Pode um embaixador jubilado criticar publicamente as posições do país na política externa? Luís de Almeida Sampaio faz o balanço de 40 anos de carreira diplomática, numa vida plena depois do serviço.
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A qualidade fundamental de um diplomata, aquilo que é a condição primordial de um diplomata, é ter bom senso. Bom senso é absolutamente indispensável. E depois é preciso seguir sempre uma regra fundamental, que é ter a coragem de dizer às autoridades do país onde se está acreditado, sempre a verdade, sem nunca ofender as autoridades do país onde está acreditado. E simultaneamente, ter a coragem de dizer sempre a verdade às autoridades do seu próprio país, mesmo correndo o risco de as ofender.
Após ter vindo há quatro anos, quando nos veio falar do seu livro de memórias enquanto embaixador de Berlim, em Berlim, na altura da Troika, em 40 anos de carreira diplomática, o portuense Luís de Almeida Sampaio, esteve colocado ao serviço de Portugal como embaixador na NATO, na Argélia, na Sérvia, na Alemanha, na República Checa, vem hoje falar do que é a vida de um diplomata depois de quatro décadas dedicado ao país. E também que futuro para país, para Portugal, para esta Europa, para a NATO, para tanta coisa que está acontecendo no mundo neste momento e que ele tem este olhar tão cultivado e tão estudado ao longo de todas estas décadas. Desde já, senhor embaixador, muito bem-vindo por ter voltado, porque de fato te vemos cá, como eu disse, há quatro anos. Foi em outubro de 2022, a propósito deste seu livro de memórias. O que é que faz à vida depois de um embaixador se retirar 40 anos depois de vida diplomática, que vida é esta? Como é que é ser comentador, por exemplo, e não ser ativo na vida internacional e um destes peões na vida diplomática?
Muito bem, muito obrigado. Em primeiro lugar, é um grande gosto estar aqui de volta à Rádio Observador. E de fato já passaram quatro anos, é impressionante como o tempo voa. Se há vida depois de mais de 40 anos da carreira diplomática? Há, claro que há vida, e já lá vamos, e uma vida muito interessante. Independentemente disso, a carreira diplomática é também uma vida fascinante. É uma vida um pouco incomum, sobretudo porque é uma vida nômade. E o facto de ser uma vida nômade tem implicações as mais variadas do ponto de vista humano, também do ponto de vista profissional. Do ponto de vista humano, uma vida nômade não é exatamente igual a uma vida sedentária, em que uma pessoa nasce, estuda, casa, tem filhos, porventura netos, na mesma cidade, na mesma localidade. E, portanto, ao longo de mais de 40 anos de vida de nômade, ter regressado a Portugal sabe bem, com alguma nostalgia, porque a carreira diplomática é efetivamente uma das carreiras que permite ter permanentemente a consciência de que se está a fazer serviço público ao serviço do país, ao serviço da imagem do país, da imagem e da projeção internacional de Portugal. Independentemente da embaixada onde se esteja ou do estatuto que se tenha no quadro da carreira diplomática, um diplomata português está sempre ao serviço da pátria e tem, obviamente, sempre sobre ele este sentimento de responsabilidade inerente à função da carreira diplomática, que é representar o melhor que souber, o melhor que as suas capacidades revelarem e permitirem o interesse de Portugal. Eu servi em muitos países, em muitos continentes e tenho algumas experiências que guardo comigo de uma forma, porventura, mais acarinhada do que outras, e que são, no fundo, porventura também aquelas que a maioria dos diplomatas reservariam para si. O primeiro posto, no meu caso, foi a delegação portuguesa junto da NATO, no longínquo ano de 1987. E eu nunca resisto a contar que a primeira cimeira da NATO onde eu estive dentro da sala, ainda jovem diplomata e, portanto, sentado muito atrás, encostado à parede, invisível, a tomar notas. Mas essa cimeira da NATO, em 1988, em Bruxelas, tinha à volta da mesa Apenas Ronald Reagan, Margaret Thatcher, François Mitterrand, curiosamente sentado ao lado de Jacques Chirac, porque um era o presidente e o outro o primeiro-ministro. Como era coabitação, a França pediu excepcionalmente que tivesse dois lugares à mesa. Estava também Helmut Kohl, estava Giulio Andreotti, estava Brian Mulroney, primeiro-ministro do Canadá. Eu me lembro bem, tenho uma viva imagem dessa cimeira da NATO de 1988 e comparo, por vezes, com reuniões a que eu assisti muito mais tarde, 40 anos mais tarde, cimeiras da NATO e cimeiras de outra natureza e a plêtoira de líderes à volta da mesa.
Genscher, a Merkel, que cruzou.
Claro que sim. Mas independentemente disso, eu diria que essas grandes personalidades dessa primeira cimeira a que eu tive o privilégio de assistir-
...porventura, não têm paralelo hoje em dia.
Independentemente dessa experiência do meu primeiro posto na NATO, guardo com especial carinho a minha passagem por Luanda. Luanda diz-nos muito. Eu era o número dois da Embaixada de Portugal durante os três anos e meio que passamos em Luanda. E foi extraordinário, porque fomos em família pra Luanda. As nossas filhas ainda eram pequenas e aprendemos a dar valor a coisas que porventura aqui não daríamos. Abrir uma torneira e sair água.
Ter luz durante 24 horas por dia. Isso são coisas que nós não damos-
Andar pela rua de forma livre, sem insegurança nenhuma.
Andar sem qualquer problema. Na altura, ainda estávamos em plena guerra civil. Nós chegamos em 1999. Savimbi foi morto em fevereiro de 2002, portanto, vivemos ainda os últimos anos da guerra civil e a assinatura dos documentos finais do acordo de paz, do Protocolo de Lusaka, que permitiu que Angola entrasse em normalização. Depois, o meu primeiro posto como embaixador, como chefe de missão em Argel. Muito interessante, um país árabe, muçulmano, do Magrebe, com uma relação muito especial com Portugal por causa do gás natural.
Também uma relação economicamente muito interessante, porque durante o período em que estive em Argel, coincidiu com a abertura do mercado argelino à maioria das empresas portuguesas, designadamente de construção civil. Foi um período muito interessante, não só por causa do gás, mas também por causa da presença de empresas portuguesas.
Foram fazer autoestradas e metropolitano e uma série de infraestruturas.
E a minha presença em Argel coincidiu com a presidência portuguesa da União Europeia, do Conselho da União Europeia, na altura em 2007.
Mais esse peso, é importante.
E eu fui designado como enviado da presidência portuguesa para o processo de paz do Médio Oriente e, portanto, durante o período da presidência, uns meses antes e durante o período da presidência, estive sobretudo baseado em Beirute. Nós tínhamos um excelente cônsul honorário, tínhamos uma ótima rede de cônsules honorários ali naquela região. Estive em Beirute, estive em Damasco, estive obviamente em Israel, no Egito, na Jordânia, mas aquilo que eu queria transmitir, para se ver como o mundo mudou, em 2007, e parece que foi há pouco tempo, 2007.
Eu viajava à noite de Beirute pra Damasco, de automóvel, sem qualquer problema de segurança, sem qualquer proteção. E em Damasco, em 2007, passeava à noite depois de jantar e vinha do túmulo de São João Batista a caminho do hotel a pé, sem qualquer problema.
Eu tive a sorte de conhecer Damasco também nessa altura. Perfeitamente um povo do mais simpático que há, muito tolerante, a dizer-me: "Ah, és cristão? Conhece a prisão onde esteve o São Paulo e vem ver a prisão". E eu ia atrás deles, quer dizer, naquelas igrejas, tudo com missas às vezes a decorrer. É extraordinário. E eles diziam: "Vocês aprendem um bocadinho que nós somos uns terroristas, todos". Sim, de fato, o Ocidente tem uma ideia errada. Os sírios eram muito simpáticos.
Sem dúvida, mas é muito interessante.
Como os iranianos, que eu também conheci. De fato, um povo extraordinário, como os jordanos e como os egípci




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