O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve usar a defesa da soberania e da democracia em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no próximo dia 22, em Nova York, para dar um recado contra interferências externas na eleiç…
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve usar a defesa da soberania e da democracia em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no próximo dia 22, em Nova York, para dar um recado contra interferências externas na eleição brasileira, sem fazer referências a autoridades ou países, segundo fontes do governo. O crime organizado, que ganhou importância na agenda internacional desde o ano passado, também pode ser abordado.
A expectativa é de que Lula siga a linha adotada em seu discurso na ONU no ano passado, quando tratou de soberania e democracia sem citar diretamente ninguém. Segundo um interlocutor, a mensagem foi suficientemente clara para ser identificada e conseguiu transmitir o recado com a polidez necessária ao ambiente diplomático, sem recorrer a uma linguagem afrontosa.
Ontem, o embaixador Carlos Cozendey, secretário de Assuntos Multilaterais Políticos, afirmou ao Valor que a expectativa é que a fala contenha “uma defesa forte do multilateralismo como linha básica da política externa brasileira”.
Uma fonte avalia que a eleição brasileira deste ano está mais protegida contra interferências do que estava em 2022, quando havia receio de interferência militar. Ainda assim, a disputa torna a defesa da democracia relevante para o discurso, diante da avaliação de que democracia e multilateralismo estão sob ataque.
A eleição, porém, não deverá ser o foco do discurso, que deve durar em torno de 20 minutos. Segundo interlocutores, Lula pretende tratar de temas de interesse da comunidade internacional e dar o recado de maneira polida, mas firme. O Supremo Tribunal Federal (STF) não deve ser mencionado, por ser considerado uma questão interna brasileira.
O crime organizado ganhou importância para a comunidade internacional desde o ano passado, o que, na avaliação de fontes, justifica a abordagem por Lula. O assunto também expõe diferenças entre Brasil e Estados Unidos sobre a forma de enfrentar o problema.
Interlocutores brasileiros questionam se classificar como terroristas é a melhor maneira de combater o crime organizado e ressaltam a ampla cooperação bilateral já existente nessa área, com agentes brasileiros trabalhando nos EUA e americanos atuando no Brasil. Lula também apresentou a Trump uma proposta sobre o tema, mas, segundo fontes, não houve resposta americana.
As diferenças voltaram a aparecer nesta semana, após Trump acusar o Brasil de ter falhado no combate às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), em relatório divulgado na quarta-feira (16). Para interlocutores brasileiros, o episódio representa uma tentativa de politizar o combate internacional ao crime organizado, com potencial de beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A inteligência artificial também pode aparecer no discurso. Segundo uma fonte, o tema tem mobilizado cada vez mais a comunidade internacional e merece a atenção de Lula. A discussão ganhou força nos últimos dias após executivos de empresas do próprio setor alertarem para os riscos associados ao rápido avanço da tecnologia.
Como mostrou o Valor, nos Estados Unidos, os alertas ampliaram a pressão sobre o Congresso por uma resposta e levaram o tema para o centro do debate político às vésperas das eleições de meio de mandato. A expectativa é de que Lula faça ao menos uma menção às preocupações relacionadas à IA.
Além da participação na Assembleia Geral, a agenda de Lula em Nova York ainda está sendo elaborada. Até o momento, porém, não há pedido brasileiro ou americano para uma reunião bilateral com Trump, nem movimentação das duas diplomacias nesse sentido. Como os dois estarão no mesmo local e discursarão em sequência, interlocutores consideram natural que possam se cruzar e se cumprimentar.
Entre os pedidos de reuniões recebidos pela equipe brasileira está uma solicitação do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que o governo pretende atender.




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