O DCM entrevistou Gideon Levy, colunista do jornal israelense Haaretz e um dos críticos mais reconhecidos de Israel e da ocupação, que há quatro décadas registra, de dentro da sociedade israelense, o que acontece nos territórios palestinos e como essa ocupaçã…

O DCM entrevistou Gideon Levy, colunista do jornal israelense Haaretz e um dos críticos mais reconhecidos de Israel e da ocupação, que há quatro décadas registra, de dentro da sociedade israelense, o que acontece nos territórios palestinos e como essa ocupação é percebida, justificada e contestada dentro de Israel.

Com incomparável lucidez política e clareza ética, Gideon, voz de dentro e testemunha histórica da fundação do sionismo, aponta onde ainda existe a possibilidade de uma Palestina livre. Ele explica a lógica entre Netanyahu e os Bolsonaro e é categórico: a relação entre Estados Unidos e Israel, tal como existe hoje, terá um fim inevitável, e nenhum presidente americano poderá sustentar essa política indefinidamente.

Diário do Centro do Mundo: O senhor escreve de forma muito contundente, crítica e imperdoável sobre o apartheid, a colonização e o genocídio em Gaza, a partir do jornal mais importante de Israel. Como explica não ter sido censurado?

Gideon Levy: Não fui censurado porque sou privilegiado. Sou privilegiado por ser judeu e privilegiado por trabalhar no Haaretz, que é a única plataforma que me contrataria, imagino. O DNA do Haaretz é muito diferente do DNA da maioria da grande imprensa em Israel. E por isso vozes como a minha têm um grande espaço no Haaretz há muitos e muitos anos. A questão do sionismo aqui não é discutida de forma alguma. Nos últimos anos, estar fora do sionismo virou uma ofensa.

Ser não sionista virou uma maldição. Mas nós nunca fomos rotulados como sionistas; éramos rotulados como judeus ou como israelenses. Essa história do sionismo é bem nova. E eu sinto como ela vai penetrando devagar, muito devagar, no discurso israelense. E você ouve cada vez mais pessoas — muito poucas, mas, ainda assim, mais — que começam a se perguntar: o que significa ser sionista? Eu sou mesmo sionista? E vemos, aos poucos, principalmente no meu jornal e em alguns outros veículos, surgirem perguntas, o que é uma visão maravilhosa.

O Haaretz é o jornal em hebraico mais antigo de Israel. Costumava ser o jornal da elite, não o maior, mas o mais influente. De propriedade privada da mesma família, agora na terceira geração, judeus alemães com um DNA muito claro de liberalismo, de pluralismo, de uma abordagem econômica bastante liberal, nada socialista. Mas, quando se trata de questões políticas, pode ser definido como bastante de esquerda.

Embora eu precise dizer que o Haaretz se define, até este exato momento, como um jornal sionista. Nosso editor-proprietário insiste nisso: o Haaretz é um jornal sionista. Mas, ainda assim, ele abriga alguém como eu, o que nem sempre é muito simples. Houve épocas em que o Haaretz perdeu muito dinheiro por minha causa. Mas, de todo modo, quando você é um jornal liberal que acredita no que faz, que acredita, por exemplo, que os seus leitores merecem receber a verdade e a verdade completa, que você não recebe em nenhum outro veículo. Porque, se você quiser saber qualquer coisa sobre Gaza, sobre o genocídio, sobre a ocupação, sobre o apartheid, você não vai obter isso em nenhum outro veículo da grande imprensa, exceto no nosso. E esse DNA, editor após editor, proprietário após proprietário, foi mantido de forma bastante fiel até hoje.

Você descreveu a existência de um consenso em toda a sociedade israelense em torno da colonização, da hostilidade e da desumanização do palestino, capaz de justificar qualquer violação. Sendo esses os fatos materiais na sociedade israelense, seria possível construir uma sociedade em que israelenses e palestinos pudessem viver juntos?

No momento, é impensável. Especialmente depois do 7 de outubro. Porque o 7 de outubro — não tenho certeza de que já estamos no ponto do tempo em que podemos realmente avaliar a mudança dramática que ele criou. Foi realmente um terremoto, antes de tudo na sociedade israelense, mas não só. Posso falar mais sobre a sociedade israelense, mas está muito claro que não é a mesma sociedade que existia antes. O fascismo se tornou legítimo, o racismo se tornou normalizado. Restou muito pouco, ou quase nada, do campo da paz em Israel; se é que ainda restam alguns poucos, e é só.

Depois do 7 de outubro, a maioria dos israelenses que conheço, e a maioria dos israelenses, chegou à conclusão de que, de agora em diante, Israel tem o direito de fazer o que quiser. E, depois do 7 de outubro, a maioria desses israelenses está profundamente convencida de que não há pessoas inocentes em Gaza, incluindo nem mesmo os mil bebês que foram mortos por Israel. Ninguém é inocente. E a maioria desses israelenses, se não todos, chegou à conclusão de que não há espaço para a paz, nem mesmo para a diplomacia.

Que, de agora em diante, Israel fala apenas uma língua: a língua da espada, a língua do exército, a língua do poder militar. E como primeira opção, não como última. Romper com isso será muito difícil agora. Muito difícil, especialmente depois do 7 de outubro. Não vejo dentro da sociedade israelense nenhuma força que possa fazer isso, com certeza não no curto prazo.

Você acredita que Israel, tal como existe hoje, tem o direito legítimo de existir?

Antes de mais nada, essa pergunta é, neste momento, irrelevante, porque Israel existe e continuará a existir. É um fato consumado. Foi estabelecido da forma mais justa? Não. Poderia ter sido estabelecido de forma mais justa? Sem dúvida, sim. Os judeus tinham o direito de criar um Estado próprio depois do Holocausto? Sem dúvida, sim, mas poderia ter sido diferente, e não foi.

Agora estamos oitenta anos depois da fundação de Israel. A pergunta sobre a sua legitimidade não é se o Estado é legítimo ou não. É o regime que está em questão. E sim, o regime de apartheid de Israel, na minha visão, não é legítimo e deve ser combatido pela comunidade internacional, assim como a comunidade internacional combateu o primeiro Estado de apartheid, ou seja, a África do Sul. Israel é, sem dúvida, o segundo Estado de apartheid da história, e deveria ser tratado como a África do Sul.

Quando você diz “deveria ser tratado como a África do Sul”, você quer dizer boicote, financiamento? Algo como o movimento BDS, que foi feito com a África do Sul?

Eu sei de duas coisas. Sei que Israel não vai mudar por dentro, por si só. Isso não vai mais acontecer. Os israelenses não vão acordar uma manhã e resolver mudar. E sei que, na África do Sul, o verdadeiro divisor de águas foi a atitude da comunidade internacional. No fim, foi isso que mudou o jogo. Então, por que não tentar aqui? Não pode ser que Israel continue com o seu regime, matando e tomando conta, confiscando terras e realmente destruindo o povo palestino. Não é só matar pessoas; é destruir toda a estrutura social do povo palestino, todo o seu patrimônio. Tudo o que Israel está de fato tentando impor ao povo palestino. Não pode ser possível que a comunidade internacional continue indiferente. O que a comunidade internacional pode fazer? Ou enviar tropas, o que não acho nada relevante, e não sou grande defensor de soluções militares, ou tomar algumas medidas, como quando a Rússia invadiu a Crimeia, por exemplo.

Tomar medidas que a comunidade internacional tem o direito e o dever de tomar. Parte delas são jurídicas, parte são econômicas, parte são políticas. O mundo não pode conviver com esse fenômeno. O mundo não pode conviver com Gaza. Não deveria conviver com Gaza.

Como seria uma Palestina livre? Você acredita na solução de dois Estados?

Estamos falando nos termos de ontem. Estamos falando agora de um trem que deixou a estação há muito tempo e não vai voltar. E, por isso, todo esse discurso, todo esse debate, é totalmente irrelevante. Não haverá Estado palestino. Israel nunca teve a intenção de permiti-lo, mas agora é tarde demais. Os colonos tomaram conta — setecentos mil colonos, parte do grupo político mais violento e mais poderoso de Israel, e ninguém vai retirá-los. Não há espaço para um Estado palestino.

Temos que começar a perceber isso, reconhecer isso e admitir isso, porque continuar falando da solução de dois Estados significa fazer o jogo do ocupante. Durante décadas nos disseram — a AP, a Autoridade Palestina, a UE, a União Europeia, os Estados Unidos da América, a América Latina — não há uma única questão global sobre a qual haja tanto consenso. De fato, da China à Rússia, da Índia ao Brasil, de que a solução de dois Estados é a solução. E, com isso, todos nós vivemos em paz com a ocupação, porque há uma solução. Só precisamos implementá-la. O problema é que o tempo passou e não fizemos nada. A comunidade internacional, Israel, não fizeram nada. A AP não fez o suficiente, e aqui estamos.