É difícil dizer o que é mais execrável: o linchamento de um estudante dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da UFRJ, ou as manifestações tíbias de condenação e, pior, de apoio aos linchadores vindas da comunidade acadêmica, em especial dos professores da própria UFRJ. Aluno do último período de História, Diego Araújo foi atacado numa sala de aula há duas semanas, enxotado a socos e pontapés, espancado na escadaria e levado à rua, onde u
É difícil dizer o que é mais execrável: o linchamento de um estudante dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da UFRJ, ou as manifestações tíbias de condenação e, pior, de apoio aos linchadores vindas da comunidade acadêmica, em especial dos professores da própria UFRJ. Aluno do último período de História, Diego Araújo foi atacado numa sala de aula há duas semanas, enxotado a socos e pontapés, espancado na escadaria e levado à rua, onde uma pequena turba continuava a tentar surrá-lo, sob o pretexto de que fazia apologia ao nazismo. Vídeos comprovam o linchamento.
Editorial: Pluralismo é crítico para as universidades
Diego trajava uma camiseta da banda punk Death in June, que ele afirma ironizar símbolos nazistas — na estampa, uma caveira da SS é estilizada como caveira de neandertal. A Death In June já foi associada a manifestações da extrema direita europeia e proibida de se apresentar na Alemanha, mas, segundo Diego, também já fez shows em Israel. Ao mesmo tempo, ele portava um broche com um sinal de proibido sobre uma suástica, que demonstrava não ser nazista. “Sou um estudante do tema nazismo, seja no Brasil, seja na Europa. Meu interesse é puramente acadêmico”, disse em entrevista a Pedro Doria, do Canal Meio e colunista do GLOBO.
Pablo Ortellado: Estudante da UFRJ sofre linchamento físico e moral
Ainda que Diego tivesse violado as leis que vedam símbolos nazistas no Brasil — e isso está longe de estabelecido —, nada justifica seu linchamento. Por isso causa indignação o manifesto assinado por mais de 200 professores universitários “em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista”, apoiando a violência como “reação de autodefesa” desses estudantes e criticando quem caracteriza “como ato de linchamento” aquilo que as imagens demonstram ser exatamente isso.
Também são ignóbeis as notas ambíguas de instituições acadêmicas sobre o episódio. A do IFCS repudia o ataque, mas sem a ênfase necessária. “Não distingue a violência física sofrida pelo estudante da manifestação tida como nazista”, escreveu o colunista do GLOBO Pablo Ortellado. Quem lê vê condenação à vítima, não aos linchadores. A reitoria da UFRJ seguiu a mesma linha. Sindicatos e associações estudantis se solidarizaram com os agressores. Ortellado descobriu centenas de posts nas redes sociais celebrando o linchamento, curtidos por estudantes e professores. Um grupo de defesa de direitos humanos teve o desplante de afirmar que “a violência do oprimido não é a violência do opressor”, como se fosse Diego — a vítima de linchamento — que oprimisse alguém.
Não pode haver dúvida alguma sobre quem foi a vítima da agressão e quem está próximo do autoritarismo e do fascismo nessa história. A reação do meio acadêmico dá uma triste medida de como os departamentos de humanidades das universidades brasileiras estão contaminados pelo extremismo de esquerda. Não pode haver julgamento sumário num Estado Democrático de Direito, ainda mais num espaço onde o respeito à diversidade de opiniões deveria ser inegociável. A violação às normas mais básicas da civilidade não pode ser tolerada em universidades, onde deveriam prevalecer valores humanistas e a convivência com as diferenças.
Os linchadores de Diego devem ser investigados, julgados e punidos nos termos mais duros que a lei permitir. Aqueles que trataram de defendê-los envergonham a universidade brasileira e mancham suas credenciais democráticas.




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