Há uma cena, aparentemente não ensaiada ou combinada, que elucida todo o espetáculo Língua, que encerrou temporada no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, no último domingo (28/6). Lá pelo meio do espetáculo, dois atores rompem a quarta parede e confirmam se …

Há uma cena, aparentemente não ensaiada ou combinada, que elucida todo o espetáculo Língua, que encerrou temporada no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, no último domingo (28/6). Lá pelo meio do espetáculo, dois atores rompem a quarta parede e confirmam se há na plateia algum intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Uma mulher, no dia em que FAROFAFÁ viu a peça, começa a traduzir com uma riqueza de detalhes falas complexas entre os dois que estão no palco. Rompe-se ali uma quinta parede, a da ignorância.

Tudo se passa numa festa de aniversário, cenário escolhido pela dramaturgia assinada por Vinícius Arneiro e Pedro Emanuel. A escolha por um momento mundano nessa celebração doméstica que reúne um pequeno grupo de amigos é simbólica. Bebidas, afetos, a conversa jogada fora que se interrompe e recomeça. Mas é exatamente nesse ordinário que Língua instala o seu extraordinário. O álcool afrouxa as línguas, nos sentidos literal e figurado, e o que parecia uma confraternização vai revelando camadas que nenhum brinde mais conseguirá encobrir.

A mãe (Erika Rettl), e aqui o espetáculo revela outra de suas camadas incômodas, ama o filho com uma intensidade que parece sufocar. O capacitismo que ela pratica não é o da crueldade, mas o da proteção excessiva, o do amor que não confia. A escolha de Arneiro de não usar intérprete de Libras em cena se revela como uma decisão política. O espetáculo, calcada no gestual tão próprio do teatro, é encenado em duas línguas simultaneamente, garantindo que espectadores surdos e ouvintes ocupem o mesmo patamar de atenção e envolvimento emocional. Nem todos estão compreendendo inteiramente o desenrolar das falas.

A trilha sonora, com direção musical de Felipe Storino, aposta em frequências graves, pensadas a partir da experiência vibracional da música para pessoas surdas. Essa escolha amplifica o alcance sensorial da peça, tornando audível para todos, em diferentes gradações.Vencedora do Prêmio Shell de dramaturgia na edição carioca de 2025, Língua chegou ao Teatro Anchieta depois de temporada no Rio e de apresentações na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). É o tipo de peça que precisa circular por mais temporadas.

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