Reeleito para inédito 4º mandato, petista promete governar diferente, mas terá de enfrentar rejeição, crise fiscal e Congresso à direita.

Reeleito para inédito 4º mandato, petista promete governar diferente, mas terá de enfrentar rejeição, crise fiscal e Congresso à direita.

Sérgio Lima/Poder360 - 16.out.2026

de Brasília 27.out.2026 (terça-feira) - 6h00 Priorize o Poder no Google

Dois dias depois de uma virada histórica e ser eleito para um 4º mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) completa 81 anos nesta 3ª feira (27.out.2026). Aos olhos de aliados e adversários, o petista tenta transformar o resultado das urnas no capítulo final de uma biografia. Quer deixar um legado e, para isso, diz que precisará governar de outro jeito.

Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no domingo (25.out) por 51,79% a 48,21% dos votos. Toma posse em 5 de janeiro de 2027 e deixará o Planalto aos 85 anos, em 2031. Será o presidente mais velho a assumir o cargo no país e o 1º eleito 4 vezes pelo voto direto. Somados os mandatos, terá 16 anos no poder, o dobro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Virar no 2º turno e governar o país 4 vezes é um feito só de Lula.

A data tem peso na biografia do petista. Foi no dia em que completou 57 anos, em 27 de outubro de 2002, que Lula foi eleito pela 1ª vez presidente da República, com 61,27% dos votos válidos no 2º turno contra José Serra (PSDB).

No discurso da vitória, no domingo (25.out), o petista tratou a idade como compromisso, e não como obstáculo. “Eu estou com 80 anos e vou completar 81 depois de amanhã”, disse. Prometeu fazer “o melhor mandato” que um presidente já fez na história do país e dedicar 24 horas por dia ao trabalho.

Também lembrou Franklin Roosevelt, único presidente americano eleito 4 vezes, que não terminou o último mandato por causa de uma doença grave. “O Lulinha vai terminar esse mandato correndo mais do que qualquer um de vocês”, afirmou.

O tom de renovação tem origem numa campanha que quase deu errado. Lula terminou o 1º turno atrás de Flávio por mais de 2 milhões de votos, o que mudou a estratégia petista. Ele próprio chegou a classificar a campanha como a menos organizada de que participou desde 1989.

O diagnóstico interno foi de que o PT havia subestimado as redes sociais. A campanha demorou a entender os formatos virais e seguiu a cartilha tradicional, com o 1º turno dedicado a propostas e o 2º ao desgaste do adversário.

Foi nesse vácuo que cresceu o deputado André Janones (Rede-MG), responsável pelo “Exército do Lula”. O canal de WhatsApp reuniu milhões de inscritos e passou a distribuir missões diárias de engajamento a militantes. Lula, que sempre se declarou distante do celular e das redes, aceitou participar de lives e vídeos curtos e viu a campanha ocupar um espaço antes dominado pela direita. Leia análise do Poder360 sobre a mobilização digital.

O resultado foi a 1ª virada entre os 2 turnos de uma eleição presidencial no país, e a experiência da campanha passou a orientar uma promessa de governo. No discurso, Lula disse que ganhou um celular do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e que já está “aprendendo a conversar”. Afirmou que falará com a população “muitas vezes por dia, diretamente”.

Acrescentou também que a comunicação digital terá “um espaço muito grande” no governo. Num ambiente em que o bolsonarismo domina o debate on-line, o presidente quer criar um canal próprio com o eleitor.

A vitória veio com uma rejeição alta que ombreia a rejeição do governo –um problema que o Lula 3 sempre enfrentou.

O pico foi em maio de 2025: 57% desaprovavam e 40% aprovavam, o pior índice do 3º mandato. Naquela rodada, 56% dos entrevistados diziam que o 3º governo de Lula estava pior que os anteriores, e 31% apontavam o governo como responsável pelo desvio de dinheiro do INSS.

Em julho de 2026, a Quaest registrou 48% de aprovação e 47% de desaprovação, a 1ª vez com saldo positivo desde dezembro de 2024. No fim de agosto, a desaprovação voltou à frente. No 2º turno, o Datafolha chegou a 50% de desaprovação em 15 de outubro e recuou para 48% no dia 22, com 49% de aprovação.

O desafio de ampliar a base é maior entre os evangélicos. Levantamento PoderData/Aya de agosto mostrou que 62% desse grupo desaprovam o presidente.

A campanha também foi marcada por medidas de apelo eleitoral. O Poder360 calculou em R$ 463,8 bilhões o impacto das “bondades” anunciadas em 2026, o que alimenta a desconfiança de parte do eleitorado e do mercado.

O mercado financeiro recebeu a vitória com forte aversão ao risco. Há um descompasso entre expectativa e resultado, já que investidores tinham se posicionado para uma vitória de Flávio.

No 1º pregão após a eleição, a B3 acionou o circuit breaker às 10h05, o 1º desde 2020, e as negociações foram interrompidas.

Os juros futuros também dispararam. A taxa do DI para janeiro de 2033 saltou 1,93 ponto percentual, a 14,58% ao ano. O Tesouro Direto ficou com negociações suspensas durante a manhã.