Primeiro um tanque. Depois uma piscina. Em seguida apareceu um camião e perderam-se bidons. Agora Luís Neves interpela o líder da oposição. Quem pára este ministro em rota de colisão com a realidade?

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Primeiro um tanque, depois uma piscina, em seguida apareceu um caminhão e perderam-se os bidões. Falo de Luís Neves, que agora interpela o líder da oposição e esgrime argumentos contra uma cabala. Bom dia, Helena Matos. Bem-vinda.

Quem é que para este ministro que parece estar em rota de colisão com a realidade?

Essa eu penso que é a grande pergunta. Aquilo que nós vimos ontem naquela conferência, não foi uma conferência de imprensa, foram declarações feitas numa ocasião em que a PSP celebrava uma data redonda, o que dava ainda um cenário mais institucional àquelas declarações, que não tinham nada de institucional, do ministro. Mas essa pergunta de quem é que para. E aquilo que sobressaiu ontem foi um homem que parece estar por conta própria. Ou seja, a pergunta ao ouvir aquelas declarações de Luís Neves era: onde é que está Luís Montenegro? Onde é que está António José Seguro? Nós tínhamos ali um ministro dirigindo-se, interpelando, quase que marcando um duelo para a semana que vem no Parlamento com o líder da oposição, André Ventura. Havia uma falta absoluta de institucionalidade. A pergunta era: o que é que Luís Montenegro está a pensar disto? O que é que António José Seguro acha disto? Tudo isto terá começado no dia 14 de julho, com a questão da piscina, que depois era um tanque, no monte de Luís Neves em Odemira. A partir daí, nós temos tido uma sucessão, quase que uma espiral de incidentes, casos de maior ou menor dimensão, sem que nenhum deles tenha uma gravidade per se enorme. Eu sei que neste momento estão a decorrer várias investigações e de diferente natureza, da PJ, outra ordenada dentro do âmbito do Ministério da Justiça. Temos também a conflitualidade com o Tribunal de Contas, mas se nós tentarmos pegar em algumas destas coisas, e está aqui algo que faz com que este homem não possa ser ministro, não encontraremos propriamente nada. É como nos desastres de avião, a soma de vários pequenos erros dá um erro tremendo. E depois temos o próprio Luís Neves. Nós temos visto, desde que começou a questão, em meados de julho, da casa, do monte, da piscina, que era um tanque, depois voltou a ser piscina, e depois tivemos a questão a seguir ao monte. Vem a questão do atrelado, depois por que o atrelado foi para Barcelos, quem autorizou que fosse para Barcelos, o que fazia aquele empreiteiro, que por sinal tinha o atrelado no seu estaleiro, mas por sua vez também fazia obras na casa de Luís Neves e na casa do diretor financeiro da PJ. Depois tivemos quem é que autorizou, quem é que não autorizou. Depois tivemos aquela conferência de imprensa de Luís Neves já no final de julho para esclarecer tudo. As coisas ficaram mais ou menos e depois começamos com a questão das declarações de rendimentos que não apresentava, que devia ter apresentado e que achava que não devia apresentar. Depois, a propósito da conflitualidade com o Tribunal de Contas, começamos a entrar num outro universo, que era a forma como é administrada no seu quotidiano a própria Polícia Judiciária. Aí passamos da palavra monte, piscina, para a palavra informalidade e portanto, havia ali todo um conjunto de informalidades. E com um caso mais ou menos emblemático, que foi o daquela ida ao Brasil de vários agentes da Polícia Judiciária, cujas viagens foram pagas de uma forma que o Tribunal de Contas não considerou adequada, com Luís Neves a dizer que se cumprisse aquilo que está previsto, a viagem desses agentes à PJ não poderia ter sido feita com a discrição que o caso implicava, porque é óbvio que eles tiveram de ir ao Brasil por causa de um consulado português que estaria infiltrado por membros de um grupo de crime organizado brasileiro. Tivemos esta fase da informalidade, tivemos a fase do tanque/piscina, depois a fase do atrelado, depois a fase da informalidade e agora entramos na fase do arresto, os bens arrestados. Aliás, o Observador até tem hoje um artigo sobre essa matéria, quem é que pode e como é que se podem usar os bens arrestados pela PJ. E no fim disto tudo, que já é muito, e algumas coisas me foram escapando pelo caminho. Também temos a questão dos automóveis, que eram um, depois passaram a ser dois automóveis. Quando Luís Neves acabou aquela conferência de imprensa em julho, ele ficou como o polícia e o homem do For Focus, com 15 anos, e depois vimos que havia afinal outro carro e que, na verdade, Luís Neves andava num carro arrestado a um traficante de droga. E portanto, no fim de tudo isto, o que sobra e o que temos é a imagem daquele homem que, sendo ministro da Administração Interna, fala como se estivesse à frente do governo, interpela o líder da oposição e há uma manifesta desadequação psicoemocional ao cargo. Portanto, eu terei dificuldade em arranjar uma outra explicação. Vários atos do seu longo mandato como diretor da PJ podem estar sob escrutínio, a forma como geriu aquela polícia. Nós falamos muito pouco do que ele tem feito como ministro da Administração Interna, ou quase nada. De facto, ele ontem elencou tudo isso, mas eu resumiria isto como Luís Neves, o polícia que gosta mesmo de ser ministro da Administração Interna. Eu acho que ele até gostaria mesmo era de ser primeiro-ministro, mas a verdade é que alguém vai ter de pôr ordem na casa, que é como quem diz no governo, e portanto Luís Montenegro estará em São Tomé, seguro acho que está de férias, mas parece-me que há um problema que tem de ser resolvido por quem de direito, que me parece que não é manifestamente Luís Neves.

E vamos falar tudo isso depois das 10h. Até já, Helena.

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