A jornalista Fabiane Pereira conta como o disco marcou sua juventude e uma geração da música brasileira antes das redes sociais e algoritmos

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Existem músicas e momentos que não bastam ser ouvidos. Algumas obras pedem contexto e memória para que o público consiga compreender tudo aquilo que o artista quis construir, principalmente quando se trata de um álbum que atravessou gerações.

É a partir dessa ideia que nasce Céu: Céu, livro escrito pela jornalista Fabiane Pereira como parte da coleção O Livro do Disco.

A obra revisita o primeiro álbum da cantora e compositora brasileira, lançado em 2005, e recupera não apenas os bastidores daquela estreia, mas também o contexto cultural, musical e social que cercava o Brasil no início dos anos 2000.

Ao longo das páginas, as memórias de Fabiane se cruzam com as falas de Céu e ajudam a reconstruir uma época em que ouvir música, descobrir artistas e consumir cultura acontecia em outro ritmo, antes da pressa das redes sociais e da curadoria dos algoritmos.

Em entrevista à CLAUDIA, Fabiane Pereira fala sobre o que a fez revisitar esse trabalho duas décadas depois e conta o que espera que os leitores encontrem ao mergulhar nessa história. Confira:

De onde surgiu a vontade de transformar a história do primeiro álbum da Céu em um livro? E por que revisitá-lo justamente 20 anos depois?

Fabiane Pereira: Esse disco é um disco da minha juventude, dos meus 20 e poucos anos. E, curiosamente, também é um disco que marca o início da minha vida como jornalista.

Então, acho que resolvi escrever sobre esse disco porque ele também conta a minha história. Fala sobre a minha juventude. E também marca uma indústria da música muito diferente daquela que existe hoje.

Há uma São Paulo naquele disco que não existe mais. Existe um tempo de feitura das coisas que também não existe mais. Antigamente, você tinha tempo para ouvir as coisas. Tinha tempo para lançar um livro e deixar aquele livro ter uma cauda longa. Conseguia ler com calma. A gente tinha calma na vida. E só entende que tinha essa calma agora que não tem mais.

Em que momento você percebeu que a trajetória desse álbum ultrapassava a história individual da Céu e ajudava a contar também um período da música brasileira?

Fabiane Pereira: Acho que o momento crucial foi quando soube que a Céu faria uma turnê comemorativa dos 20 anos do disco. Caiu uma ficha, quase uma bigorna na minha cabeça: “Meu Deus, passaram 20 anos”.

Eu entrevistei a Céu naquela época do primeiro disco. Depois dela, entrevistei muitos artistas, muitas mulheres, muitas doutoras, e fui entendendo que ela tinha sido um marco. O distanciamento do tempo faz a gente perceber coisas que não conseguia enxergar no momento. Ao longo desses anos, fui compreendendo a importância daquele disco.

O que o livro revela sobre a Céu daquele período que talvez não seja possível perceber apenas ouvindo o álbum?

Fabiane Pereira: Acho que revela justamente uma das maiores qualidades da Céu nesse disco: ela seguiu a própria intuição. Ela não tinha em quem se espelhar. Tudo ainda era muito novo. Existia uma nova geração da música brasileira, mas ainda nem se falava em “nova MPB”.

O mercado não estava interessado em artistas independentes. Estava interessado em artistas que davam lucro, porque as gravadoras estavam em declínio. O CD ainda circulava, mas a internet já começava a mudar a maneira como os arquivos digitais eram compartilhados. Foi um momento muito específico.

Quem ler o livro vai entender essas especificidades, mas principalmente encontrar uma artista muito intuitiva.

Na sua visão, o que fez esse álbum envelhecer tão bem e continuar dialogando com novos públicos 20 anos depois?

Fabiane Pereira: Existem discos que não são datados, são trabalhos que poderiam ter sido feitos hoje ou décadas atrás.

Acho que acontece isso com o disco da Céu. Apesar de dizer muito sobre aquele período, ele poderia ter sido feito hoje. Poderia ter sido feito há cinco, dez, 15 ou 20 anos. Ele não carrega essa sensação de estar preso a uma data.