hoje dou minhas flores em vida ao presidente Lula. Votarei 13 feliz da vida! O post Lula entre a gratidão e a inveja apareceu primeiro em Revista Cult.

Em recente encontro domiciliar, um dos 20 presentes confrontou-me com perguntas que têm tirado seu sono, mas também o meu e o de todos os presentes (e creio que também o de milhões de outros brasileiros e brasileiras que têm, na parede da memória, a lembrança assustadora e dolorosa da era Bolsonaro):

“Jean, como você explica a maior parte da elite econômica deste país, ou seja, banqueiros, grandes empresários, industriais, os operadores do mercado financeiro e os meios de comunicação, principalmente a Globo, a Folha de S.Paulo, o Estadão etc., estarem apoiando figuras políticas do bolsonarismo?”

“Como essas pessoas podem apoiar uma família cuja atuação política foi marcada por ataques às instituições democráticas e por posições tão controversas durante a pandemia de Covid-19?”

“Como as pessoas podem esquecer as imagens das milhares de covas abertas, das pessoas morrendo asfixiadas, e de declarações que banalizavam a doença e atacavam as vacinas?”

“Como esquecer o papel desempenhado por instituições e autoridades na defesa da democracia diante dos ataques de 8 de janeiro de 2023?”

“Existe algum tipo de alma em jornalistas que tratam tudo isso como se não tivesse acontecido e continuam produzindo narrativas capazes de favorecer esse campo político?”

Como vocês podem ver, são perguntas pertinentes mas muito difíceis de serem respondidas. Mas, me esforcei ao máximo para dar a melhor resposta naquele momento. E agora vou tentar respondê-las de maneira mais clara, com argumentos e dados verificáveis.

Para tanto, vou recorrer aos conceitos de “Gratidão” e “Inveja” na psicanálise e na sociologia.

Luiz Inácio Lula da Silva, desde que se tornou presidente pela primeira vez, em 2003, inseriu-se numa economia psíquica e social de inveja e gratidão por parte de indivíduos e coletivos, em que pese ter promovido, em seus governos, mudanças materiais importantes na vida de milhões de brasileiros e brasileiras. Afirmo isto com base não apenas em minhas próprias memórias e no acúmulo gerado pelas minhas quase três décadas de jornalismo, mas também pela leitura dos dois volumes da biografia do presidente escrita por Fernando Morais e lançada pela Companhia das Letras.

Comecemos a explicação por um vídeo que viralizou e que comoveu quem ainda neste mundo não está morto por dentro pelo ódio e pelos preconceitos alimentados e explorados economicamente pela falsolatria das mídias sociais.

Nele, uma mãe diz ao filho, aos prantos, porque discorda da decisão dele de não votar em Lula. Ela cita a fome que passou e lembra que, na idade dele, chegou a comer como lanche “café com farinha”, mistura que, em muitas ocasiões, foi também uma das poucas coisas que eu e meus irmãos e irmãs tínhamos para comer, assim como aconteceu com o próprio presidente Lula.

O que há nessa cena, para mim, é mais do que uma discussão eleitoral. É um conflito entre duas memórias: a mãe fala a partir da experiência direta da fome; o filho, de uma realidade posterior, na qual determinadas conquistas podem parecer naturais, como se sempre tivessem existido.

É aí que entra a gratidão.

Na psicanálise, a gratidão se tornou um conceito especialmente importante com Melanie Klein. Em Inveja e gratidão (1957), ela coloca esses dois sentimentos em relação e mostra como a capacidade de reconhecer e conservar internamente o bem recebido se contrapõe à dificuldade de suportar que o outro possua algo bom.

Antes dela, Georg Simmel já havia pensado a gratidão como elemento das relações duradouras e da própria constituição de um “nós”. E Marcel Mauss, no Ensaio sobre a dádiva (1925), mostrou como a gratidão, a obrigação, a reciprocidade e o reconhecimento participam da construção dos vínculos sociais.

Gratidão é, portanto, mais do que simplesmente dizer “obrigado”. É reconhecer que recebemos algo que não produzimos sozinhos e preservar a memória desse recebimento.

E qual seria, então, o contrário da gratidão?

Com a segurança da leitura atenta das obras de Klein, Simmel e Mauss, é possível responder que não é simplesmente a “ingratidão”, mas sim a inveja: a dificuldade de tolerar que o outro possua algo valioso, podendo levar à desvalorização ou destruição daquilo que ele possui.

A maior parte da classe dominante pode aceitar reformas enquanto estas não ameacem sua posição “distinta”. Ou seja, a transformação pode provocar maior resistência quando ameaça não apenas a riqueza, mas também a distinção, o prestígio e a superioridade simbólica.

Quem não se lembra da antológica cena de “Que horas ela volta?”, obra-prima de Anna Muylaert, em que Val, a empregada doméstica nordestina e mestiça vivida por Regina Casé, comunica à patroa branca que sua filha Jéssica fora aprovada com muito mais pontos que Fabinho (o herdeiro branco mimado) no vestibular da Faculdade de Arquitetura da USP? A reação da mãe e do filho diante da conquista da empregada era de pura inveja…