou complicações.

A Reuters noticiou que cinco migrantes, que se recusaram a desembarcar após chegarem a Monróvia, foram levados de avião para a Guiné Equatorial, na África Central; lá, eles estão detidos juntamente com mais de 30 outros migrantes enviados anteriormente para o país por Washington. Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA afirmou que a implementação das políticas de imigração do governo Trump era uma "prioridade máxima", acrescentando que o departamento, em geral, não comenta comunicações diplomáticas privadas com outros governos.

A CNN entrou em contato com o Ministério da Informação da Libéria para obter mais detalhes sobre o acordo e seus termos.

O primeiro grupo de afro-americanos livres chegou à Libéria no início da década de 1820.

Nas décadas seguintes, milhares de outros fizeram a viagem, com a Sociedade Americana de Colonização ajudando a estabelecer assentamentos ao longo da costa da África Ocidental. O Departamento de Estado dos EUA estima que cerca de 16 mil afro-americanos migraram para o país durante o século XIX.

A migração foi um processo complexo. Alguns afro-americanos viam a Libéria como uma oportunidade de escapar do racismo e construir uma nova vida, enquanto outros se opunham ao movimento de colonização e rejeitavam a ideia de que negros livres deveriam deixar os Estados Unidos.

Africanos resgatados de navios negreiros pela Marinha americana também foram levados para o território na África. Os assentamentos acabaram formando a República da Libéria, que declarou independência em 1847.

A influência americana permanece visível até hoje. A bandeira da Libéria lembra a dos EUA; sua capital foi batizada de Monróvia em homenagem ao quinto presidente americano, James Monroe; e suas primeiras instituições foram fortemente influenciadas por Washington.